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De Canudo e Bola na Mão: Diário de um Desportista Universitário

Redação BnR · 7 min

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Reportagem de André Maia e Guilherme Costa

Diz-se que a vida académica, a desses homens do futuro, é boémia. Que é construída ao sabor do vento e do café. Sem pressas, sem stress. Tranquila e simplificada. Talvez o seja para muitos, mas não para Rodrigo. Não que a vida universitária seja, para ele, um sacrifício, mas tranquila seria um exagero. Porquê? Porque no meio dos cadernos e das noites mal dormidas, é atleta e dirigente desportivo universitário. Pouca tranquilidade? Talvez. Mas muita felicidade. É isso que diz cada um dos seus dias. Este é apenas mais um deles.

Cheguei cansado ao ISEL – Instituto Superior de Engenharia de Lisboa –, já com o peso de quase todo um dia nas pernas e na cabeça. Carregado, de tripé e mochila às costas, procurava na zona dos campos de futsal um tal de Rodrigo Morais. Disseram-me que era atleta e dirigente universitário. Tanta coisa para uma só alma académica, pensava eu do fundo do meu preenchido dia jornalístico e também ele académico. Quando finalmente dei de caras com ele, percebi que talvez o meu dia fosse, na verdade, uma bênção.

Passado alguns minutos lá apareceu, sorridente pela pausa: Rodrigo Carvalho Morais. Tem 24 anos e é estudante do 2º ano de Engenharia Eletrotécnica, mas já com uns quantos anos em cima. Anos e atividades, porque não é só o curso que ocupa a rotina de Rodrigo. Desde 2015 que joga na equipa de futsal e de futebol da AE ISEL, acumulando, também desde esse ano, o cargo de Responsável pelo Desporto da Associação de Estudantes.

“Na AE ISEL tenho ocupação mais regular: trato das inscrições dos atletas e das equipas no início de ano e depois, ao longo do ano e no decorrer dos campeonatos, organizo os jogos e tudo o que lhes está adjacente”, diz Rodrigo. E é realmente muita coisa: “Tudo o que seja material e marcação de treinos, gestão de atletas, comunicação com treinadores, entre outras coisas semelhantes, sou eu que trato. Todos os dias tiro um pouco do dia para organizar jogos e situações envolventes”, acrescenta.

O tempo que passa no departamento de Desporto da AE ISEL é direcionado para a organização dos horários e do material
Fonte: Bola na Rede

Mas se apenas isto parece dar trabalho, então adicione-se mais um cargo. Rodrigo é, desde o ano passado, vogal do Conselho de Disciplina da ADESL, Associação Desportiva do Ensino Superior de Lisboa, organização que gere os Campeonatos Universitários de Lisboa. Acredita que não lhe retira tanto tempo como as suas funções na AE ISEL, mas não tem dúvidas de que dá muito trabalho: “Tenho de ir ao Estádio Universitário, no mínimo, uma vez por semana, para verificar os relatórios disciplinares. Não convém acumular isso, até para os atletas terem sempre informação atualizada”.

«Às vezes não é fácil ter cuidado com a alimentação e com a condição física. Afinal de contas, um universitário que não viva a vida, não é universitário»

Um trabalho semanal, portanto, mas que implica uma dedicação regular e uma organização extrema devido ao excesso. Aquele dia, o da nossa entrevista, foi o exemplo perfeito. Rodrigo vive na Ericeira, o que não ajuda muito às contas: “Hoje tive de acordar por volta das 6h15, para sair de casa às 6h50 e estar aqui no ISEL às 8h00, que é quando começam as minhas aulas”.

Aulas! Não nos esqueçamos desse “pequeno” pormenor. A juntar às atividades já referidas, há um curso para acabar. “Dá para se fazer uma boa gestão. Eu tenho aulas de manhã e à tarde, mas tenho sempre um espaço pelo meio e é aí que trabalho”. E aqui chegamos a uma questão que muitas vezes assola a mente dos universitários: há tempo para tudo? “Há, pode é não ser gerido muito bem. Acho que podia até gerir melhor o meu, porque por vezes a gestão desportiva e os treinos ficam por cima daquilo que realmente interessa, neste caso o estudo.”

Apesar disso, Rodrigo é assertivo: acha que quem gosta mesmo de um desporto deve realmente falar com as AEs e entrar o mais depressa possível. “Deve-se sempre procurar estas experiências universitárias, que são muito pessoais e sociais. No fundo é criar relações e espírito de equipa, o que é muito útil para a formação de um universitário!”, explica.

«Quando se gosta de algo, dá tempo para se fazer uma boa gestão. Eu tenho aulas de manhã e à tarde, mas tenho sempre um espaço pelo meio e é aí que trabalho»

E por falar em formação, continuamos nas aulas. Rodrigo tem-nas até à hora de almoço. Depois disso, segue para o Estádio Universitário de Lisboa, onde está a sede da ADESL. É aqui que revê todas as fichas de jogo da semana e analisa os casos de incumprimento, para posteriormente decidir com os colegas os castigos que irão impor a atletas ou dirigentes com comportamento incorreto. É um trabalho minucioso, mas que, segundo Rodrigo, pode ser feito em casa. Por isso voltamos para ela. Não para a da Ericeira, mas sim para a segunda casa, o ISEL.

Rodrigo regressa depois do almoço. Tem novamente aulas até cerca das 17h00. É no marcar dessa hora que volta a fazer uma pausa, mas não para descansar: é tempo de se focar no desporto da AE ISEL. Todos os dias tem de dar um bocadinho do seu dia à associação. Naquele dia havia que marcar treinos para o dia seguinte e preparar todo o material para aqueles que aconteceriam nesse dia, um deles o seu – tinha treino de futsal.

Passeios constantes entre a secretária, para teclar no computador horários semanais, e o armário dos equipamentos, para os arrumar, não lhe deixam muito tempo livre. Mas sempre dá um segundo ou outro para relembrar conquistas. Olhando para três troféus expostos no cimo de um móvel – um deles partido, depois de muitos festejos –, Rodrigo admite que prefere o trabalho no campo, o jogo, do que a parte de secretaria, apesar de gostar de ambos.

À esquerda o troféu – partido – de campeão de futsal de Lisboa do ano passado; ao meio o troféu de campeão da segunda divisão em 2015/2016; e à direita, o troféu da supertaça universitária de Lisboa de Futsal
Fonte: Bola na Rede

E o jogo nem lhe tem corrido nada mal: está nomeado para melhor jogador do Campeonato de Futebol Universitário de Lisboa. Apesar de manter a humildade, não esconde a felicidade pela nomeação, ainda mais por nunca ter tido formação de futebol. “Nunca esperei isto. Nunca tive formação de futebol, aprendi tudo com os amigos e com os treinos que tive aqui no futsal, nada mais”. Ainda estará a tempo de uma carreira de futebol? Talvez não, mas e se o sonho se pudesse concretizar? “Quando somos pequenos temos sempre o sonho de sermos futebolistas, mas com esta idade escolheria o curso acima de uma proposta para jogar futebol”.

Resta então o tempo de jogo na universidade para desfrutar. Em cheio, porque já são horas de treinar: 19h00, fecha-se o gabinete de desporto e segue-se para o campo de futsal do ISEL, passando primeiro pelo balneário para se equipar. Nesta altura já vai o dia de Rodrigo com 13 horas e ainda há energia para jogar. E as condições não são as melhores: chove com alguma intensidade. “Gravem isto, rapaziada. Isto é que se deve mostrar: os campeões de futsal de Lisboa têm de treinar à chuva, nem nos não cobertura”, grita para nós o treinador da equipa.

Os treinos são tardios, mas valem sempre a pena. Nem o pequeno balneário desmotivou a equipa da AE ISEL
Fonte: Bola na Rede

Porém, nem a chuva pode parar o treino. Há exercícios específicos, há simulação de jogo e situação de jogo condicionada. Tudo com o piso escorregadio, bem propenso a lesões, lesões essas que já afetaram Rodrigo. Já esteve parado dois meses por um entorse no joelho, mas nem tudo foi mau, já que aproveitou para ser treinador nesse período. Agora deixa esse trabalho para outros, em quem confia completamente: “No futebol, este ano, as coisas não correram assim tão bem para a equipa, mas o trabalho do treinador ajudou a potencializar-me e tenho a certeza que sem ele não tinha sido nomeado.

«Marquei nove golos e fiz três assistências, mas no desporto universitário só isso não chega. O papel do treinador foi importantíssimo, sem ele não tinha chegado aí»

A chuva acabou por desaparecer e nós fomos com ela. Eram cerca das 20h00 quando  deixámos Rodrigo em campo, no local de que mais gosta, sem o avisarmos para não o desconcentrarmos. Afinal de contas, as fases finais estavam a aproximar-se e não convinha perturbar: “Perdemos alguns jogadores face ao ano passado, mas mesmo assim temos mantido o nível e temos trabalhado imenso. Queremos chegar pelo menos à final!”, disse-nos antes. O objetivo já está cumprido. A AE ISEL chegou à final de Futsal que se disputa hoje. Um prémio que mostra que quando as coisas são feitas por amor, nada é demais. Nem as horas. Nem mesmo se o dia começar às 6h15 e acabar, suado, depois das 21h00.

Mesmo com chuva forte e com frio, o treino nunca parou
Fonte: Bola na Rede
Redação BnR

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