A nova era do Liverpool: Andoni Iraola

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Depois de uma época penosa para o Liverpool com o comando de Arne Slot, chega agora um nome que deixou a marca na Premier League na época passada pela razão contrária: Andoni Iraola. E para quem este nome possa soar familiar, não é nada mais, nada menos, do que o treinador responsável pelo milagre do Bournemouth na época 2025/26.

Andoni Iraola chega ao Liverpool com uma missão que, à primeira vista, parece simples, mas que esconde uma enorme complexidade: manter o clube entre a elite do futebol inglês (como sempre esteve) e, ao mesmo tempo, construir uma identidade própria depois de uma mudança de ciclo que não correu muito bem. A pergunta que inevitavelmente se impõe não é apenas se Iraola é um bom treinador, mas se está preparado para ser treinador do Liverpool.

A resposta, apesar de não ser definitiva e ainda carecer de provas, parece-me ser sim. Não porque Iraola tenha um currículo recheado de títulos, mas porque o seu percurso demonstra uma capacidade particularmente interessante para desenvolver equipas e fazê-las crescer. E talvez seja precisamente isso que o Liverpool precisa.

Andoni Iraola Liverpool
Fonte: Liverpool FC

Iraola cresceu num ambiente futebolístico que produziu alguns dos nomes mais reconhecidos da sua geração. Na formação do Antiguoko chegou a partilhar balneário com Xabi Alonso e Mikel Arteta, antes de seguir para o Athletic Club. E, a partir do percurso destes dois grandes nomes, já conseguimos entender ligeiramente por onde vai passar esta nova estrutura tática.

Mas o início da carreira como treinador não foi propriamente perfeito. A primeira experiência, no AEK Larnaca terminou com um despedimento. No entanto, não deixou que isso o impedisse de tentar novamente (mentalidade típica do futebol inglês e dos Scouses em particular), e em 2019, no Mirandés, começou verdadeiramente a construir a sua reputação. Uma equipa recém-promovida à segunda divisão espanhola chegou às meias-finais da Copa del Rey, eliminando adversários teoricamente muito superiores. Mais do que os resultados, chamou a atenção a forma como o Mirandés jogava. Um jogo extremamente demarcado por intensidade, coragem, pressão e uma enorme capacidade para incomodar equipas de maior dimensão.

No Rayo Vallecano, Iraola deu o passo seguinte. Levou o clube de volta à La Liga e, já no principal escalão espanhol, conseguiu resultados que dificilmente passavam despercebidos. Foi, contudo, na Premier League que a sua carreira ganhou outra dimensão.

Quando chegou ao Bournemouth, em 2023, encontrou uma equipa que tinha como principal objetivo sobreviver. O início foi difícil e, nas primeiras nove jornadas, o clube não conseguiu vencer. Para muitos treinadores, um arranque destes poderia ser suficiente para colocar imediatamente em causa o projeto. E surpresa das surpresas, Iraola resistiu, impôs as suas ideias e terminou a época em 12.º lugar, com 48 pontos.

Na temporada seguinte, o Bournemouth subiu novamente de nível e conseguiu terminar em nono na tabela, com 56 pontos. E, em 2025/26, aconteceu aquilo que talvez tenha sido determinante para a sua contratação para o Liverpool. O Bournemouth alcançou o sexto lugar, 57 pontos e qualificação europeia. Mais do que uma boa classificação, tratou-se de um feito histórico para um clube que até há relativamente pouco tempo tinha lutado pela ascensão à Premier League.

Iraola gosta de equipas intensas, agressivas e verticais. As suas equipas pressionam alto, tentam recuperar rapidamente a bola depois de a perderem e procuram atacar antes que o adversário tenha tempo para reorganizar a sua estrutura. É um futebol que procura provocar o adversário.

Andoni Iraola Bournemouth
Fonte: Bournemouth

É inevitável, por isso, que surjam comparações com Jürgen Klopp. Há certos princípios que se aproximam como a pressão, a intensidade, a velocidade das transições, a agressividade sem bola e a importância da reação imediata à perda. No entanto, seria um erro esperar que Iraola seja uma espécie de Klopp 2.0. Até porque sejamos honestos, tal seria impossível.

O Liverpool tem jogadores capazes de executar aquilo que Iraola pretende, mas o calendário será muito mais exigente do que aquele que encontrou no Bournemouth. Premier League, Champions League, taças nacionais e um calendário cada vez mais congestionado obrigarão o treinador a gerir não apenas a parte tática, mas também a componente física e emocional da equipa.

E é precisamente aqui que encontro uma das minhas maiores dúvidas.

O futebol de Iraola exige muito fisicamente. Pressionar alto e constantemente, defender longe da própria baliza e reagir imediatamente à perda da bola são comportamentos que exigem jogadores preparados para esforços durante 90 minutos. Num calendário europeu, essa exigência torna-se ainda maior. E é aqui que a chegada de Iraola pode ser particularmente interessante no sentido em que não se trata apenas de implementar um sistema tático, mas de perceber como adaptar esse sistema às características dos jogadores que tem à disposição.

Federico Chiesa e Dominik Szoboszlai Liverpool
Fonte: Liverpool

A pré-época já deixou algumas pistas, embora seja importante não tirar conclusões precipitadas de jogos de preparação. Houve bons momentos, houve dificuldades e houve também uma derrota frente ao Leeds. Mas o mais importante nesta fase não são os resultados. É perceber que o Liverpool está a tentar mudar alguns comportamentos e tornar-se uma equipa mais agressiva e vertical.

Agora falta saber se consegue repetir o processo num clube que não pode esperar três anos para ver resultados.

Francisca Marafona Graça
Francisca Marafona Graça
A Francisca apaixonou-se pela bola ainda antes de saber andar. Vive o desporto como quem joga de primeira e escreve como quem faz um passe em profundidade. Licenciada e mestre em jornalismo, vibra com uma boa tática — seja no relvado ou no papel.

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