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Lens | A ligação de uma cidade a um clube

Diego Tamaian · 4 min

Florian Sotoca Lens Lyon
Foto: RC Lens

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Com o passar dos anos, o Lens deixou de ser apenas uma equipa da cidade para se tornar uma parte da sua identidade.

Em Lens, não é preciso olhar para o marcador para perceber o que o clube significa para a cidade. Basta entrar no Stade Bollaert-Delelis, ouvir milhares de adeptos a cantar Les Corons e observar as bancadas pintadas de vermelho e amarelo. Num futebol cada vez mais dominado pelo dinheiro, pelos grandes investidores e pelos clubes globais, o Racing Club de Lens mantém uma ligação às suas raízes que resiste ao tempo. Mas como é que um clube de uma cidade do norte de França, marcada pela indústria mineira, se tornou um símbolo de uma comunidade inteira?

Para perceber esta ligação, é preciso recuar a 1906, ano em que o clube foi fundado. Naquela altura, Lens era uma cidade profundamente ligada à exploração mineira. O carvão sustentava famílias, movimentava a economia e fazia parte do quotidiano de milhares de pessoas. Foi neste contexto que o futebol começou a ganhar espaço, acabando por aproximar o clube da população local. Com o passar dos anos, o Lens deixou de ser apenas uma equipa da cidade para se tornar uma parte da sua identidade.

Essa ligação também se reflete nas cores do clube. Conhecido como Sang et Or, expressão francesa que significa “Sangue e Ouro”, o Lens adotou o vermelho e o amarelo na década de 1920. Desde então, estas cores passaram a representar muito mais do que um equipamento. São um símbolo de pertença, partilhado por famílias e transmitido de geração em geração, numa região onde o futebol ocupa um lugar especial na vida das pessoas.

É no Stade Bollaert-Delelis que esse sentimento ganha outra dimensão. Inaugurado em 1933, o estádio tornou-se o ponto de encontro de uma comunidade que vive o futebol de forma intensa. Apesar da dimensão relativamente reduzida da cidade, as bancadas enchem-se para acompanhar a equipa, criando um ambiente reconhecido no futebol francês. A proximidade entre os adeptos e os jogadores é uma das marcas do clube, mas há algo que torna esta relação ainda mais especial, a presença constante da história da região nas tradições que acompanham cada partida.

Um dos exemplos mais conhecidos é Les Corons, a canção de Pierre Bachelet dedicada às comunidades mineiras do norte de França. Antes de alguns encontros, milhares de adeptos juntam-se para a cantar, num momento que recorda o passado industrial da região. A música ganhou um significado que ultrapassa o futebol, tornando-se uma homenagem aos trabalhadores das minas e às famílias que fizeram parte dessa realidade. É uma forma de manter viva uma memória coletiva, mesmo depois de a indústria mineira ter perdido o peso que outrora teve na região.

Dentro de campo, o Lens também encontrou motivos para crescer o orgulho da cidade. Em 1998, conquistou o campeonato francês pela primeira vez, numa temporada em que conseguiu superar adversários com maior dimensão e recursos. A conquista marcou a história do clube e levou a cidade a celebrar um feito que poucos poderiam antecipar. Um ano depois, venceu a Taça da Liga francesa, prolongando um dos períodos mais marcantes do seu percurso desportivo.

Mas a história do Lens não se fez apenas de vitórias. As descidas de divisão, as dificuldades financeiras e os períodos de instabilidade também marcaram o caminho do clube. Em 2008, a equipa desceu à segunda divisão e, nos anos seguintes, voltou a enfrentar obstáculos para se afirmar entre os principais emblemas franceses. Ainda assim, o apoio dos adeptos manteve-se. Mesmo quando os resultados não correspondiam às expectativas, o Lens continuava a representar a cidade e uma identidade que não desaparecia de uma época para a outra.

O regresso à Ligue 1, em 2020, abriu uma nova etapa. Sob o comando de Franck Haise, o clube voltou a ganhar protagonismo e construiu uma equipa capaz de competir com os principais candidatos do campeonato. A temporada de 2022/23 foi particularmente marcante: o Lens terminou no segundo lugar, com 84 pontos, garantindo o regresso à Champions League. O desempenho voltou a colocar o clube no mapa do futebol europeu e demonstrou que era possível competir a um nível elevado sem dispor dos mesmos recursos financeiros dos adversários mais poderosos.

Em 2026, sob o comando de Pierre Sage, a conquista da Taça de França acrescentou um novo capítulo à história dos Sang et Or. O triunfo surgiu no ano em que o clube celebrou 120 anos de existência, reforçando o orgulho de uma comunidade que acompanhou diferentes fases do seu percurso. Mesmo nos períodos mais difíceis, o Lens nunca deixou de contar com o apoio dos seus adeptos. As descidas de divisão e as dificuldades financeiras não apagaram a ligação entre o clube e a cidade.

Num futebol cada vez mais marcado por investimentos milionários, mudanças constantes e projetos que procuram alcançar públicos em todo o mundo, o Lens mantém uma ligação particular ao lugar onde nasceu. A memória da indústria mineira, as tradições familiares e o ambiente do Stade Bollaert-Delelis continuam a fazer parte da identidade do clube. Não significa que o Lens esteja imune às transformações do futebol moderno, mas a sua história ajuda a perceber que a relação entre uma equipa e os seus adeptos pode ir muito além dos resultados.

Em Lens, o clube não é apenas uma equipa que entra em campo ao fim de semana. É uma parte da história da cidade, uma tradição que atravessa gerações e um símbolo que continua a unir pessoas com diferentes percursos.

Diego Tamaian

Redação Bola na Rede · ver artigos

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