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Já só sobram quatro | Mundial 2022

Diogo Ribeiro · 8 min

Lionel Messi Argentina Mundial 2022
Foto: Federação Argentina de Futebol

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Argentina x Croácia e França x Marrocos. Estão definidos os confrontos das meias-finais do Mundial 2022. Os vencedores disputarão o duelo mais aguardado dos últimos quatro anos. E, num Mundial repleto de histórias para contar, estes jogos serão mais dois capítulos.

60 jogos volvidos, sobram quatro resistentes. A Argentina tem desiludido exibicionalmente e deposita as esperanças em Lionel Messi, que tem carregado a esperança albiceleste às costas. A Croácia vai-se afigurando como uma seleção mentalmente muito forte e que, prolongamento atrás de prolongamento e penálti atrás de penálti, sonha com um regresso a 2018. A França, que procura revalidar o título e que, mesmo sem jogadores como Benzema, Kanté ou Pogba, apresenta um leque de opções invejável. E Marrocos, como representante africano – é a primeira vez que uma seleção africana chega tão longe – que procura voltar a surpreender e continuar a construir a História.

ARGENTINA X CROÁCIA

Não tem sido um Mundial próprio para cardíacos, especialmente para os adeptos das duas seleções. A Argentina chega às meias depois de eliminar os Países Baixos nas grandes penalidades, num jogo em que até esteve a ganhar por 2-0 (o livre dos neerlandeses já no último segundo da compensação é, inevitavelmente, um dos momentos do ano). A Croácia vem de duas disputas nas grandes penalidades em jogos com histórias diferentes: depois de ter sido inferior à seleção do Japão, surpreendeu todos ao jogar de igual para igual contra o Brasil. Defrontam-se esta terça-feira, 13 de dezembro, às 19 horas.

É um jogo com muitos questionamentos. O último jogo da Croácia mostrou-nos uma seleção capaz de disputar a iniciativa de jogo. Ainda assim, mais do que um fim, a gestão da posse de bola é um meio. O fim é simples de identificar: jogar a um ritmo lento, procurando essencialmente não passar por grandes perigos atrás. A solidez é conseguida também pelo bom nível individual dos jogadores mais recuados. Livakovic tem sido intransponível – e fundamental nos desempates da marca dos 11 metros – e a dupla de centrais tem sido sólida. Lovren, algo esquecido pelo apagar dos mapas do futebol russo, é um central de seleção. Tantas vezes questionado pelos clubes por onde passou, é uma referência defensiva constante na seleção croata – daí o receio e demorar da renovação. Ao seu lado, tem a principal referência da nova geração: Gvardiol. Tem sido um dos, senão o melhor central do Mundial. Alia ao posicionamento e a capacidade de ganhar duelos, às garantias de saídas limpas na construção.

O meio-campo é de culto. Brozovic, Modric e Kovacic gerem o ritmo do jogo e serão capazes de executar o plano de jogo. Resta saber se este pedirá uma gestão da posse – Brozovic nas costas da primeira linha de pressão a direcionar as saídas, com Modric e Kovacic na teia que garante a manutenção da posse de bola – ou saídas mais diretas, procurando progredir rapidamente em passe – Modric a lançar – ou em posse – Kovacic em condução. Os homens da frente darão, provavelmente a resposta. Contra o Brasil, Kramaric jogou centralizado, como referência móvel, garantindo superioridade numérica pelo meio, juntando-se aos médios e a Pasalic que, procurando o espaço interior, abriu o corredor para Juranovic que teve campo aberto durante grande parte da partida. À partida, e pelas características do adversário, a estrutura deverá manter-se (podendo entrar por exemplo Vlasic para o corredor direito). Ainda assim, não é descartável a possibilidade de Petkovic – referência para um jogo mais direto – entrar no 11, passando Kramaric a jogar como um segundo avançado a partir da direita.

A Argentina também não escapa às dúvidas, até pelas exibições algo cinzentas que apresenta desde a derrota contra a Arábia Saudita (mentalmente notou-se o efeito das derrotas). O privilégio pelo jogo interior, a capacidade de concentrar jogadores tecnicamente evoluídos em espaços curtos e de progredir através de tabelinhas era marca do jogo argentino. Neste momento é uma miragem.

Ainda assim há neste momento algumas certezas. Emiliano Martínez tem feito um mundial de alto nível, Enzo Fernández e MacAllister pegaram de estaca no onze e Julián Álvarez ganhou a corrida a um Lautaro Martínez bastante perdulário. Sem Acuña e Montiel – suspensos por acumulação de amarelos depois do confronto contra os países Baixos – também não há grandes questões nas laterais que deverão ser assumidas por Tagliafico e Molina. A outra certeza é Messi.

Oito anos depois, a Argentina volta a estar a um passo da final. Messi faz a última dança do Mundial e tem sido o nome em maior destaque na equipa de Scaloni. Jogando mais longe das zonas de finalização, permite um futebol mais apoiado e criativo. São incontáveis as oportunidades criadas pelo astro argentino e desperdiçadas pelos colegas. É nele que estão concentrados os holofotes.

O embate entre as duas seleções deixa espaço em aberto para imaginar cenários e possibilidades. Os mais interessantes serão, porventura, a forma como a Argentina condicionará a ação do meio-campo croata, o duelo dos centrais croatas com o ataque mais móvel argentino e a dualidade das projeções dos laterais pelo corredor (permitindo transições ofensivas, mas deixando espaço na transição defensiva).

PREVISÃO DE RESULATDO: ARGENTINA 2-1 CROÁCIA

FRANÇA X MARROCOS

As maldições vão caindo. A França resistiu à maldição dos campeões, constantemente a cair na fase de grupos. Marrocos ultrapassou a barreira dos quartos de final e tornou-se a primeira equipa africana a chegar tão longe. Entre muitos pontos de interesse, o jogo é mais previsível que o anterior.

Marrocos tem sido uma das equipas mais características do Mundial. Embora passe a maioria do tempo em organização defensiva, não é uma equipa do autocarro, muito menos uma equipa que não saiba o que fazer com a bola. Organiza-se em 4-1-4-1 com Amrabat – que Mundial faz o marroquino – a reduzir o espaço entrelinhas e num bloco médio-baixo compacto e coeso. A pouca distância entre os jogadores reduz o espaço para jogar por dentro, orienta o adversário a jogar por fora e tem funcionado coletivamente – um golo sofrido no Mundial – e individualmente com constantes grandes exibições dos jogadores marroquinos.

Com bola há um objetivo claro: visar a baliza. Alternando entre saídas curtas, procurando atrair por um lado e soltar no outro, ou bolas mais diretas, procurando En-Nesyri (geralmente entre o corredor esquerdo e o corredor central), há uma tentativa clara de potenciar os criativos – Boufal e Ziyech – em situações de 1X1. Hakimi-Ounahi-Ziyech pela direita oferecem imprevisibilidade coletiva, Boufal à esquerda desequilibra por natureza (beneficiando do posicionamento mais recuado de Mazraoui). Mazraoui e Aguerd são dúvidas para o jogo.

A França tem apresentado um rendimento constante. Chegou ao Mundial como potencial desilusão, mas tem ultrapassado etapas e apresenta garantias. As várias ausências – Benzema, Kanté, Pogba, Kimpembe, Nkunku, Maignan e Lucas Hernández (logo no primeiro jogo) – foram claramente colmatadas. A lesão de Lucas, levou Deschamps a apostar no irmão e Theo oferece outras garantias ofensivas. A velocidade do lateral – aliada às bem trabalhadas compensações e aberturas – permitem também deixar Mbappé mais solto na frente, pelo que não é costume ver o francês acompanhar o lateral. O Bola de Ouro Benzema também abriu espaço para a titularidade do maior goleador da história do futebol francês. Olivier Giroud, o crónico subvalorizado, tem feito um Mundial de grande nível não só na relação com a baliza, mas também na relação com os colegas, sendo importante em apoio e fixando a linha defensiva adversária.

Há, ainda assim, dois grandes destaques da seleção francesa. O primeiro é o melhor marcador do Mundial, Kylian Mbappé. Partindo da esquerda e com menos responsabilidades defensivas, o virtuoso avançado tem feito estragos. Já são mais do que conhecidas as capacidades de Mbappé em campo aberto, mas cada vez mais o jogador tem-se revelado multidimensionalidade. Além da velocidade – em corrida e em condução – tem capacidade para partir para sempre através do drible e tem uma facilidade de remate impressionante. Continua a aprimorar e a marcar com o seu remate procurando o poste mais próximo. O outro é, a par de Messi, o playmaker deste Mundial: Antoine Griezmann. Joga como terceiro médio e tem liberdade de movimentos, procurando constantemente a bola. A abrangência de áreas ocupadas bem como de ações técnicas confunde marcações e permite ao francês encontrar caminhos que, de outra maneira, estariam entupidos. Depois de ser destaque em 2016 e em 2018, voltou com força em 2022.

O jogo tem vários pontos de interesse. Primeiro por dois reencontros muito esperados: o de Walid Regragui, treinador de Marrocos, com Olivier Giroud – jogaram juntos pelo Grenoble em 2008 – e o de Hakimi e de Mbappé, grandes amigos e companheiros de PSG e que terão muitos duelos pela frente. Veremos qual o papel de Mbappé defensivamente, tendo em conta a capacidade ofensiva de Hakimi e se o marroquino estará de alguma forma limitado ofensivamente, visando não deixar Mbappé com situações de campo aberto pela frente. Será também interessante ver qual a proposta de jogo francesa. Embora seja natural assumir a iniciativa na maioria dos jogos, os gauleses são mais temíveis em transição, situação que, à partida, será improvável de ocorrer (a menos que marque cedo).

PREVISÃO DE RESULTADO: FRANÇA 0-0 MARROCOS (FRANÇA VENCE NOS PENÁLTIS)

Diogo Ribeiro

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