Publicidade

Fórum do Treinador 2016: A Ideia de Jogo e o Treinador do Presente

Redação BnR · 13 min

O mister a afinar a máquina! Fonte: FC Porto

Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google

cab reportagem bola na rede

Setúbal. Avenida Luísa Todi. Fórum Municipal Luísa Todi. Para os mais distraídos, Luísa Todi é provavelmente a cantora lírica mais famigerada da história portuguesa. Hoje, a casa em seu nome acolheu o primeiro dia do Fórum do Treinador Português de Futebol/Futsal, organizado pela Associação Nacional de Treinadores. Luísa Todi saiu de Setúbal no século XVIII para actuar em Paris, Berlim, Turim, Génova ou São Petersburgo e encantou a Europa com o seu talento musical. Hoje é José Mourinho, treinador de futebol, o embaixador mais mediático desta cidade à beira-Sado, que este ano até é Cidade Europeia do Desporto.

 

AS RELAÇÕES DE JOSÉ PESEIRO

Os trabalhos começaram com uma entrevista ao treinador do FC Porto, José Peseiro. O ribatejano, no tom mais informal e familiar possível, sobejamente frontal, não se coibiu de comentar alguns temas da actualidade.

Falou do caso Maicon. E da pressão que o então capitão do Porto sentiu naquele fatídico momento em que saiu inexplicavelmente do campo. Um erro que “não se pode emendar”, lembra. Até porque num clube como o FC Porto “tudo o que se faz tem repercussões a mil”. “Disse-lhe «fica aí dentro, vais marcar o golo do empate»”, mas Maicon não ficou. Saiu do campo e do clube.

Falou da relação com os árbitros. “Eu gosto dos árbitros”, começou. “Os árbitros podem errar”. José Peseiro entende que, como todos os outros, os árbitros estão sujeitos à crítica e os treinadores têm direito a queixar-se do seu trabalho. “Não ganham nada em ficar calados. No Sporting estive um ano sem falar dos árbitros, a massa associativa criticava-me”.

Falou da relação com a derrota. “Fazes-me lembrar estas merdas?”, perguntou ao moderador Paulo Sérgio quando confrontado com episódios como a derrota sofrida pelo Sporting em Alvalade na final da Taça UEFA em 2005 e a eliminação da Arábia Saudita no play-off de acesso ao Mundial 2010. “Quando perdi [esse jogo] foi uma dor insuportável, só me apetecia ficar 15 dias fechado em casa. Tanto que depois perdemos com o Nacional da Madeira e fomos ultrapassados pelo FC Porto”. Mas, para José Peseiro, os treinadores vão vivendo sempre de forma diferente com a amargura dos desaires. “Lidar com uma derrota aos 30, aos 40 ou aos 50 é sempre diferente”.

Falou da relação entre a derrota e os árbitros. “Mesmo que nos queixemos do árbitro na conferência de imprensa, a primeira coisa em que pensamos é nas nossas próprias culpas”.

Falou da relação com jogadores e estruturas de topo.

Primeiro sobre o Real Madrid, onde esteve como adjunto de Carlos Queiroz, e a constelação de vedetas do clube merengue naquela altura. Garante que aprendem mais rápido do que os outros, mas que “precisam da relação humana” com a equipa técnica e com os colegas, uma vez que“também têm fraquezas e inseguranças”. Afinal, eles “não têm uma vida normal. Por exemplo, numa discoteca não estão no meio dos outros, estão num espaço privado com 10 ou 12 pessoas”. Os egos inchados não são um problema, até porque “eles também têm lacunas e temos de ter a coragem de lhes dizer e de os ensinar”.

Depois sobre o FC Porto. E do “tempo que aqueles jogadores [os do plantel actual] precisam para conhecer o Porto”. “Eu próprio tenho de viver o que é o Porto, tenho de subir. Se calhar também tenho essa fraqueza, por que não assumi-lo?”, atirou.

FERNANDO SANTOS E A SELECÇÃO NACIONAL

Em breve a selecção portuguesa viaja até França com o sonho de trazer o troféu Henri Delaunay, que consagra os campeões da Europa.

Mas antes de falar da equipa de todos nós, Fernando Santos alertou os jovens treinadores no auditório: “acho bem que lutem, mas têm de ter a noção de que muitos não vão entrar [na profissão]. Conheço muita gente com qualidade que anda pelas Segundas Ligas”. Para além do trabalho e da competência, “é preciso ter sorte para ter acesso às oportunidades”.

Nunca foi campeão na Grécia, mas foi o treinador da década naquele país e acabou a orientar a selecção no último Mundial. Fernando Santos está convicto de que o reconhecimento prestado pelos helénicos se deve essencialmente à confiança que os jogadores com quem trabalhou depositam no seu trabalho.

O seleccionador destaca uma das maiores diferenças entre treinar diariamente um clube ou gerir uma selecção nacional em curtíssimos períodos de tempo. “[Na selecção] só somos treinadores no jogo, no estágio não dá para nada. E os jogadores não são meus”, recorda. “Estão lá porque querem, porque amam o seu país, até podiam não estar”.

Essa gestão do grupo tem sido afinada. Na primeira concentração com a selecção portuguesa, viu os seus planos milimetricamente estruturados saírem furados pelos numerosos compromissos mediáticos e familiares dos jogadores nos momentos em que regressam a Portugal. Na segunda concentração, percebendo a necessidade de liberdade dos atletas, deu-lhes o Domingo de folga. “Jogadores às quatro da manhã numa boite” fizeram-no alterar sistematicamente a sua abordagem à realidade.

O estágio que antecede o início do Europeu vai ser muito longo. “Vamos estar 50 dias juntos e teremos de criar situações para que os jogadores se sintam libertos da pressão. Senão às tantas já ninguém se consegue ver à frente”. Garante, por isso, que um jogador só não vai “se impossibilitado fisicamente. Nenhum vai estar bem fisicamente, mas há tempo para recuperar”.

Fernando Santos dá a receita para o sucesso em França: “vamos procurar equilibrar a equipa em cada sector e entre sectores. É possível que mudemos a nossa forma de jogar a meio da competição”.

E outro aviso: “a selecção é um grupo forte, em que há confiança entre todos, mas não é um grupo fechado. No meio-campo, Portugal tem 12/13 jogadores que podiam ser convocados, mas só vão 6 ou 7”.

Fernando Santos à conversa com Henrique Calisto
Fernando Santos à conversa com Henrique Calisto

LITO VIDIGAL E O AROUCA EUROPEU

O Arouca é a equipa sensação do campeonato português. Ninguém acreditaria, à partida, que a turma de Lito Vidigal pudesse estar na luta pelas competições europeias. Ainda assim, o treinador do clube arouquense prefere manter um discurso cauteloso, abordando o final de temporada com expectativas moderadas. “Queria estar a dizer que queria ser campeão, mas o nosso objectivo continua a ser a manutenção”, assume. Ao seu estilo, o antigo técnico do Belenenses enaltece aquilo que o Arouca tem feito com escassos recursos. “Se dissesse no início da época que ia lutar por títulos chamavam-me louco. Se dissesse que ia lutar pela Europa já era só desequilibrado”, ironiza.

Depois de uma série de 7 jogos sem perder, o emblema do distrito de Aveiro foi goleado em Alvalade na última jornada, mas Lito desdramatiza. “Aquele jogo foi um teste para nós. Crescemos depois do jogo com o FC Porto, quis ver até onde podíamos ir e disse-lhes só para jogarem o seu jogo”, explica. Apesar da temporada acima das expectativas, o treinador luso-angolano não tem problemas em admitir que o Arouca “está longe do nível mais alto do campeonato”.

A GESTÃO DO CALENDÁRIO

É uma questão que todos os anos gera muita discussão, como se viu após o Sporting ter actuado na Liga Europa com jogadores menos utilizados. Num clube onde a exigência é máxima, teoricamente não há margem para abdicar de competições, mas não existe forma de os melhores jogadores terem muito tempo de jogo sem que acusem o desgaste mais à frente. Ou talvez exista. “A recuperação, para mim, é fundamental”, assume Pedro Martins.

O técnico vilacondense orienta um emblema que não está habituado a disputar as competições europeias, daí que não sejam surpreendentes as enormes dificuldades sentidas na temporada anterior. “Gerir a equipa com muitos jogos é complicado. O mais difícil é gerir os que não estão a jogar e jogando à quarta e ao sábado não há tempo para os que não jogam poderem treinar”, explica.

Perspectiva diferente sobre o  equilíbrio entre os mais utilizados e os menos utilizados foi defendida por Domingos Paciência, que fez 19 jogos europeus em 2010/2011, quando levou o Sporting de Braga à final da Liga Europa. “Depois de Domingo, arranjava um jogo à segunda para os outros. É que, por muito que se diga que sim, treinar não é o mesmo que jogar”, assegura.

A MULTIDISCIPLINARIDADE E O TREINADOR DO PRESENTE

“Sou do tempo em que o treinador fazia tudo. Agora sou o manager e tenho um departamento de ciência do desporto, um departamento de olheiros, um departamento médico e assistentes. Não faço nada! Só mando fazer”. Louis Van Gaal, como outros da sua geração, teve de transformar-se num treinador do século XXI. Por outras palavras, deixou de concentrar em si todas as funções que têm de ser efectuadas pela equipa técnica. Nos anos 90, quando iniciou a carreira, cobria todas as necessidades do plantel e dos jogadores. Agora, conta com uma série de adjuntos especializados nas diversas componentes do jogo, do treino ao scouting. O treinador principal não deixou de ser a figura central, mas o trabalho de bastidores – onde tudo é analisado ao detalhe – é um sinal evidente de uma “ciência” cada vez mais multidisciplinar.

Não há volta a dar. Só a soma das partes de uma equipa técnica permitirá que os jogadores apresentem o melhor rendimento possível. Há dois critérios que um treinador principal deve ter na hora de escolher os adjuntos: a confiança e o conhecimento. Estes não podem ter o mínimo receio de contrariar as ideias do treinador principal, embora seja este a ter a última palavra. José Peseiro, treinador do FC Porto, admite que às vezes não quer ceder. “Às vezes, quando já estamos a dar razão demasiadas vezes, dizemos que não e que nós é que percebemos desta merda”, brinca.

Mais a sério, o técnico dos dragões disse o que procura quando define os elementos da equipa técnica. “Quero treinadores que se identifiquem mas que perturbem. Têm de questionar e ser chatos”, salienta. Pela dificuldade de reunir elementos que possuam estas qualidades, os treinadores fazem todos os possíveis para que a equipa técnica não se desmembre, sobretudo quando existe um conhecimento excepcional. “Gosto de ter pessoas que saibam mais do que eu”, conclui José Peseiro.

Antigamente, os treinadores eram “homens da vida”. Para além do saber futebolístico, tinham outras qualidades que se destacavam no balneário. Eram uma figura paternal para os jogadores. Actualmente, são mais técnicos – por terem mais e melhor formação – e menos humanistas, apesar de normalmente terem uma relação de abertura com os atletas. A nova geração de treinadores portugueses está recheada de homens com este perfil. Leonardo Jardim, André Villas-Boas ou Vítor Pereira não tiveram uma carreira nos relvados e dedicaram-se desde cedo ao aperfeiçoamento de competências.

O seleccionador nacional, Fernando Santos, recusa fazer comparações entre os dois perfis, mas aponta o caminho para os novos treinadores vingarem. “Se querem sobreviver têm de se especializar”, garante. A larga experiência do actual comandante da equipa das quinas permite-lhe ter a exacta noção da evolução do papel dos adjuntos. “São mais competentes do que dantes. Agora fazem-nos a papinha toda”, admite. Quando começou a carreira, Fernando Santos controlava todos os aspectos relacionados com o jogo, tendo sentido a necessidade de se adaptar a esta nova realidade. “O estudo é cada vez mais fundamental”, assegura.

A melhoria dos treinadores e consequentemente da metodologia de treinos teve repercussões no entendimento do jogo por parte dos jogadores. Pedro Martins, treinador do Rio Ave, nota essas diferenças nos atletas. “Antes faziam porque os mandavam fazer, hoje já não”, afirma.

O técnico dos vilacondenses, recordando a carreira do pai, acabou por demonstrar de forma perfeita as alterações que têm ocorrido na dimensão de um treinador. “Com cinco anos já conhecia o balneário, o meu pai era dirigente. Era o treinador que fazia tudo, desde a monitorização do treino à educação dos atletas. Hoje está tudo compartimentado e há especialistas de nutrição, de fisioterapia, e a atenção sobre esses aspectos é cada vez maior. Até vamos procurar Universidades que nos ajudem a trabalhar a vertente psicológica”, explica.

O futebol não é uma ciência exacta, mas a ciência tem entrado cada vez mais no jogo. “Alguns não percebem que a ciência se apoderou fortemente do futebol”, defende Fernando Santos. Não há um lance que não seja esmiuçado com pinças num “laboratório”, por teóricos que não deixam de ser homens do futebol. Para o treinador principal, a missão é simples. “Temos a função de mastigar tudo o que nos dão e fazer com que o bolo esteja bom”, metaforiza Fernando Santos. Uma ideia corroborada por Henrique Calisto: “nós somos cada vez mais gestores destes especialistas, com quem também aprendemos”, reconhece.

A IDEIA DE JOGO – CONCEITOS TÁCTICOS E O PAPEL DO JOGADOR

Goste-se ou não, José Peseiro é indiscutivelmente um dos treinadores portugueses com mais conhecimento sobre o jogo. Desde que começou a carreira, no União de Santarém, foi sempre a aprender, mas não sem dispensar uns auxiliares de memória. “Se não escrevermos aquilo que sabemos, esquecemo-nos. O registo é fundamental”. O actual treinador do FC Porto reforçou a importância de “pôr nas gavetinhas”, mesmo que o conteúdo não seja o melhor. “Tenho vergonha daquilo que fiz naquela altura”, confessa. Inventou-se, reinventou-se e voltou a inventar-se. Ainda não parou e promete não parar. “Nós agarramos no conhecimento, ninguém inventa nada”, afirma. No entanto, não tem dúvidas de que “os treinadores portugueses são dos melhores do mundo a criar” e é isso que os valoriza.

As ideias de Peseiro são bem vincadas e facilmente identificáveis, embora estejam sempre dependentes do contexto real. Não esconde a preferência pela posse de bola, por “uma equipa afirmativa”, diz que a Laranja Mecânica lhe ensinou o que era a mobilidade, mas não deixa de dar mérito aos conjuntos que “mandam no jogo através do processo defensivo” e explica como o fazem. “As equipas que defendem levam o adversário para certas zonas de pressão e, consoante a zona em que recuperam a bola, partem para a transição ofensiva”.

Em termos individuais, sublinha a importância da tomada de decisão – “o que mais conta no jogo” – e garante que “o pior jogador que treinamos é aquele que não sabe o que vale”. Porém, está seguro de que os treinadores têm muito que aprender com os atletas e considera haver muita riqueza individual no futebol actual. “Eu acredito que eles fazem coisas em que os treinadores nem sequer pensaram”. Mas, para que isso aconteça, é necessário tirar o melhor rendimento de cada um, adaptando as exigências. “Como é que um jogador com menos maturidade e capacidade de decisão [dependente do tempo e espaço] que outros se adapta a um determinado exercício? Se calhar precisa de mais 2 metros”, reconhece. Uma boa relação entre treinador e jogador deve permitir a aprendizagem a este último. “Devemos levar os jogadores a fazer o que nós queremos de forma consciente”, reforça.

CAPACIDADE DE ADAPTAÇÃO AO CONTEXTO

Fernando Santos corrobora a tese de que o treinador não deve ter uma única ideia de jogo, antes deve fabricar a ideia de jogo ideal para a equipa que comanda. E exemplifica: “o Hagen veio do Benfica para o Estoril comigo e jogava da mesma maneira. Eu disse-lhe, a certa altura «ó mister, assim vamos descer de divisão»”.

Lito Vidigal conta que o seu treino “varia quase todos os dias”. O “modelo é sempre ganhar”, diz. “Já trabalhei em todas as divisões e sei que temos de nos adaptar e equilibrar as nossas ideias com as características do plantel. Raramente o treinador tem oportunidade de escolher os seus jogadores em função do modelo. Escolher dentro de um lote de jogadores com determinadas características já é uma sorte. O que acontece normalmente é que nos adaptamos àquilo que nos dão”. Tudo depende do clube, dos jogadores e até da qualidade do espaço físico para trabalhar. “O treinador tem de potenciar as características intrínsecas dos jogadores”, finaliza.

Sobre a dúvida entre adaptar o modelo ao plantel ou adaptar o plantel ao modelo, Pedro Martins foi claro: “nesta fase, no meu clube, já faço o que eu quero para o jogo. Posso fazer escolhas muito orientadas para as minhas ideias e para a minha maneira de trabalhar. Mas nem sempre foi assim, ao longo da minha carreira tive de me adaptar a vários contextos. No meu último ano de Marítimo, por exemplo, tive necessidade de voltar ao início da época, com tantos jogadores a entrar e a sair em Janeiro. Tive de reexplicar conceitos básicos”. Depois, com “processos mais simplistas”, a equipa reencontrou os bons resultados. Há, portanto, “momentos em que o treinador tem de alterar quando não está a resultar”, defende. E a “intuição é fundamental” nesse processo.

Domingos Paciência atesta: “treinei o Leiria, a Académica, o Braga, e joguei sempre com sistemas diferentes. No princípio da época vamos experimentando e testando, à procura da forma ideal para aquela equipa”. E salienta as dificuldades na composição do plantel. “Reunir todas as condições para tomar a melhor decisão [de contratar um jogador] é difícil, há várias restrições – de tempo, de dinheiro… Muitas vezes não há tempo para ver o jogador ao vivo, apenas se conhece por vídeo, e nem sempre há tempo para conhecer as condições sociais em que o jogador chega. Já tive jogadores que estiveram acima ou abaixo daquilo que esperava quando os contratei”, testemunha.

 

Francisco Manuel Reis

Tomás da Cunha

 

Redação BnR

Redação Bola na Rede · ver artigos

Continua a ler

as mais recentes

Newsletter Bola na Rede

Estamos a preparar a newsletter do Bola na Rede. Deixa o teu email e és dos primeiros a recebê-la. Sem spam.

Feito. Ficas na lista e avisamos-te quando arrancar.