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Umas «meias» natalícias com Messi, Modrić e um duelo da «Françafrique»

Francisco Sousa · 9 min

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O Mundial vai ter duas meias-finais inéditas com os confrontos Argentina-Croácia e França-Marrocos.

O Natal está aí à porta e traz-nos dois presentes antecipados nas meias-finais do Campeonato do Mundo. Esta terça-feira, a Argentina defronta a Croácia, no estádio Lusail, palco da grande final do próximo domingo. Para quarta-feira fica reservado um confronto com contornos históricos especiais entre a atual campeã em título, a França e a surpreendente seleção marroquina, primeira equipa nacional africana da história a avançar até à última fase antes do jogo decisivo. Para franceses e croatas, há a possibilidade de repetir a final do Mundial da Rússia, enquanto a Argentina se sagrou vice-campeã em 2014. Só mesmo os magrebinos, responsáveis pela eliminação de Portugal, fogem à equação.

Começando pelo jogo entre balcânicos e campeões sul-americanos, pode-se esperar um duelo de criativos, com dois nomes a saltarem imediatamente à vista: Lionel Messi e Luka Modrić. Um com 35 anos, o outro com 37, mas a verdade é que continuam a ser portadores de características incomparáveis, cada um no respetivo registo. Ainda assim, são os líderes sem discussão dentro de campo, pelo exemplo, pela galhardia e sobretudo pela técnica e criatividade que fazem com que os números “10” lhes assentem tão bem. Messi chegou ao Catar para fazer história e alcançar o patamar “maradoniano” – a conquista do título mundial.

Já é um dos melhores jogadores da história do jogo e não é uma conquista em solo árabe que lhe vai conferir esse estatuto em definitivo. Quanto a Modrić, esta é a possibilidade de ouro de chegar a uma segunda final consecutiva de um Mundial, sendo certo que também já alcançou um escalão de individualidade mais brilhante da história do futebol croata (e olhem que a concorrência não é nada má…) e igualmente o estatuto de um dos melhores centrocampistas de sempre.

Os números 10 lideram os dois conjuntos, mas a chegada às semifinais de Argentina e Croácia não se explica apenas pelos principais craques. Do lado da “Albiceleste”, há um conjunto que não apresentando um futebol cintilante, demonstra competência nos diversos momentos do jogo e uma competitividade imensa. Os indícios pré-Mundial em termos exibicionais eram promissores mas a história mudou com o arranque da competição. Porém, Lionel Scaloni mostra versatilidade tática (passou para uma defesa a 3 na segunda parte com a Austrália e foi assim que iniciou o encontro frente a uma seleção dos Países Baixos com um esquema semelhante) e capacidade para ler o que a equipa necessita em diferentes contextos de jogo – como prova disso, temos as apostas em Enzo Fernández, Alexis MacAllister ou Julián Álvarez quando a equipa precisava de renovação técnica e tática em campo.

O apuramento dos argentinos para esta fase foi sofrido. O confronto com Louis van Gaal foi muito equilibrado e Scaloni nunca quis que a equipa desse um passo maior do que a perna. Manteve cautelas (com uma organização defensiva praticamente imperturbável no controlo das movimentações dos neerlandeses), com um bloco compacto e junto, que depois procurava a criatividade no último passe de Messi. Assim nasceu o 1-0 (obra exclusiva da cabeça prodigiosa e do pé canhoto divinal do “10”, a servir Nahuel Molina, lateral que atacou o espaço interior com astúcia) e várias das jogadas mais relevantes de perigo dos sul-americanos.

Até que o desafio tático se alterou, ante o 4-4-2 dos “tanques” dos Países Baixos e a turma azul e branca sentiu o tremor na defesa da área – Weghorst marcou dois golos, num momento de muita precipitação defensiva e ansiedade coletiva. No prolongamento, os pés de Enzo Fernández deram a arte e o engenho de que a Argentina necessitava para se reaproximar de zonas de perigo – com o recém-entrado Di María e Leo como os melhores sócios. O jogo seguiu para penáltis e aí erigiu-se a montanha “Dibu” Martínez a ajudar numa qualificação sofrida mas justa – ao longo dos 120 minutos, foi a Argentina que demonstrou mais vontade de vencer, mesmo com a notável reação neerlandesa.

Também a Croácia teve de sofrer para derrubar o gigante Brasil no desempate por penáltis, depois de um jogo muito interessante na dimensão tática. O trio luxuoso de médios da formação do xadrez vermelho e branco (Modrić-Brozović-Kovačić) voltou a ser determinante na gestão dos ritmos com bola e na forma como conseguiu estar posicionalmente compacto para impedir investidas do Brasil em zonas interiores de forma mais frequente (destaque para o trabalho de contenção de Modrić com Casemiro). No momento ofensivo, Juranović soltava-se pela direita (fez um jogo acutilante, tanto a defender-se de Vinícius Júnior, como nos apoios ofensivos) e a equipa ia procurando os cruzamentos para a zona do segundo poste, de forma a potenciar as chegadas de Perišić. Este encontro confirmou também que a Croácia tem uma equipa com menos “dimensão” no último terço, faltando uma referência de golo indiscutível.

Ainda assim, foi no território das bolas cruzadas para a área que o golo chegou, na segunda metade do prolongamento, já depois de Neymar ter pegado na bola, feito uma dupla tabela e lançado o Brasil para a vantagem. O 1-1 nasceu de uma insistência de Modrić – quem mais poderia ser? – teve continuidade na receção, condução e passe de Vlašić, que deixou em Oršić, com o extremo a assistir Bruno Petković para uma finalização feliz. Três homens que saíram do banco valeram a igualdade e mais um desempate por penáltis, no qual Dominik Livaković mostrou elasticidade e eficácia (já depois de ter brilhado nos 120 minutos). Na gestão sagaz da posse, no rigor posicional e na consistência defensiva (atenção ao Mundial do veterano Lovren e do diamante Gvardiol), a Croácia soube anular mais um grande rival para avançar para a terceira meia-final de um Mundial numa curta história como país independente.

A campeã defronta a grande surpresa da competição 

O primeiro presidente da Costa do Marfim independente, Félix Houphouët-Boigny, advogou em 1955 a existência de uma “Françafrique”, o que significava que os países africanos que tinham adquirido a independência dos gauleses deviam manter uma relação institucional forte com França. Isso foi algo que se verificou com Marrocos, que nunca chegou a pertencer propriamente a território francês, mas que foi um protetorado e mantém essa conexão forte até aos dias de hoje. A relação franco-marroquina é também evidenciada pela forte presença de emigrantes daquele país norte-africano em França, numa junção de culturas e amizades que vai ter o auge desportivo na meia-final desta quarta-feira no estádio Al Bayt.

A campeã mundial vai apadrinhar a primeira presença africana numa meia-final de um Campeonato do Mundo, o que não deixa de ter um significado muito especial. Os comandados de Didier Deschamps são vistos como favoritos, mas devem ter bem presente a forma como Espanha e Portugal caíram ante os magrebinos (não esquecendo que já a Bélgica havia sido derrubada com estrondo na fase de grupos).

O apuramento da equipa de Walid Regragui para esta fase da competição foi épico e mostrou fidelidade a um 4-1-4-1 muito coordenado e bem estruturado em termos defensivos, com as coberturas entre a zona central e lateral definidas nos “timings” certos, com uma linha defensiva não afundada (exceto em momentos circunstanciais) e com grande proximidade entre os diferentes setores. Portugal não teve a paciência necessária para derrubar o bloco de granito marroquino, enveredou por um caminho de exploração de passes longos e de bolas em profundidade que foi contrário à ideia que parecia trazer do jogo frente à Suíça (com mais associação entre o talento).

O golo de En-Nesyri chegou na sequência de um cruzamento do lado esquerdo (com responsabilidades defensivas lusas) e de uma troca de bola notável a partir da zona mais recuada – uma prova que esta seleção de Marrocos não vive só do conforto nas transições mais aceleradas e que tem técnica para elaborar desde trás. No segundo tempo, e perante a “avalanche” de opções ofensivas exploradas por Portugal, os africanos não perderam o critério no momento do jogo mais relevante para Regragui – organização defensiva – e apesar de alguns lances perigosos da Seleção Nacional, Bono e companhia aguentaram de forma imaculada a melhor defesa da competição.

Não se perspetiva um jogo muito distinto dos últimos face à poderosa França. Amrabat vai continuar a ser o elemento fundamental a fazer com que a equipa não se parta entre a linha defensiva (com a companhia inestimável de Ounahi, médio-revelação do certame e que assinou mais uma exibição de luxo nos “quartos”) e os cinco elementos que surgem mais adiante. Há mais dúvidas quanto à condição física de alguns dos defesas (Aguerd e Mazraoui, por exemplo, falharam o duelo com Portugal e Saïss saiu por lesão no segundo tempo). Marrocos compete muito bem na dimensão defensiva do jogo, mas como vimos também exibe uma competência impressionante em transição ofensiva, bola parada e até em ataque organizado – de forma mais esporádica.

Já a equipa gaulesa chega motivada a este confronto, depois da vitória na “final antecipada” ante a Inglaterra. A perspetiva de poder tornar-se na segunda equipa da história a somar dois Mundiais consecutivos anima os rapazes de Didier Deschamps, que sabem competir muito bem em cenários de vantagem e também perante a adversidade. Querem uma prova? Olhem para a segunda metade do duelo com os ingleses e percebam como a França soube resistir, perante o crescimento dos médios do outro lado, hábeis na criação de jogo e as constantes aproximações, tanto mais por dentro, como a partir das alas.

O penálti falhado por Harry Kane foi festejado como um golo por Mbappé e certamente por todos os adeptos dos Bleus. Foi um momento de felicidade que se seguiu a outros que acabam por dar colorido ao apuramento dos vencedores de 2018 para nova semifinal: o golaço de Tchouaméni, num irrepreensível pontapé de meia-distância, as assistências mágicas de Griezmann, o instinto matador na área de Giroud ou as intervenções importantes de Lloris. Tudo isto num jogo que até contou com algumas imprecisões de elementos que têm sido determinantes nesta prova – Upamecano ou Theo Hernández, por exemplo.

E o que vai ter de fazer a França para não se deixar surpreender por Marrocos? Acima de tudo, partindo do princípio (certo) de que vai ter mais bola, deve ter a capacidade de criar o máximo desconforto ao trinco Amrabat (com Griezmann) e abrindo brechas entre os restantes médios e os alas. Ao mesmo tempo, Deschamps deve ter a intuição de explorar as costas dos laterais com as ruturas dos velocíssimos Dembélé e Mbappé. O desafio aqui é distinto do que vimos nas últimas eliminatórias: ao contrário de espanhóis e portugueses, os extremos gauleses são temíveis no um para um e podem gerar uma vantagem significativa para ganhar superioridade por fora (à esquerda, também com as subidas de Theo). Curiosamente, Luis Enrique lançou Nico Williams e Fernando Santos apostou em Rafael Leão para dar esse abanão em zonas exteriores, mas foram setas tardias lançadas na direção dos norte-africanos.

Esperam-se duas noites de bom futebol e emoções fortes. O mundo parece esperar um duelo de titãs entre Argentina e França, mas Croácia e Marrocos querem dar um golpe nas duas bicampeãs mundiais. E, quem sabe, repetir aquele que foi o primeiro encontro para ambas neste Mundial – num tímido empate a zero. Será que este campeonato ainda tem mais surpresas preparadas para nós? A resposta será dada nas próximas horas.

 

Artigo de opinião de Francisco Pinho Sousa,
analista e comentador ELEVEN

Francisco Sousa

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