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Sonho do Olimpo #1: A primeira não se esquece

João Pedro Barbosa · 8 min

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Caro leitor, seja bem-vindo a uma daquelas viagens ao passado que fará com que entre no espírito olímpico, tal como nós o queremos que seja conseguido. Para uma viagem destas seria necessária uma máquina do tempo, mas como esta não existe, e se existisse uma viagem seria dispendiosa, terá de ser feita com ajuda das palavras (que, por sinal, são bastante poderosas).

Ao longo de seis meses, recuperaremos histórias e personagens que marcaram os Jogos Olímpicos a nível nacional e até mesmo internacional, bem como, daremos a conhecer algumas modalidades praticadas neste evento desportivo. Sem mais demoras… que tal começarmos pelo início? Diria que é mesmo a melhor opção! Seja, novamente, bem-vindo ao primeiro «Sonho do Olimpo».

AC EM OLÍMPIA E A ESPERA DE MAIS DE 1500 ANOS PARA O RETORNO… NA GRÉCIA

É difícil não associar os Jogos Olímpicos à Grécia e vice-versa. Compreendo, porque até eu tenho dificuldade em fazê-lo. Mas é certo que as competições dedicadas aos deuses da Grécia Antiga viriam a fundar (muito mais tarde) aquilo que, atualmente, estamos habituados a ver de quatro em quatro anos ou uma Olimpíada, a unidade de tempo que contabiliza o mesmo espaço temporal.

O período da ocupação romana na Hélade, como ficou conhecida a Grécia para os romanos, impossibilitou uma linha contínua desta maratona à qual chamamos de Jogos Olímpicos, mas o espírito de muitos durante a história levou à recuperação de tudo (ou de quase tudo…).

Sabemos que a história se faz de muitas pessoas, e para este caso não é exceção. Foram diversos os personagens que tentaram reaver os Jogos Olímpicos da Grécia Antiga como Evangelis Zappas ou Dr. William Penny Brookes. Efetivamente conseguiram-no, todavia, não com a proporção que os mesmos desejavam, visto que cobriram apenas competições nacionais dos seus respetivos países.

Mas então porquê falar sobre estes dois personagens? Bem, a explicação é fácil. O trabalho que Evangelis Zappas fez influenciou William Brookes e este último influenciou Pierre de Coubertin, considerado o «Pai dos Jogos Olímpicos Modernos». O seu verdadeiro nome? Pierre de Frédy. Foi o fundador do Comité Olímpico Internacional e o principal impulsionador da maior competição à escala global tal como a conhecemos.

A espera para voltar a grande competição terminou 1500 anos depois da última quando em 1896, em Atenas (Grécia), foi organizada a I Olimpíada dos Jogos Olímpicos Modernos. O Estádio Panathinaiko, um símbolo nacional e olímpico preservado pelo Estado Grego, foi o palco desta primeira competição e não poderia ter sido noutro local. Os Jogos Olímpicos combinam muito bem com a Grécia, seja ela Antiga ou até mesmo Contemporânea (mas deixaremos esta para mais tarde…).

Como tudo na vida, o percurso das Olimpíadas encontrou pedras no caminho, sobretudo, devido às Exposições Mundiais que se realizaram nos períodos iniciais da competição. Aliás, até teve de voltar à Grécia e a Atenas para ganhar novo brilho ou aquele toque vindo diretamente do Olimp(ia)o.

Toque dos Deuses que se prolongou até aos dias de hoje, principalmente, no que à Tocha Olímpica diz respeito. Nos dias que correm, o ritual da passagem da Tocha ainda se organiza como se vivêssemos na Grécia Antiga. Diretamente de Olímpia, a chama começa um percurso longo e muito demorado (mas também ele criativo e de inclusão) até ao país organizador do respetivo ano.

A encenação permite manter viva a velha tradição de acender a Tocha Olímpica de maneira natural com a força dos raios de Sol ou será Hélio, o Deus grego do Sol, a participar também ele na encenação? Inconclusivo até hoje, mas a Tocha Olímpica essa sim é um verdadeiro símbolo de uma competição onde todos os atletas querem chegar.

«A OLIMPÍADA DA PRIMEIRA VEZ», PARIS 1926

A primeira vez que a capital francesa recebeu os Jogos Olímpicos não correu de todo como se esperava, por isso, após 24 anos dessa vez, houve nova passagem por «territoire français». Esta foi a Olimpíada que ficará, possivelmente, marcada como a «Olimpíada da Primeira vez»… intitulada por mim, claro.

Mas passo a explicar o por quê desse mesmo nome. Em Paris 1926, foi a primeira vez que os atletas ficaram acomodados na Aldeia Olímpica, o tal espaço confinado às comitivas olímpicas durante o período de tempo que estão na competição. A primeira grande novidade destes Jogos Olímpicos em França.

Num Mundo em constante mudança foi a vez também dos meios de comunicação participarem nesta festa do Desporto. Foi a primeira vez que houve transmissão de rádio dos eventos e onde estiveram presentes mil jornalistas, segundo o Olympic.org. Mas isto não impossibilitou que em Portugal as notícias sobre o que acontecia em Paris chegassem a Lisboa através do papel… atrasadas. O serviço telegráfico não era o melhor e o número elevado de jornalistas não ajudava no transporte da informação numa distância que até é curta de Paris a Lisboa… A juntar a este atraso, a inexistência, na altura, de rádios portuguesas não possibilitava que se transmitisse o que quer que fosse.

A primeira vez não se destinava somente às duas situações às quais mencionei anteriormente, caro leitor… ó não. Pois bem, como se sabe “a primeira vez nunca se esquece” e é verdade… Imortalizados para sempre na história portuguesa nas Olimpíadas, entraremos naquela que é a viagem ao belo passado da primeira medalha portuguesa nos Jogos Olímpicos.

A CAVALO SE FEZ HISTÓRIA PELA PRIMEIRA VEZ

Portugal só começou a participar nos Jogos Olímpicos em 1912, quando se realizou em Estocolmo (Suécia). Na altura não houve medalhas e houve ainda uma infeliz notícia para a comitiva portuguesa com o falecimento de um atleta: Francisco Lázaro, que foi o primeiro atleta a falecer durante os Jogos Olímpicos. Uma situação à qual mencionamos com pesar.

Só quatorze anos depois da primeira vez nos Jogos, surgiu aquilo que, talvez, se ambicionassem há imenso tempo. Mas como uma “primeira não vem só”, Portugal conseguiu a sua primeira medalha na sua primeira participação no Hipismo. Foram quatro os atletas portugueses que montados a cavalo conseguiram o lugar mais baixo do pódio parisiense, mas um lugar bem alto na história do desporto português: Aníbal Borges de Almeida, Hélder de Sousa Martins, José Mouzinho de Albuquerque e Luís Cardoso Menezes.

Os cavaleiros portugueses enfrentaram muitas dificuldades antes e durante a competição, contudo, isso não impossibilitou de conseguirem um excelente resultado e ainda a conquista do bronze nestes Jogos Olímpicos. E como a cavalo se fez história vale sempre também relembrar os seus nomes: Reginald, Avro, Hebraico e Profond. Alguns destes, que durante a viagem, acabaram por adoecer e não estar na sua forma física ideal, mas quando está destinado… não há volta a dar!

Uma conquista tão inesperada que nem o símbolo máximo do país estava presente na altura deste feito. Os cavaleiros recusaram-se a participar na cerimónia da entrega das medalhas sem que vissem a bandeira do seu país hasteada, como as dos outros vencedores.

Quando se pensava que a bandeira portuguesa não iria estar lá no alto de Paris, surgiu um tecido verde e outro vermelho para formar algo semelhante à original… pelo menos, no que às cores dominantes diz respeito. E assim foi a primeira vez que se inscreveu o nome de Portugal numa medalha dos Jogos Olímpicos e se viu, ainda que (muito) improvisada, a bandeira portuguesa a ser soprada por Éolo, o Deus Grego do Ar… certamente estaria tão feliz como os portugueses.

A quatro anos de se celebrar cem anos da primeira medalha portuguesa em Jogos Olímpicos, e também de Paris 1926, nada melhor do que voltar à capital francesa em 2024 (já confirmada a organização) para voltar a repetir feitos como estes e aumentar o número de medalhas portuguesas… vamos esperar!

A MODALIDADE: HIPISMO

É impossível contornar esta modalidade olímpica depois de a primeira medalha portuguesa ter sido conquistada precisamente nesta modalidade. Por isso, damos-lhe a conhecer o Hipismo.

Tal como em todas as modalidades dos Jogos Olímpicos existe uma Federação que lidera e coordena, em conjunto com o Comité Olímpico Internacional (COI), todas as ações das mais diversas modalidades. O Hipismo é regulado pela Federação Equestre Internacional (FEI) e em Portugal temos a Federação Equestre Portuguesa (FEP) é quem está responsável pela modalidade.

Esta é uma das duas modalidades nos Jogos Olímpicos que têm a participação de animais, neste caso em específico, um cavalo. A outra modalidade com quem partilha esta característica é o Pentatlo Moderno – onde é necessário o atleta participar no concurso de Saltos -, prova que tem ainda mais três modalidades.

O Hipismo estreou-se como modalidade olímpica em 1900 nos Jogos Olímpicos de Paris. Depois teve uma paragem de oito anos, ou seja, duas Olimpíadas, só voltou novamente à agenda do COI nos Jogos Olímpicos de Estocolmo em 1912. Inicialmente, o Hipismo era exclusivamente dedicado a atletas do sexo masculino e que pertencessem aos quadros militares. Por isso, não estranhe que os primeiros medalhados sejam apenas homens e militares. O fim desta exclusividade chegou nos Jogos Olímpicos de Helsínquia de 1952 onde a modalidade abriu as portas a todos os civis – deixando que apenas participassem militares – e também a entrada de atletas do sexo feminino.

Vamos a medalhas: a nação com maior número de medalhas de ouro é a Alemanha (25) seguida pela Suécia (17) e pela França (14). Curiosamente esta é uma modalidade que não é dominada pelos Estados Unidos da América, que, apesar de ter 52 medalhas no total, apenas tem 11 medalhas de ouro. A atleta mais medalhada no que diz respeito ao Hipismo é a alemã Isabell Werth com seis medalhas de ouro e quatro de prata.

Portugal venceu três medalhas de bronze nesta modalidade em Paris 1924 (António Borges d’Almeida, Hélder de Souza Martins, Luís Cardoso Meneses e José Mouzinho d’Albuquerque), em Berlim 1936 (Luís Mena Silva, Domingos Coutinho e José Beltrão) e Londres 1948 (Fernando Paes, Francisco Valadas e Luís Mena Silva).

Há três modalidades (individuais e coletivas) no Hipismo: Dressage, Curso Completo de Equitação (CCE) e Prova de Saltos de Obstáculos.

Dressage de um cavaleiro Português, Gonçalo Carvalho, nos Jogos Olímpicos de Londres 2012

Talvez a modalidade menos conhecida é o Curso Completo de Equitação, que é a combinação das outras duas modalidades e mais o Cross-Country, que tem quatro fases. No Cross-Country, o cavaleiro, juntamente com o seu cavalo, tem de passar por um percurso iniciado com “estradas e trilhos”, de seguida terá um teste de velocidade com vista a mais uma fase como a primeira. Haverá uma paragem para uma inspeção veterinária e, por fim, o cavaleiro enfrentará o circuito todo-o-terreno onde terá de ultrapassar obstáculos naturais e construídos num terreno irregular.

Isto tudo em apenas três dias de competição. O primeiro dia é ocupado pelo Dressage, o seguinte pelo Cross-Country e no terceiro, e último dia, temos a prova de Saltos de Obstáculos. Isto tudo envolto de três testes veterinários aos cavalos de cada um dos cavaleiros participantes.

Estamos ainda longe para que a Chama Olímpica se acenda em Tóquio, a capital do Japão e próxima sede dos Jogos Olímpicos. Por isso, resta-nos continuar a surpreender-lhe com histórias olímpicas e não se aflija, caro leitor, a próxima chegará em breve.

Foto de Capa: Olympic

João Pedro Barbosa

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