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CF “Os Belenenses” – 100 anos, 100 histórias azuis para contar

Guilherme Costa · 7 min

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O passado sábado, dia 7 de setembro, foi de festa e muito futebol em Belém. No mítico Estádio do Restelo, foi dado o “pontapé de saída” para as comemorações do centésimo aniversário do Clube de Futebol “Os Belenenses” – as restantes festividades irão ocorrer nos dias 23 e 27 de setembro –, com a “Tarde do Centenário”.

O evento tinha como principal objetivo a apresentação da equipa sénior para a época 2019/2020 aos seus adeptos e sócios, e, além disso, continha  mais um “extra”: a equipa de veteranos dos “Azuis do Restelo” iria defrontar a equipa de veteranos do Real Madrid CF, numa reedição do duelo ocorrido a 14 de dezembro de 1947, quando foi inaugurado o Estádio Chamartin (o atual Santiago Bernabeu).

“Saudade, eu te matei de fome” – o sample da canção “Irene” músico brasileiro Rodrigo Amarante – e utilizado na música “Saudade” do rapper português Dillaz, que se ouviu nas colunas do Estádio no pré-jogo – simboliza perfeitamente o sentimento que os/as entrevistados/as pelo Bola na Rede evidenciaram quando foram desafiados a contar uma história que vivenciaram ao longo dos 100 anos de existência do Clube de Futebol “Os Belenenses”.

Quando abordados para falar acerca do seu amor ao clube, os adeptos da equipa do Restelo demonstraram algum receio em querer relatar um momento marcante, mas, perante a insistência de um redator que adora boas histórias sobre o Desporto Rei, lá aceitaram dar o seu testemunho e ajudar a compor um belo artigo de reportagem, uma vez que os clubes são feitos de apoiantes que vibram intensamente com as suas vitórias e não deixam de apoiar mesmo na hora das derrotas.

O primeiro entrevistado foi o senhor António Almeida, de 66 anos. Sócio desde 1972, António afirmou que associa o verbo “Vencer” ao seu clube do coração, uma vez que “faz parte do nosso lema uma certeza de vencer” e recordou as finais da Taça de Portugal e sobretudo o campeonato de 1975/76 em que os homens do Restelo ficou em terceiro: “Tivemos grandes vitórias frente aos ditos ‘Três Grandes’, num campeonato em que ficámos em terceiro e não sofremos derrotas em casa nessa época. Foi um ano espetacular, tínhamos uma equipa extraordinária composta por Godinho, Quaresma e muitos outros que eram excelentes jogadores”.

António Almeida fez questão de ser fotografado junto do memorial de Pepe, antiga glória do C.F. “Os Belenenses”
Fonte: Guilherme Costa/Bola na Rede

O seguinte entrevistado foi Paulo Carmo, que marca presença nas bancadas do Restelo para apoiar o Belenenses desde os seus três anos de idade. A memória que o torcedor de 50 anos fez questão de partilhar com o Bola na Rede foi a final da Taça de 1989, por razões familiares: “Foi a última final que o meu pai esteve presente e depois ele faleceu infelizmente. Foi um dia especial, pois metade do Estádio (do Jamor) era nosso e outra era do Benfica, que tinha acabado de disputar a final da Liga dos Campeões e tinha uma equipa bestial. Nós éramos treinados pelo Marinho Peres e, ao pé do Benfica, ninguém dava importância à nossa equipa mas o certo é que nessa caminhada vencemos o Sporting, Porto e Benfica, uma coisa sem igual e espetacular. Ficámos super felizes e fomos para a Praça Afonso Albuquerque festejar, foi uma alegria imensa para mim”. Além disso, Paulo defendeu que a proximidade dos adeptos com os jogadores é um dos principais motivos para o Belenenses ser diferente das outras equipas: “Nós temos uma proximidade muito grande com os atletas de todas as modalidades e são quase nossos irmãos, fazem parte da família”.

Paulo Carmo falou sobre a final da Taça de Portugal de 1989
Fonte: Guilherme Costa/Bola na Rede

Na altura de entrada nas bancadas do Restelo, fomos à procura de mais testemunhos e eis que encontrámos uma adepta especial: a senhora Maria Isabel Silva com os seus 76 anos.

O contacto inicial foi complicado, pois a entrevistada recusou falar com o Bola na Rede, mas, mais uma vez a insistência “deu frutos”, e a recusa inicial tornou-se em aceitação do convite para contar a sua história com o Belenenses. Sócia há 27 anos, Maria contou que “foi o meu marido que me propus para sócia” e, desde aí, a família tornou-se toda adepta do Belenenses: “A seguir a me tornar sócia, o meu filho, a minha nora e os meus netos também passaram a ser sócios do Belenenses”.

Quando lhe pedimos para falar sobre um momento marcante, a senhora recordou duas finais em que o seu clube marcou presença e que tiveram desfechos totalmente opostos: “A primeira memória que me recordo é a final da Taça de 2007 frente ao Sporting, em que o meu marido estava hospitalizado e pediu para que o Belenenses ganhasse o ‘caneco’ e infelizmente não conseguimos vencer, sendo um enorme desgosto para mim. Também me recordo da final da Taça de Portugal em Futsal, em que conquistámos a prova frente ao Benfica em 2010, o que me deixou muito feliz”, sendo assim uma clara demonstração de que os apoiantes do Belenenses não ligam apenas ao Futebol, mas também às outras modalidades existentes (Futsal, Basquetebol, Andebol, Atletismo, Natação, Rugby, Voleibol e Triatlo).

Antes de dizermos adeus a esta simpática senhora, foi pedido para lhe tirarmos uma fotografia para colocar na reportagem, e aí voltou a recusa, mas desta vez era em tirar uma fotografia e a justificação para tal atitude foi engraçada: “Não quero tirar fotos, pois vou estragar a câmara!”. A persuasão foi novamente importante e lá conseguimos registar o momento. Muito obrigado pela ajuda cara senhora Maria Isabel Silva!

A senhora Maria Isabel Silva acompanha todos os jogos do “seu” Belenenses
Fonte: Guilherme Costa/Bola na Rede

O último entrevistado foi Bernardo Reis. Com 25 anos de sócio, o adepto falou do seu avô que “trabalhou no Belenenses como enfermeiro, massagista e fisioterapeuta durante cerca de 60 anos”, e isso influenciou-lhe a ser do Belenenses: “Desde criança que me lembro de vir ao Belenenses com ele e ganhei o gosto a este clube”. Além do seu avô, Bernardo recordou um episódio marcante com o antigo treinador brasileiro Marinho Peres: “Um dia, entrei com o meu avô e fui ao balneário ter com os jogadores, e o Marinho Peres, que é um treinador emblemático do passado do Belenenses, disse-me uma frase dum antigo conhecido do público português, o Raúl Solnado, que até hoje me ficou na cabeça que foi ‘Não é do Belenenses quem quer, é só quem pode’. A partir desse dia, comecei a viver mais o Belenenses e cada vez mais essa frase faz sentido para mim como adepto, pois sofremos bastante por amor a este clube histórico, tanto nos bons e maus momentos”.

Bernardo Reis recordou o treinador Marinho Peres
Fonte: Guilherme Costa/Bola na Rede

Depois de recolher os depoimentos dos adeptos, foi tempo de assistir ao jogo da equipa sénior frente a outro histórico do futebol português, o SC Salgueiros, que se encontra atualmente a disputar a Divisão de Elite da A.F. do Porto. Antes do apito inicial, houve tempo para a apresentação da camisola do centenário e chamada dos jogadores que compõem o plantel que irá tentar repetir o feito da época passada e conquistar a 2ª Divisão da A.F. de Lisboa, com destaque para os reforços Bernardo Lopes (ex-Estrela da Amadora), Gabriel Bonfanti (ex-Coruchense) e Juan (ex-Coutada), além dos atletas promovidos aos séniores Rorigo Santos e Tiago Marques. Quanto ao jogo em si que foi bastante entretido e teve bons momentos de futebol, o CF “Os Belenenses” foi mais forte que o seu oponente e venceu por 3-2, com o reforço Bruno Botas – veio do Alta de Lisboa – a ser a figura da partida, ao bisar na segunda parte.

Os “Azuis do Restelo” venceram por 3-2 o SC Salgueiros
Fonte: Luís Silva/CF “Os Belenenses”

A tarde de futebol no Restelo só terminou após o tão aguardado duelo entre as equipas de veteranos de Belenenses e Real Madrid. Frente a frente, estiveram craques de outros tempos e que deixaram saudades nos adeptos, como Marco Paulo, Cândido Costa, João Paulo Brito (Belenenses) e Roberto Carlos, Butragueño e Karembeu (Real Madrid). A equipa espanhola acabou por levar a melhor e triunfou por 1-6, mas o resultado foi o menos importante e valeu mais o convívio e a oportunidade para os mais novos verem jogadores que brilharam ao mais alto nível num passado não muito distante.

As equipas de veteranos do CF “Os Belenenses” e Real Madrid CF proporcionaram um belo jogo de futebol
Fonte: Luís Silva/CF “Os Belenenses”

A ideia com que se fica é que o Belenenses é de facto um dos históricos do futebol português, e a prova disso mesmo são os seus adeptos que adoram o seu clube, e estão sempre prontos a apoiar nas horas boas e más. Foi mesmo uma tarde repleta de festa, futebol e muitas histórias que tivemos oportunidade de ouvir sobre os tempos passados do conjunto do Restelo durante o evento. Muitos parabéns ao CF “Os Belenenses” pelo seu centésimo aniversário, e que venha mais um século de existência, para que se possam contar mais cem histórias em tons de azul!

Notas Finais:

  • Agradecer ao fotógrafo do CF “Os Belenenses”, Luís Silva, pela cedência das fotos do evento “Tarde do Centenário”
  • Agradecer ainda aos entrevistados que falaram com o Bola na Rede, mas que não foi possível colocar o seu depoimento no artigo: o Sr.º Miguel Horta, a Sr.ª Carla e o Sr.º José Luís Magrinho

Foto de Capa: Luís Silva/CF “Os Belenenses”

Revisto por: Jorge Neves

Guilherme Costa

Redação Bola na Rede · ver artigos