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O que é que têm em comum Ronaldo, Ronaldinho, Iniesta, Messi, Hazard, Neymar e Coutinho? Todos eles tiveram o futsal como parte integrante da sua formação, mas foi no futebol de 11 que se conseguiram destacar e jogar pelas suas seleções. A este grupo juntou-se, a partir desta sexta-feira, Wissam Ben Yedder, que, aos 27 anos, se estreou na seleção principal dos «Bleus» diante da Colômbia. No entanto, o gaulês tem uma particularidade: também é internacional pela seleção francesa… de futsal! Um feito peculiar, que, se não é único, não andará muito longe disso!
Nascido em Sarcelles, uma das periferias mais problemáticas de Paris, Ben Yedder carregava o sonho da maioria dos jovens da sua idade: correr atrás de uma bola para o resto da vida. Começou com o futebol de rua, onde os rapazes do seu bairro se superiorizavam aos demais, de onde também se destacava Riyad Mahrez, atual futebolista do Leicester e amigo de infância de Wissam. Aos 10 anos, inscreveu-se num clube de futebol local, o modesto FCM Garges. As suas capacidades técnicas não passaram despercebidas e foi neste período que desenvolveu uma das suas mais valiosas capacidades: a destreza de jogar com os dois pés. Conta um dos seus primeiros treinadores que ele teve uma lesão no tornozelo direito, que obrigou ao uso de gesso e que, supostamente, o impossibilitava de jogar futebol durante uns tempos. Mas o franco-tunisino tinha tanta vontade de jogar que jogava com o pé esquerdo, desenvolvendo o seu jogo com o seu pé menos forte.

Fonte: FFF
Aos 13 anos, Ben Yedder decidiu jogar também futsal, no Garges Lamartine (que mais tarde se viria a chamar Garges Djibson), dividindo assim os seus fins-de-semana entre o campo e a quadra, durante dois anos.
Acabaria por apostar no futsal, deixando o FCM Garges para apostar no futsal do Garges Djibson. A sua técnica e capacidade de drible não eram indiferentes a ninguém, chegando ao radar da seleção francesa de futsal com 18 anos. Poderia ter sido chamado para os escalões de formação da seleção, mas tendo tanto potencial e poder no um contra um, foi logo chamado à seleção A, não passando pela de esperanças. No entanto, a sua estreia teve quase para não acontecer na primeira vez que foi convocado, devido a um percalço com o passaporte: a seleção francesa ia disputar um duplo-confronto no Chile e, chegado ao aeroporto, constatou-se que Ben Yedder não tinha o seu passaporte biométrico francês, apenas tinha o tunisino, pelo que não pode embarcar com a restante comitiva. Wissam ficou de rastos, a chorar compulsivamente. Porém, com a ajuda de um adjunto da seleção de sub-21, conseguiu viajar no dia seguinte, já com o seu passaporte francês na mão. Um susto que, certamente, jamais esquecerá. Representando a seleção de futsal gaulesa, realizou seis jogos, marcando um golo.

Fonte: Toulouse FC
Quando os clubes de futebol descobriram este diamante por lapidar, fizeram esforços para o levar de novo para a relva, tendo, em 2009/2010, assinado pelo UJA-Maccabi, uma equipa da 3ª divisão do futebol gaulês. A “época de adaptação” correu muito bem, tendo marcado nove golos em 23 partidas. A par do futebol, continuava a prática do futsal, consumando algumas das suas seis internacionalizações pela seleção de futsal gaulesa durante este período.
Em junho de 2010, assinou um contrato de 3 anos com o Toulouse, sendo o primeiro francês a passar do futsal para a Ligue 1.
O futebol francês teve aqui uma primeira grande descoberta no futsal, algo que já é muito recorrente em países onde o futebol de salão é mais desenvolvido, como são os casos do Brasil e de Espanha, em que o futsal é como um viveiro para os altos mares do futebol. Entramos noutro domínio: quais são as principais vantagens de um jogador de futebol ter passado pelo futsal? Em primeiro lugar, no futsal é importante saber jogar com os dois pés, porque há uma mudança permanente de zona de jogo. A recolha de informações é extremamente rápida, porque os espaços são pequenos e a intensidade é elevada. Também ajuda a desenvolver a velocidade de movimentos, mesmo para quem já a atenha acima da média. Finalmente, é um jogo que está em constante transição, em que os jogadores têm que projetar-se no ataque, mas também fazer as transações defensivas, aprendendo a participar em todas as tarefas, não esquecendo a explosividade ou a qualidade para colocar no último toque.
Voltando, agora, à história da carreira de Wissam Ben Yedder. As duas primeiras épocas no Toulouse foram discretas. Na primeira, participou apenas em três jogos pela equipa principal, mas destacou-se pela equipa de reservas, apontando 12 golos e assistido seis vezes. Na época seguinte, teve um pouco mais de protagonismo, tendo assinado o seu primeiro golo na equipa principal, num dos 11 jogos em que participou. No entanto, seria necessário esperar pela temporada 2012-2013, sob as ordens de Alain Casanova, para que seu talento se confirmasse nos grandes palcos. Titular desde a primeira jornada, começou da melhor maneira, com dois golos nas duas primeiras jornadas, numa temporada que acabaria com números muito positivos (15 golos e 6 assistências).
As épocas seguintes foram de confirmação de todo o seu futebol, conseguindo culminar o faro de golo com o jogo coletivo. Prova disso mesmo são os seus 17 golos em 2013/2014, 15 tentos em 2014/2015 e, na sua última temporada no emblema do Sul de França, 23 golos. No Verão de 2016 rumou ao Sevilla para substituir o compatriota Kevin Gameiro, numa transferência de 9 milhões de euros. Na primeira temporada na Andaluzia, não desilude ao apontar 18 golos, dois deles na Liga dos Campeões.
No entanto, foi na presente temporada que se deu a conhecer ao futebol europeu, na liga milionária, onde foi o segundo melhor marcador da fase de grupos da competição, com seis golos em outros tantos jogos, ficando apenas atrás de Cristiano Ronaldo. Na fase seguinte, passou para a ribalta pelos dois golos que apontou em Old Trafford, que eliminaram os Red Devils da competição. Saltando do banco aos 72 minutos, precisou de apenas dois minutos para fazer o gosto ao pé e colocar a sua equipa em vantagem: dominou a bola com o pé esquerdo e rematou fulminantemente com o direito (cá está um dos benefícios do futsal e… do pé engessado), não dando hipóteses a De Gea. Dois minutos volvidos, voltou a bater o guardião espanhol, desta feita de cabeça. Uma noite inesquecível para o rapaz franco-tunisino de Sarcelles, que toda a gente passou a conhecer. É caso para dizer que o Special One sucumbiu perante o Special Ben!

Fonte: Sevilla FC
Por consequência deste feito – e também dos restantes 17 golos nesta temporada-, foi chamado por Didier Deschamps para a janela internacional de março, tendo-se estreado pela seleção francesa de futebol na passada sexta-feira, diante da Colômbia, em pleno Stade de France. A sua chamada para a seleção francesa destruiu de vez a intenção da federação tunisina de ter Ben Yedder a defender as suas cores.
Apesar de já não ser propriamente um jovem, Wissam Ben Yedder é um jogador que está no seu auge, mas que pode vir a evoluir ainda muito mais. Não sendo um típico «pinheiro» e até demonstrando algumas limitações no jogo aéreo (os seus 1,70 m também não ajudam), este «atacante de bolso» maquilha muito bem as suas limitações com um controlo de bola e uma capacidade de drible em pequenos espaços fantásticas (desenvolvidas no futsal), bem como frieza e eficácia na finalização.
Tenham em atenção este atacante franzino, de baixo centro de gravidade. Certamente continuará a brilhar nos relvados e, quem sabe, se ainda não vai dar uma perninha nas quadras de futsal…
Foto de capa: FFF












