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MUNDIAL 2022 | AS MEMÓRIAS DO CATAR
Imprevisibilidade, culturas absolutamente distintas e propostas de jogo muito diferentes. Embora não seja o grupo mais badalado do Mundial 2022, o Grupo A promete emoção, bom futebol e adeptos fervorosos.
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O anfitrião Catar joga em casa e, entre todas as polémicas, questões de direitos humanos e mesmo de vida ou morte – que mancham, naturalmente a presença catari na prova – teve um tempo de preparação muito grande, especialmente tendo em conta o pouco tempo disponível para qualquer uma das restantes seleções. Equador, Senegal e Países Baixos completam um grupo com ampla representação continental e onde os sons, tradições e jogadores dos quatro cantos do mundo se defrontarão.
É quase consensual que os Países Baixos assumam maior responsabilidade neste grupo. Ainda assim, não será surpresa se os neerlandeses encontrarem pela frente adversários capazes de competir dentro do jogo e de roubar pontos. Teoricamente partem à frente dos demais e são mesmo candidatos a ser uma das surpresas positivas do torneio. As restantes seleções deverão competir entre si pelo outro lugar que dá direito ao apuramento. Fruto do contexto de treino (Catar), da intensidade com e sem bola (Equador) e da capacidade defensiva e de sair em transição (Senegal), todas mostram argumentos para disputar qualquer jogo. Não haverá assim nenhuma hecatombe qualquer que seja a seleção apurada.
CATAR
The announcement we were waiting for ⏳😍
Introducing.. Felix Sanchez’s Qatar national team squad for the 2022 World Cup 🏆
These are our heroes. And now, it’s our TIME 💪🇶🇦#AllForAlAnnabi#ForTheLoveOfQatar pic.twitter.com/0ahwdE6L9p
— Qatar Football Association (@QFA_EN) November 11, 2022
O Catar destaca-se de todas as demais seleções do Mundial 2022 pelo fator preparação. Desde junho – de forma intermitente, mas com períodos intensivos – que o grupo se encontra para trabalhar a pensar no Mundial.
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O evento foi encarado com seriedade pelos responsáveis pelo futebol e nenhuma seleção teve a possibilidade de se testar em tantos contextos como o Catar. Vencedores da Copa Ásia em 2019 – período alto no ciclo – a seleção do Catar teve ainda a possibilidade de disputar a Copa América, a Copa Ouro e ainda de jogar amigáveis no contexto do apuramento europeu (estando inserido no grupo de Portugal). Tanta preparação e trabalho num contexto propício ao contrário – recorde-se que as restantes seleções apenas se concentrarão uns dias antes do Mundial – são uma vantagem que, embora não dê favoritismo à seleção anfitriã, terá certamente alguns frutos a colher.
Há dois espanhóis que importam mencionar quando se fala no presente da seleção do Catar: Félix Sánchez, treinador da seleção desde 2017, e Xavi Hernandez, atual técnico do Barcelona, com impacto tremendo no Al-Sadd onde foi jogador e treinador. Ambos os treinadores passaram por La Masia e levaram algum do ADN da formação catalã para o Catar.
Não será uma seleção que terá bola durante a maioria da partida. Ainda assim, será uma seleção que procurará trabalhar a bola quando a tiver. Partindo de um 5-3-2, os três centrais procurarão sair a jogar entre si. Para ultrapassar pressões, há essencialmente dois mecanismos: as diagonais do central exterior para o ala do lado oposto; e as projeções por dentro dos centrais exteriores, especialmente Abdelkarim Hassan à esquerda. O lado esquerdo é mesmo o lado mais forte do Catar fruto da presença de Akram Afif, homem com liberdade posicional, mas geralmente a procurar descair mais pela esquerda. Caso esteja a ser sufocado, Almoez Ali pode ser procurado como referência mais direta, capaz de ganhar a primeira bola.
Apesar da proposta de jogo positiva, há dois fatores que podem ser revés na competitividade que o Catar procura. O primeiro é o leque reduzido de jogadores com capacidade para entrar e não descair o nível. Embora muitas opções tenham sido testadas, o Catar vive muito do núcleo duro de titulares e no banco, salvo raras exceções, o nível é claramente inferior. O momento defensivo pode ser também uma das lacunas a ser exploradas pelos adversários. Os encaixes dos alas nos laterais e as perseguições dos centrais exteriores criam muito espaço nas costas que pode ser aproveitado com movimentos de rutura. A pouca capacidade física de ganhar duelos e a passividade sem bola – é uma equipa que deixa o adversário respirar com bola – são também limitações a ter em conta.
JOGADOR A OBSERVAR
We got Somali🇸🇴 representation at the World Cup! Akram Afif who plays for Qatar but is born in Somalia with a Somali dad. Plays Left wing pic.twitter.com/sGCLluHWs0
— Ilyas🏴 (@Ilyassstweets) November 11, 2022
Akram Afif – É, de longe, o jogador mais talentoso do Catar. Numa dupla de ataque poderosa com Almoez Ali – arrasta defesas e procura abrir espaço para o colega – tem liberdade para deambular pelo campo, essencialmente na meia esquerda, e tem condições técnicas notáveis. Muito forte em condução, com capacidade para driblar e desequilíbrio no último passe, as aspirações ofensivas do Catar estão dependentes do nível do avançado. Foi destaque na Copa Ásia e, aos 25 anos, tem a sua chance de brilhar no Mundial.
PREVISÃO DE POSIÇÃO NO GRUPO: QUARTO LUGAR
EQUADOR
💪 ¡Juntos por un fútbol limpio! pic.twitter.com/jIBGBbhmjt
— FEF 🇪🇨 (@FEFecuador) September 23, 2022
O Equador regressa ao mais alto palco do futebol de seleções. E com todo o mérito, diga-se. Ficou em quarto lugar nas difíceis e competitivas eliminatórias sul-americanas onde foi uma das principais atrações. Além da intensidade do futebol praticado, o destaque equatoriano passa pela juventude da seleção.
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Nos últimos anos a formação no Equador deu passos em frente impulsionada pelo Independiente del Valle. Em 2007 implementou um projeto de desenvolvimento da formação, através de uma academia que permite acolher estudantes que, enquanto continuam a formação académica, podem seguir o sonho de viver no mundo do futebol. As convocatórias das seleções jovens passaram cada vez mais a incorporar jogadores do clube que, embora sem qualquer título nacional, passou a ser a principal fábrica de talento. Os frutos foram colhidos mais recentemente, com a conquista da Copa Sudamericana em 2019 e 2022 bem como do campeonato nacional em 2021 e 2022. A nível de seleções, o terceiro lugar no Campeonato do Mundo sub-20 em 2019 exemplifica o progresso dado.
Gustavo Julio Alfaro tem sabido extrair o melhor rendimento dos meninos equatorianos, e as principais referências da seleção são, na sua maioria, ainda muito jovens. O Equador estrutura-se num 4-3-3 e faz da intensidade – com e sem bola – o seu modo de jogar. No momento ofensivo, os laterais assumem preponderância fulcral. Com os extremos de fora para dentro (ou mesmo só por dentro), os laterais projetam-se. Estupiñan à esquerda é o mais beneficiado, podendo usar toda a capacidade física para galgar metros no corredor. O médio mais recuado – habitualmente Gruezo – recua para entre os centrais permitindo uma saída mais limpa – Hincapié pela qualidade no passe é o destaque –, e o meio-campo (composto por Moisés Caicedo e Alan Franco ou Cifuentes) joga em alturas diferentes do terreno. A principal dúvida em relação à proposta ofensiva do Equador prende-se com a concretização das oportunidades em golo. Nenhum ponta de lança garante golos e o Equador tem pecado na finalização.
Defensivamente é possível definir toda a estratégia de Alfaro numa palavra: sufocar. Os extremos pressionam de fora para dentro procurando impedir as saídas exteriores e obrigar a um jogo interior altamente condicionado pela pressão dos médios. Se bem coordenada, a teia de pressão do Equador é a oitava maravilha do mundo. Mas basta uma falha para o dominó cair e a equipa sul-americana ficar exposta atrás. Por exemplo, se a bola entrar no lateral adversário, Estupiñan à esquerda e Castillo à direita deixarão um buraco enorme a ser explorado.
JOGADOR A OBSERVAR
El ecuatoriano 🇪🇨 Moisés Caicedo es uno de los jugadores sudamericanos que llega en un gran momento a la Copa del Mundo.
¿Cómo crees que le vaya a La Tricolor en #Qatar2022? 👇💬 pic.twitter.com/Kch3BL52JG
— Road to 2022 Español (@roadto2022es) November 8, 2022
Moisés Caicedo – O produto do Independiente del Valle é hoje a referência equatoriana e está em grande forma. Chegou a Inglaterra e, após um período de adaptação, pegou de estaca no Brighton quer com Potter, quer agora com De Zerbi. Na seleção é um canivete suíço-equatoriano. Procura receber nas costas da primeira linha de pressão, tem capacidade para transportar bola e queimar linhas em posse e um bom passe. Se jogar com Cifuentes tem maior liberdade para se projetar onde também tem chegada à área. No momento defensivo é também fundamental já que, incansável e com um pulmão a mais que o comum mortal, consegue entrar no ritmo de constantes vaivéns imposto pelo Equador. Se o Equador não cai cedo no Mundial, muita da culpa deverá passar por Moisés.
PREVISÃO DE POSIÇÃO NO GRUPO: SEGUNDO LUGAR
SENEGAL
📋✅ 𝙇𝙞𝙨𝙩𝙚 𝙙𝙚𝙨 26 𝙡𝙞𝙤𝙣𝙨 retenus par le sélectionneur national Aliou Cissé pour disputer la Coupe du monde 2022. #FIFAWorldCup | #MankoWutiNdamli pic.twitter.com/EbwBPlpI7i
— FSF (@Fsfofficielle) November 11, 2022
O ano de 2022 tem sido muito bonito para o Senegal. Quebrou a maldição e finalmente venceu a CAN ainda no início do ano, ao derrotar o Egito na final e, novamente contra o Egito, garantiu a presença no Mundial 2022.
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Aliou Cissé é a grande personagem da seleção de Senegal. 20 anos depois de falhar o penálti que deu a CAN aos Camarões em 2002, liderou os Leões de Teranga na conquista da competição que premeia a melhor seleção africana. O técnico, enquanto jogador, foi também capitão da melhor campanha do país na história dos Mundiais: quartos de final em 2002. Procura agora repetir o feito histórico enquanto timoneiro.
Aliou Cissé transformou o Senegal na equipa mais competitiva no continente e tem destruído estereótipos. O primeiro refere-se ao treinador. Durante muitos anos, e ainda vigente na atualidade, gerou-se a ideia de que só treinadores europeus – essencialmente franceses devido à questão linguística – eram capazes de fazer equipas africanas competir, numa perspetiva ainda algo colonialista. Aliou Cissé provou que a nacionalidade no passaporte não é requisito para triunfar. O outro estereótipo prende-se com o futebol africano encarado como desorganizado e exclusivamente físico. O Senegal afirma-se como uma das equipas mais organizadas e compactas a ir ao Qatar.
Ainda assim é uma seleção desfalcada. A dias do torneio e de forma crua e lamentável, Sadio Mané lesionou-se. O herói nacional, que usou o futebol para levar alegria – sob a forma de sorrisos, mas também de infraestruturas, de hospitais, de apoio às comunidades locais – lesionou-se e, apesar de convocado, é improvável que esteja disponível pelo menos nos primeiros jogos da seleção. Foi vítima do calendário desproporcionado de quem não tem em conta o bem-estar dos principais intervenientes. Também Bouna Sarr, lateral-direito da seleção está lesionado. Na esquerda, Saliou Ciss, um dos melhores jogadores da CAN, está sem clube e não faz parte das opções de Aliou Cissé.
Os desfalques deixam algumas dúvidas, e o estatuto de Mané não encontra possibilidade de replicação. Ainda assim há uma espinha central muito forte: Edouard Mendy na baliza, Koulibaly e Diallo à frente do guarda-redes e Gueye como referência técnica no meio-campo. No Mundial, o Senegal encontrará um cenário onde poderá fazer uso das principais armas. Pelas características dos adversários e pela não necessidade de assumir o jogo – ao contrário do que acontece em solo africano – é expectável que o Senegal tente impedir jogos muito abertos. É uma equipa confortável a deixar o adversário assumir a iniciativa, compacta a defender – sem Mané perspetiva-se um 4-1-4-1 – e a ameaçar em transição. Organização, solidez e critério definem a matriz de jogo do Senegal que, na frente, tem muitas opções que costumam ir variando e que, mesmo sem a maior figura, são capazes de visar a baliza. Se os astros se alinharem e a estrela Mané estiver disponível, as chances de sucesso aumentarão.
JOGADOR A OBSERVAR
Kalidou Koulibaly : ” Je serais pour les 5 pays africains pour la Coupe du Monde 2022, ça, c’est sur. ” 🌍💚 pic.twitter.com/81IozM3oRy
— 🏆 Actu Foot Afrique (@ActuFootAfrique) November 6, 2022
Kalidou Koulibaly – Pensando num Mundial onde a presença dentro de campo de Mané é dúbia, Koulibaly assume o estatuto de melhor jogador senegalês. Subvalorizado durante anos – por culpa do clube onde jogava e da nacionalidade –, é um dos melhores do mundo. Forte nos duelos, com capacidade para ganhar bolas de cabeça e com velocidade para defender em campo aberto, é difícil de passar pelo muro do Chelsea. Com bola, proporciona uma saída limpa quer pela capacidade de passe, quer em condução. Sendo expectável que o Senegal não tenha tanta bola, a segurança da dupla de centrais poderá ser a chave para o sucesso.
PREVISÃO DE POSIÇÃO NO GRUPO: TERCEIRO LUGAR
PAÍSES BAIXOS
🦁 Our 26 Lions for the @FIFAWorldCup!#NothingLikeOranje | #FIFAWorldCup pic.twitter.com/EpkvaksBLW
— OnsOranje (@OnsOranje) November 11, 2022
Não foi travessia fácil o percurso dos Países Baixos, mas Van Gaal tratou de construir os diques necessários para o barco neerlandês navegar. Desde o Mundial 2018 – onde, de forma chocante os Países Baixos ficaram fora – a Laranja Mecânica teve três técnicos. Koeman saiu para o Barcelona, De Boer não teve rendimento e Van Gaal regressou para salvar a seleção. As eliminatórias foram disputadas até ao fim com a Turquia e a Noruega, mas o técnico espremeu todo o sumo da laranja – com as peças certas, a mecânica configurar-se-á –, que chega ao Qatar com o estatuto de possível surpresa.
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Trata-se de um regresso ao passado, desde logo pelo regresso ao sistema com três centrais (possivelmente a zona do campo com maior qualidade individual). Outro regresso a 2014 está no método utilizado na baliza. Em várias paragens para a seleção, Van Gaal levou para estágio vários guarda-redes especificamente para trabalhar o momento das grandes penalidades. Qualquer apaixonado por futebol teve a sensação de déjà-vu, recordando o momento em que Cilessen – de forma algo surpreendentemente não foi convocado para 2022 – deu o lugar a Krul que brilhou na disputa por grandes penalidades contra a Costa Rica, no Mundial 2014.
O regresso ao passado faz-se, ainda assim com nomes do presente e do futuro. Timber parece ter garantido o lugar como central à direita. A presença de Timber e de Aké no onze garante à seleção capacidade de condução desde trás. São assim os centrais exteriores – até com maior preponderância que Van Dijk na manobra ofensiva\ – um dos destaques da seleção. Os perfis totalmente distintos dos alas são também interessantes de analisar. À esquerda Blind é um jogador mais conservador nas projeções, com grande segurança na saída de bola e mais influente na construção. À direita Dumfries é um jogador muito agressivo e que, apesar das claras limitações técnicas, é capaz de criar perigo pela velocidade, pela força física e pela capacidade de atacar o espaço. A capacidade de condução de Frenkie de Jong será arma numa seleção que, pelo menos de início não joga com referências fixas na frente. Em 5-2-1-2, os três da frente – deverão passar por Berghuis/Gakpo, Memphis e Bergwijn. Muita mobilidade e, fruto do impacto dos alas, muita eficácia no ataque às zonas de finalização bem definidas.
Defensivamente os Países Baixos poderão sofrer caso não haja um acompanhamento defensivo dos homens mais avançados. Os médios marcam individualmente e os centrais exteriores costumam lançar-se em perseguições, obrigando os alas a fechar dentro. Por esta razão bem como pela ausência de extremos, os corredores laterais são uma zona muitas vezes desprotegida e que pode ser visada pelos adversários.
JOGADOR A OBSERVAR
QUÉ PARTIDO @DeJongFrenkie21 🎩 pic.twitter.com/7kf67ZfVum
— Iniestazo (@INIE8TAZO) November 8, 2022
Frenkie de Jong – É um dos melhores médios do mundo e, ao contrário do FC Barcelona, onde às vezes fica amarrado num jogo demasiado posicional para casar com as suas características, na seleção pode projetar-se. Joga à frente da defesa, mas mais importante do que a posição base, é a liberdade que tem para se movimentar, para ocupar diversos terrenos e para se projetar em campo, com bola em condução, sem bola ou através do passe, apresentando-se como elemento surpresa. Algo discreto nos últimos tempos, pode voltar a brilhar no Mundial.
PREVISÃO DE POSIÇÃO NO GRUPO: PRIMEIRO LUGAR












