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A tecnologia invadiu também o desporto?

Rui Pedro Cipriano · 5 min

A tecnologia invadiu também o desporto?
Foto: FIFA

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Cabeçalho Futebol NacionalComeçando por responder à pergunta que coloquei no título: sim, a tecnologia invadiu o desporto, ainda que esta invasão possa ser sentida mais em alguns desportos do que em outros e nos mais diversos aspetos desportivos.

Ultimamente, a tecnologia no desporto tem tido um único foco mediático, que é o da arbitragem. Com a introdução do vídeo-árbitro no futebol, muita gente olha para a entrada da tecnologia no desporto unicamente por esta vertente, mas a verdade é que a tecnologia está presente em muitos mais desportos, ultrapassando o simples jogo e constituindo-se, não só como uma ferramenta de apoio aos árbitros, mas também aos próprios treinadores, preparadores físicos e restante equipa técnica.

A revolução tecnológica que se tem feito sentir no mundo desde os finais do século passado começou também a entrar no desporto no inicio deste século – vários desportos, como o ténis e o râguebi, foram pioneiros na liberalização da tecnologia ao desporto. O ténis com a ferramenta do Hawk-Eye, que permite aos jogadores solicitar a revisão de um determinado ponto, independentemente da decisão dos juízes; e o râguebi com a introdução do vídeo-árbitro em 2001, que hoje é já uma ferramenta bem conhecida dos adeptos portugueses, mas que teve entrada no futebol apenas em 2017.

Falando no caso especifico do futebol, e arrumando desde já o lado mais conhecido, que é o da arbitragem, a tecnologia começou por entrar discretamente no futebol com o Hawk-Eye que, apesar de ter sido introduzida no ténis em 2004, no futebol apenas entrou em 2012.

O Hawk-Eye veio acabar com um erro grosseiro, mas havia ainda muitos erros grosseiros por onde olhar Fonte: Hawk-Eye Innovations
O Hawk-Eye veio acabar com um erro grosseiro, mas havia ainda muitos erros por onde olhar
Fonte: Hawk-Eye Innovations

O Hawk-Eye, no futebol, como muitos saberão, tem uma única função principal, a de acabar com a clássica dúvida – a bola entrou ou não? -, dando o alerta ao árbitro no seu relógio caso a bola tenha entrado totalmente. Esta foi a primeira grande ajuda da tecnologia aos árbitros registada no futebol, mas que não chega à grande maioria das ligas pelos seus elevados custos económicos.

Podemos considerar o futebol um desporto que sempre foi muito relutante em relação à entrada das tecnologias para ajuda dos árbitros, principalmente durante o mandato de Joseph Blatter na FIFA.

O presidente suíço era publicamente cético em relação à introdução das novas tecnologias no futebol e, embora em muitos dos desportos a tecnologia fosse já uma presença assídua e normal, no futebol preferia optar-se por introduzir mais dois árbitros em campo para auxílio do árbitro principal, uma medida que veio a provar-se muito pouco eficaz para os efeitos desejados.

Era, assim, inevitável, não podíamos continuar de olhos fechados ao crescente poder da tecnologia na sociedade e continuarmos a olhar para o nosso futebol, tradicionalista e polémico, como um mundo à parte.

O futebol também tinha que passar por um processo de evolução e é dessa maneira que surge o vídeo-árbitro, uma ferramenta que chegou e prometeu vir acabar com alguns erros grosseiros dos árbitros. Depois de legislado pela International Board, o vídeo-árbitro chegava ao futebol em modo de teste, sendo a Liga Portuguesa uma das escolhidas para ser das pioneiras na introdução desta tecnologia.

O vídeo-árbitro chegou e ainda não convenceu totalmente, o casamento entre a tecnologia e o futebol não tem sido fácil desde o início Fonte: FIFA
O vídeo-árbitro chegou e ainda não convenceu totalmente – o casamento entre a tecnologia e o futebol não tem sido fácil desde o início
Fonte: FIFA

Passada a época prevista de teste, 2016/2017, chegava a altura de começar a sério e o vídeo-árbitro arrancava em modo online. Parece ainda não ter convencido os mais céticos, os próprios adeptos de futebol precisam de passar por um período de adaptação a esta tecnologia.

Finalizada esta perspetiva da tecnologia no desporto, que é também a mais difundida, falta agora falar daquele lado tecnológico que já está presente no futebol há bem mais tempo e não é tão conhecido pelo adepto comum.

Os clubes de futebol cada vez mais sentiam a necessidade de compactar todas as informações da performance desportiva de cada jogador numa base de dados, de forma a ser mais fácil a sua consulta pela equipa técnica. Assim, os clubes olhavam para a tecnologia disponível no mercado como uma ferramenta útil para essa análise mais profunda.

Se no campo da arbitragem a tecnologia demorou a chegar, no futebol fora de campo e em treino, a tecnologia chegava bem cedo, pela mão dos clubes mais poderosos que investiam grandes quantidades de dinheiro nas empresas tecnológicas mais conhecidas, de forma a tirar o maior partido da tecnologia em prol da performance desportiva do clube.

Hoje em dia, os clubes conseguem reunir uma quantidade absurda de dados sobre os jogadores: desde as horas que dormem, à quantidade de quilómetros percorridos, os batimentos médios cardíacos, a taxa de acerto de passes de um jogador por jogo, etc: todas aquelas dificuldades que muitos treinadores sentiam no século passado em relação à performance individual de um jogador ou mesmo em estudar um adversário acabou, com esta nova tecnologia.

O analista de dados passa despercebido no meio das bancadas de um jogo de futebol, mas é hoje uma peça importante dentro de um clube de futebol de topo Fonte: FutGestão
O analista de dados passa despercebido no meio das bancadas de um jogo de futebol, mas é hoje uma peça importante dentro de um clube de futebol de topo
Fonte: FutGestão

Se há coisa que estas inovações trouxeram aos treinadores de hoje foi a oportunidade de maximização da performance dos jogadores: com toda esta presença assídua da tecnologia no dia-a-dia do clube, é possível integrar, dentro da própria equipa técnica, pessoas ligadas ao ramo tecnológico e que fazem a ponte entre a tecnologia e o treinador – são os chamados analistas de dados.

Mas a revolução tecnológica dentro dos clubes não se ficou só por aqui: aquilo a que se assistiu dentro dos centros de estágio dos clubes mais poderosos europeus foi também uma ajuda da tecnologia no próprio desenvolvimento dos seus jovens jogadores. O exemplo mais flagrante e conhecido em Portugal é o simulador gigante que existe no Caixa Futebol Campus, no Seixal, chamado 360S, e onde os jovens jogadores do SL Benfica conseguem treinar os seus reflexos e a sua precisão de passe; é um perfeito exemplo da forma como a tecnologia invadiu também a formação e reinventou os métodos de treino:

Outro exemplo, e pegando noutro clube nacional, de como a tecnologia tem sido usada em prol do futebol de formação é o Sporting CP, que possui um software denominado de Football ISM. Esta ferramenta permite juntar observações e dados num só canal, sendo um software que está já obviamente presente na Academia em Alcochete e, certamente, tem ajudado, e muito, os olheiros do Sporting e os treinadores da formação leonina.

E é precisamente pegando na deteção e prospeção de talentos que finalizo este artigo, depois de falarmos da tecnologia que entrou e ajudou os árbitros, os treinadores, os jogadores, a formação, falta falar da tecnologia que ajudou os olheiros (e os dirigentes) dos clubes de futebol (e um pouco por outros desportos também). Inúmeros softwares têm sido criados e os clubes têm usufruído deles, tendo acesso aos dados que os olheiros reúnem e aos relatórios de observação que colocam, podendo mais tarde ser consultados por quem toma decisões em relação à contratação – ou não – de novos talentos.

Esta é uma ferramenta que veio simplificar e ajudar muito na comunicação do departamento de scouting dos clubes com os departamentos de futebol. Softwares como o TalentSpy são sobejamente conhecidos e alvo de várias parcerias com muitos clubes, dando a possibilidade aos clubes de terem acesso aos inúmeros relatórios de vários jogadores que ali são colocados.

Se ficaste com dúvidas de como este tipo de softwares são trabalhados, nada melhor do que um vídeo explicativo, feito por quem habituado está a trabalhar no mundo do scouting:

 

Foto de Capa: FIFA

Artigo revisto por: Francisca Carvalho

Rui Pedro Cipriano

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