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Liga dos Campeões: A sorte procura-se

Pedro Machado · 6 min

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Cabeçalho Futebol Nacional

Sorte, nuns oitavos de final da Liga dos Campeões, é uma palavra muito relativa. Entre os adversários de SL Benfica e FC Porto, havia aqueles que recolhiam unanimidade de preferência entre os adeptos como o Leicester (no caso exclusivo dos encarnados) ou o Mónaco, mas ninguém consegue um primeiro lugar numa fase de grupos de Champions por acaso e ambas as equipas em questão deram provas do seu valor no passado fim-de-semana – os franceses, o orientados por Leonardo Jardim, foram a Bordéus, campo sempre difícil, vencer por 4-0 e os ingleses derrotaram, em casa, o Manchester City de Guardiola, por claros 4-2 (aos 20 minutos o resultado era 3-0).

Sabia-se, portanto, de antemão que, independentemente das equipas que calhassem em “sorte” às cores lusas, a tarefa seria sempre complicada, até porque a segunda mão da eliminatória iria sempre ser disputada em terreno alheio. A probabilidade de calhar o adversário preferido para qualquer adepto era de 1 em 7 (excluindo-se, portanto, os líderes dos respectivos grupos), a dificuldade de o superar era de um 1 em… 1.

Quando o Dortmund calhou ao SL Benfica e a Juventus ao FC Porto (ter-se-á lembrado a final da Liga dos Campões de 1997, disputada entre germânicos e transalpinos, vencida pelos primeiros com Paulo Sousa no onze), ninguém terá esperado facilidades. Mas a hora não era de lamentos. Os alemães já tinham enfrentado o Sporting CP na fase de grupos, e os leões bateram-se bem, os italianos tinham aparecido no caminho do SL Benfica há dois anos atrás (com Pirlo, Tevéz e Pogba incluídos, embora sem Dybala ou Higuaín) e tinham sido derrotados.

Para além disto, existe a plena noção de que o mercado de Janeiro se vai meter no meio e que até à data dos jogos muita coisa pode mudar na forma e nas lesões das respectivas equipas. Para já, porém, convém analisar a realidade presente de ambos os conjuntos.

BORUSSIA DORTMUND

O Dortmund de Tomas Tuchel ainda não consegue emanar a aura demolidora que teve com Klopp, embora se encontrem indícios da mesma, ainda esta época e também na Champions – marcou 21 (!!!) golos na fase de grupos, ainda conseguiu terminar o grupo à frente do Real Madrid, depois de uma boa performance no Santiago Bernabéu, onde neutralizou uma desvantagem de 2-0 para 2-2, concluindo, assim, os seis jogos deste período sem derrotas.

Na Bundesliga, porém, a equipa não tem estado tão bem, ocupando um modesto 6º lugar no campeonato do seu país que não se coaduna com aquilo que tem feito nos últimos anos, em que liderava a Bundesliga-sem-Bayern com toda a naturalidade.

Na base desta oscilação pode estar a onda de lesões que tem afectado a equipa do mítico Signal Iduna Park e que esteve na génese de um Borussia desfalcado, por exemplo, em Alvalade, onde, porém, até ganhou.Não fosse isso, e talvez a campanha na Bundesliga fosse mais regular. Afinal, quem tem um ataque com a envolvência deste Borussia, arrisca-se a vencer todos os jogos em que entra.

Signal-Iduna Park aguarda o Benfica Fonte: BVB Dortmund
Signal-Iduna Park aguarda o Benfica
Fonte: BVB Dortmund

A referência Piere-Emerick Aubameyang é incontornável para se entender o processo ofensivo desta equipa. O  gabonês tem já 19 golos apontados (em 17 jogos!) entre Bundesliga e Champions, e a sua acção vai muito além de “meter as bolas lá para dentro”, afirmando-se, também, como um jogador de ruptura, não sendo raras as vezes em que vai buscar jogo às alas, trazendo-o, como tanto gosta, para o centro do terreno e/ou para as proximidades da àrea, onde conta com o apoio de Reus (que pode perfeitamente desempenhar a posição 9, como tão bem fez contra o Real Madrid, permutando com o goleador da equipa, que também pode assumir a ala esquerda, aliás, foi neste contexto que surgiu o golo do empate frente aos merengues que garantiu o primeiro lugar do grupo) e/ou Mario Gotze, que, porém, assume tarefas de construção, sem esquecer Kagawa, que faz da versitilidade força, ao poder desempenhar todas as posições do meio-campo para a frente com competência.

Nas alas existe uma envolvência ofensiva absurda por parte dos laterais, com Piszczek e Raphael Guerreiro a integrar-se, como gostam e sabem, de forma brilhante, no ataque, auxiliando a acção vertiginosa da rebeldia própria da juventude que assiste a Dembélé e Pulisic, o primeiro com grande capacidade técnica, o segundo com uma tremenda propensão à ruptura.

A segurar isto tudo, está Weigl, como pivô defensivo solitário quando a equipa parte de um 4x1x4x1, ou como elemento de construção, onde pode contar com o apoio de Gonzalo Castro (ou vice-versa) ou Nuri Sahin.

A equipa ressente-se, porém, deste balanceamento ofensivo. O eixo central da defesa sofre muito com a exposição dos laterais e, muitas das vezes, são chamados a um excesso de trabalho que podiam não ter, fosse a equipa mais pressionante na saída de bola do adversário. Quando isso não acontece, Sokratis e Bartra (dupla de centrais) são muitas vezes sacrificados e nem sempre respondem da melhor maneira, explicando-se, assim, os 9 golos consentidos pelos germânicos na fase de grupos. Uma vulnerabilidade que, em caso de persistência, pode ser bem explorada por Salvio, Guedes, Cervi, Rafa, Jonas (?) e companhia.

JUVENTUS

A Juventus, ao contrário do Dortmund, mantem a regularidade de anos anteriores e, à liderança no grupo da Champions (embora teoricamente mais acessível que o dos germânicos), junta a da Serie A, confortavelmente resguardada por 7 pontos de vantagem (mais um jogo) sobre os rivais Roma e Milan que hoje se defrontam, podendo, por isso, ganhar pontos a ambos. O rumo a um histórico hexa é, portanto, uma realidade.

Falta, porém, aliar esta hegemonia no futebol italiano a uma conquista europeia, e, tendo isto em conta, é de esperar que a Juventus entre com tudo no duplo confronto com o FC Porto como entrou nos jogos que disputou para a Champions, do qual é maior exemplo a vitória sobre o Lyon, em França, com o único golo do encontro a ser apontado por Cuadrado numa altura em que a equipa jogava em inferioridade numérica.

A equipa orientada por Massimiliano Allegri parte de um 3x5x2 que projecta bem os seus laterais, embora estes tenham plena noção do espaço que possam deixar nas costas. Daniel Alves e Alex Sandro são dos melhores do mundo na sua posição e não poderiam encaixar melhor na organização de jogo dos italianos. No apoio a estas incursões, para além de Pjanic e Lemina/Hernanes, fornecedores de jogo às alas, costuma estar Pablo Dybala, que deambula nas costas da referência ofensiva Higuaín, indo em busca de jogo a toda a largura do terreno.

Pjanic é importante na construção ofensiva dos italianos Fonte: Juvenuts FC
Pjanic é importante na construção ofensiva dos italianos
Fonte: Juventus

A suportar todo este balanceamento ofensivo está, por norma, Sami Khedira, que resguarda o meio-campo mas também se consegue integrar, com qualidade, no ataque, contando, com o amparo da tripla linha defensiva composta por Barzagli, Bonucci e Chiellini, para o fazer. Nomes que são de grande utilidade quando há bolas paradas. A favor… ou contra.

O processo defensivo está inerente a todo o momento ofensivo. Como boa equipa italiana, a Juventus começa a defender no ataque, contando com a disponibilidade da dupla argentina Higuaín-Dybala para condicionar a saída de bola do adversário, e a pressão do meio-campo quando a redondinha salta a primeira linha de pressão da velha senhora.

A Juve não se esgota nos nomes citados, porém. Há ainda o ‘jovem’ de 38 anos, Buffon, que não conhece decadência, Lichtsteinter, que se integra bem em todo o movimento da equipa, na ala direita e Asamoah do outro lado. Há ainda Cuadrado, que faz todas as posições do meio-campo para a frente com um virtuosismo impresionante, Manduzkic, com capacidade de fazer esquecer Higuaín e ainda nomes perfeitamente competentes do eixo defensivo como Benatia, Marchisio ou Evra (assim tem sido usado o francês).

Definitivamente, o FC Porto não terá vida fácil. Mas nomes não ganham jogos e uma boa noite no Dragão pode inclinar as probabilidades para o lado luso.

Foto de capa: UEFA Champions League

Pedro Machado

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