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O Manchester City habituou-nos a ganhar, a dominar campeonatos, a empilhar títulos e a transformar finais em rotina
Há vitórias que ficam para a história, equipas que atravessam gerações. E há clubes que, mesmo depois de conquistarem tudo aquilo com que alguma vez sonharam, falham em manter o que de bonito o futebol tem. O Manchester City habituou-nos a ganhar, a dominar campeonatos, a empilhar títulos, a transformar finais em rotina e a fazer do futebol de Pep Guardiola uma referência mundial.
Durante anos, a discussão em torno do clube centrou-se na qualidade do seu plantel, na genialidade do treinador e na capacidade de impor uma identidade de jogo que parecia estar vários passos à frente da concorrência. E nada disso se apaga, mas hoje há outra discussão que não pode ser ignorada.
A 29 de setembro uma comissão independente considerou provadas as acusações relativas a graves infrações financeiras cometidas pelo Manchester City ao longo de nove temporadas, entre 2009/10 e 2017/18. Entre as conclusões estão a utilização de contratos comerciais fictícios para inflacionar receitas e reduzir custos, a apresentação de contas que não refletiam corretamente a realidade financeira do clube e o incumprimento significativo dos limites de despesa. A comissão considerou ainda provada a maioria das acusações relativas à falta de cooperação com a investigação da Premier League. Segundo a decisão, os esquemas identificados permitiram inflacionar receitas e reduzir custos em mais de 900 milhões de libras.
O clube rejeitou as conclusões e apresentou recurso a 1 de outubro. O processo não está, por isso, concluído, e as sanções continuam por determinar. Mas há uma diferença entre reconhecer que a decisão ainda pode ser contestada e fingir que nada aconteceu. A verdade que dói nos balneários do Ethiad é que a dimensão deste caso é demasiado grande para ser reduzida a mais uma polémica passageira.
Explicando a história, durante anos o Manchester City construiu uma máquina de futebol praticamente imparável. Com o investimento dos seus proprietários, transformou-se num dos clubes mais poderosos do mundo, contratou jogadores de elite, atraiu um dos melhores treinadores da história e conquistou troféus que muitos clubes passam décadas sem sequer disputar. A chegada de Pep Guardiola elevou o projeto a outro patamar, e os resultados não deixam mentir e explicam porque é que é um dos melhores treinadores de sempre no mundo do futebol: foram quatro títulos consecutivos da Premier League entre 2020/21 e 2023/24, uma Liga dos Campeões e uma tripla histórica em 2022/23.

Nada disto desaparece por causa da polémica instalada, mas também é injusto fingir que nada se passa e que estes descobrimentos não estão a abalar o clube, o plantel, a chegada de Enzo Maresca (que por si só já era atribulada) e todo o clima da Premier League (como se viu no jogo desta jornada contra o Liverpool).
No entanto, felizmente os adeptos estão a reagir com humor, aparentemente, e os resultados continuam a surgir (seis vitórias em seis jornadas). Porque a verdade é que os jogadores não deixam de saber jogar futebol porque o clube que representam enfrenta acusações de natureza financeira.
A qualidade de Kevin De Bruyne, a capacidade goleadora de Erling Haaland, a inteligência tática de Guardiola ou o trabalho diário de uma equipa inteira não podem ser simplesmente apagados de uma história que também foi construída dentro das quatro linhas.
Os adversários foram enfrentados, os jogos foram disputados e os títulos foram conquistados em campo, por isso o mérito desportivo dos protagonistas não deve ser confundido com a responsabilidade institucional dos dirigentes.

Mas também seria ingénuo acreditar que o contexto financeiro é irrelevante para aquilo que acontece no relvado.
O dinheiro não marca golos, é verdade. Não executa um passe entre linhas, não ganha um duelo individual nem decide um jogo nos descontos. Mas permite contratar quem o faz e é precisamente por isso que as regras financeiras existem. Não servem para impedir os clubes de crescerem, investirem ou contratarem grandes jogadores, mas para estabelecer limites e proteger, tanto quanto possível, a integridade de uma competição em que todos deveriam disputar o mesmo jogo dentro de regras comuns.
E é aqui que o futebol revela uma das suas contradições mais difíceis de aceitar. Vende-nos a ideia de que tudo se decide em campo, mas depende cada vez mais de estruturas empresariais, investidores globais, contratos comerciais e estratégias financeiras que o adepto comum mal consegue acompanhar. A bola continua a ser redonda, mas as condições em que cada equipa chega ao pontapé de saída estão longe de ser iguais.
É necessário exigir que o futebol seja capaz de investigar, decidir e aplicar as suas próprias regras em tempo útil, porque os títulos não são apenas peças de prata numa vitrina. São história, memória, identidade e orgulho. Para os adeptos, representam noites inesquecíveis, gerações de jogadores e momentos que ficam para sempre. Para os clubes, são também ativos comerciais, instrumentos de valorização da marca e fontes de receita. O mesmo troféu que um adepto celebra como uma conquista emocional pode representar milhões para uma empresa.
É difícil encontrar uma demonstração mais clara de que o futebol é, simultaneamente, um desporto e um negócio. O problema começa quando o segundo ameaça consumir o primeiro. E é precisamente por isso que as regras têm de valer tanto para quem luta pela permanência como para quem luta por todos os títulos.












