Athletic: Os milhões que não ajudaram

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O início de época trouxe uma grande notícia para o Athletic de Bilbao: a entrada na fase de grupos da Liga dos Campeões, onde o clube não estava há 16 anos. Depois de ter terminado a última Liga Espanhola no quarto lugar, o emblema basco superou o Nápoles no play-off e conseguiu, de forma merecida, um apuramento histórico. Contudo, a participação na Champions não está a ser positiva e, pior do que isso, está a afectar sobremaneira a prestação da equipa no campeonato interno. Isto porque, como se esperava, o plantel não tem profundidade suficiente para lutar por objectivos tão exigentes.

Até se iniciar a fase de grupos da Champions, os leões bascos tinham tido resultados perfeitamente normais: derrota em Málaga (num jogo em que o guarda-redes Iraizoz viu um golo que daria o empate ser mal anulado), vitória fácil sobre o Levante e derrota em Camp Nou. A sequência de maus resultados a nível interno começou precisamente após o jogo com o Shakhtar, o que demonstra o impacto que a prova milionária teve na equipa de Valverde. Depois do encontro com os ucranianos, o Athletic esteve seis jornadas sem vencer, e apenas conseguiu regressar aos triunfos no último jogo (0-1 em Almería). Mesmo em casa, onde são tradicionalmente fortes, os bascos têm sentido grandes dificuldades, perdendo pontos com vários adversários acessíveis (0-0 com o Eibar, 0-1 com o Granada e 1-1 com o Celta). Tudo somado, o conjunto orientado por Ernesto Valverde está num medíocre 15.º lugar, 3 pontos à frente do último classificado.

O regresso do Athletic à Liga dos Campeões também não está a ser satisfatório. A equipa basca tem revelado bastantes fragilidades defensivas e parece estar a acusar a falta de experiência a este nível. Após três jornadas disputadas, a turma de Valverde está na última posição do grupo H, já com poucas hipóteses de seguir em frente. O empate em casa com o Shakhtar não foi um resultado dramático, mas o mesmo não se pode dizer da derrota perante o BATE Borisov, que foi goleado pelos ucranianos e pelo Porto. Na visita a Portugal, os bascos voltaram a perder, apesar de terem deixado uma boa imagem na segunda parte, e terão agora como objectivo o apuramento para a Liga Europa.

Ernesto Valverde tem tido várias dores de cabeça esta época  Fonte: Getty Images
Ernesto Valverde tem tido várias dores de cabeça esta época
Fonte: Getty Images

O que está a acontecer ao Athletic não é propriamente caso único. Na época passada, a Real Sociedad enfrentou as mesmas dificuldades, acabando por realizar uma temporada muito abaixo das expectativas, tanto no campeonato como na Champions. É uma consequência inevitável para clubes com plantéis sem a profundidade necessária para lutar por objectivos em várias frentes (e no caso dos bascos a situação ainda é mais complicada, tendo em conta a política destes emblemas). Contudo, ainda há margem para os leões de San Mamés atenuarem este cenário negativo. Repetir o quarto lugar da última época não parece possível, mas não há dúvidas de que o plantel às ordens de Valverde, técnico que também já provou o seu valor, tem qualidade para mais.

Em relação à última época, a grande diferença é a ausência de Ander Herrera, que rumou ao Man United por 36 milhões de euros (valor da cláusula). Apesar da saída de uma das estrelas do clube, o Athletic consegue manter um onze base bastante homogéneo, embora a defesa seja claramente o sector mais fraco. Iraizoz, guarda-redes muito experiente, é uma das referências e ainda dá segurança na baliza; De Marcos, outrora um médio ofensivo de grande potencial, foi adaptado a lateral direito mas apresenta algumas dificuldades a defender, e do outro lado Balenziaga está longe de ser um jogador fiável; a dupla de centrais habitual é formada pelo promissor Laporte, que tem tudo para ser um dos melhores na sua posição, e por San José, bem mais fraco do que o parceiro.

Aymeric Laporte é uma das "jóias da coroa" do Athletic  Fonte: talksport.com
Aymeric Laporte é uma das “jóias da coroa” do Athletic
Fonte: talksport.com

No meio-campo, o duplo pivot tem sido composto por Iturraspe, que esteve em grande na última temporada (foi inclusive chamado à selecção espanhola), e por Rico, jogador algo limitado tecnicamente mas que deixa tudo em campo. À sua frente actua Beñat, que é claramente um dos elementos mais interessantes deste conjunto, destacando-se pela capacidade de passe e pela qualidade na marcação de bolas paradas. Nos flancos, duas das principais figuras da equipa: Markel Susaeta, jogador que dá bastante verticalidade pelo lado direito, e Iker Muniain, o menino que já pede o salto para um emblema com outras ambições. O único avançado, especialmente forte no jogo aéreo, é Aduriz, que, aos 33 anos, mantém intacta a veia goleadora.

Se no onze há bastante qualidade, o mesmo não se pode dizer das alternativas aos titulares, que deixam um pouco a desejar. Há Unai López, médio de apenas 18 anos que tem tudo para ser o “novo Ander Herrera”, Ibai Gómez, extremo rápido e com facilidade de remate, e Guillermo Fernández, jovem avançado que vai aparecendo na equipa, mas em termos gerais é notório que faltam opções para Valverde. O problema é que a filosofia do Athletic de só ter jogadores bascos ou descendentes de bascos complica bastante o ataque ao mercado, sendo bastante provável que o técnico espanhol tenha de enfrentar o resto da temporada com este elenco. Atendendo ao facto de o emblema de Bilbao ter perfeita saúde financeira, quase apetece dizer que os milhões da Champions eram dispensáveis, pois vieram dificultar seriamente a temporada da equipa. Mas, se pensarmos apenas no que a participação na prova milionária representa para o clube e para a região, de certeza que jogadores e adeptos não a trocariam por nada.

Tomás da Cunha
Tomás da Cunha
Para o Tomás, o futebol é sem dúvida a coisa mais importante das menos importantes. Não se fica pelas "Big 5" europeias e tem muito interesse no futebol jovem.                                                                                                                                                 O Tomás não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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