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Sinisa Mihajlovic – O errante génio de Vukovar

Joel Amorim · 6 min

Sinisa Mihajlovic – O errante génio de Vukovar

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“Se eu sou racista, o Vieira também o é.” – foi desta forma que o sempre irreverente, polémico, mas altamente talentoso Sinisa Mihajlovic terminou uma entrevista na qual tentava defender-se das acusações produzidas pelo antigo internacional francês Patrick Vieira, após o sucedido no jogo entre a SS Lazio e o Arsenal a contar para a Liga dos Campeões disputado no emblemático Stadio Olimpico em Outubro de 2000.

Numa partida de má memória para antigo internacional sérvio, Mihajlovic envolveu-se em diversas quezílias com vários jogadores do emblema londrino durante o jogo, mas foi com Patrick Vieira que as coisas se extremaram, levando o jogador francês a alegar, após o final do encontro, que Mihajlovic lhe tinha chamado “preto de mer**” e pedindo para que fosse feita justiça e que ele fosse castigado. O antigo jogador da SS Lazio acabou por pedir desculpas pelas suas palavras e por ter agarrado Vieira pelo pescoço, mas acrescentou que apenas o fez após o jogador francês lhe ter chamado “cigano de mer**”. Mihajlovic foi multado e recebeu dois jogos de suspensão, mas apesar da argumentação apresentada pelo antigo internacional sérvio, os alegados insultos proferidos por Patrick Vieira não foram alvo de investigação por parte do Comité Disciplinar da UEFA e apenas Sinisa acabou por ser castigado. Mihajlovic negou sempre de forma veemente as acusações de racismo que lhe foram imputadas, sugerindo mesmo que abordassem os seus antigos companheiros da Sampdoria, Ruud Gullit, Clarence Seedorf e Christian Karembeu, de forma a poderem atestar a veracidade das suas palavras.

Mihajlovic (à direita), lado a lado com Seedorf, Karembeu, Mancini e Sven-Goran Eriksson aquando da sua passagem pela Sampdoria Fonte: forum.acmilan-online.com
Mihajlovic (à direita), lado a lado com Seedorf, Karembeu, Mancini e Sven-Goran Eriksson aquando da sua passagem pela Sampdoria
Fonte: forum.acmilan-online.com

O episódio relatado anteriormente foi provavelmente aquele que mais marcou a carreira de Sinisa Mihajlovic fora das quatro linhas, mas o antigo jogador sérvio foi muito mais do que esse triste episódio e deveria, por isso, ser lembrado por outros momentos bem mais marcantes, durante os quais deu ao futebol um contributo inigualável. A carreira de “Barbika”, nome pelo qual era conhecido durante os seus tempos ao serviço do FK Crvena Zvezda (Estrela Vermelha de Belgrado), começou a tomar forma aquando da sua mudança para o FK Vojvodina em 1988, após um período de teste durante o qual, estranhamente, não impressionou os responsáveis do NK Dínamo Zagreb, na época treinado pelo lendário Ciro Blazevik.

O FK Vojvodina provou, no entanto, ser um emblema bastante modesto para o extraordinário talento daquele jovem de cabelo comprido e desgrenhado que tinha no pé esquerdo uma canhoneira sempre pronta a disparar. Em 1990, Mihajlovic mudou-se para Belgrado, para representar o FK Crvena Zvezda e foi ao lado de jogadores como Dejan Savicevic, Darko Pancev, Robert Prosinecki e Vladimir Jugovic, que o “Barbika” levantou a Taça dos Clubes Campeões Europeus no final dessa temporada, após derrotarem o poderoso Olympique Marseille em Bari nas grandes penalidades.

Sinisa “Barbika” Mihajlovic ao serviço do FK Crvena Zvezda no início da década de 1990 Fonte: producciones-rsp
Sinisa “Barbika” Mihajlovic ao serviço do FK Crvena Zvezda no início da década de 1990
Fonte: producciones-rsp

A passagem pelo antigos campeões europeus não foi longa e a sua mudança para a Serie A em 1992, no auge do futebol italiano, foi algo inevitável. AS Roma, Sampdoria, SS Lazio e Inter Milan foram os clubes que representou nos 14 anos que passou em Itália e foi nos Nerazzurri que terminou a sua carreira em 2006. De permeio, ficam anos de momentos inesquecíveis e marcos históricos que certamente o acompanharão durante toda a vida, como por exemplo, o facto de até 2015 ter sido o jogador que mais golos havia marcado na Serie A a partir de livres directos, algo que apenas o grande Andrea Pirlo conseguiu igualar em Abril deste ano.

Depois de pendurar as botas há quase uma década atrás, Mihajlovic permaneceu em Milão e tornou-se treinador adjunto do Internazionale que era, curiosamente, na altura também comandado pelo Roberto Mancini. Em Novembro de 2008, Sinisa, que havia deixado os Nerazzurri uns meses antes (após Mancini ter cedido o seu lugar a José Mourinho), assumiu o leme do Bologna FC, mas a sua primeira primeira experiência como treinador principal durou pouco mais de uma mão cheia de meses, tendo abandonado o clube após uma pesada derrota caseira perante o AC Siena e por alegadamente não ter a melhor relação com algumas das “primadonnas” do emblema da Emilia-Romagna. Nos anos que se seguiram, Mihajlovic somou passagens pelo Calcio Catania, onde teve uma boa prestação e pela Fiorentina, onde apesar de muitos altos e baixos, conseguiu alguns momentos assinaláveis, sem nunca, no entanto, ter convencido os adeptos Viola, que chegaram mesmo a proferir insultos de teor racista contra o treinador sérvio, que tem origens Romani.

Em 2012, foi nomeado selecionador da Sérvia, algo que em tempos confessou ser um sonho tornado realidade, mas mais uma vez as coisas não correram de feição e a equipa não conseguiu marcar presença no Mundial de Futebol do Brasil em 2014. As diversas quezílias com alguns jogadores, que segundo Mihajlovic sofriam de falta de empenho e ao mesmo tempo desrespeitavam a camisola que envergavam, foram talvez aquilo que precipitou o fim da sua aventura com a seleção sérvia e, em Novembro de 2013, foi apresentado como novo treinador da Sampdoria, clube pelo qual havia passado como jogador cerca de 20 anos antes.

Foi ao serviço da Samp que Mihajlovic conheceu os melhores momentos da sua ainda jovem carreira de treinador. Ao lado do adjunto Nenad Sakic, também ele um antigo jogador do clube, Mihajlovic transformou novamente a Sampdoria num emblema de topo do futebol italiano e o fantástico início de época da Samp na temporada passada colocou definitivamente um ponto final nas dúvidas que teimavam em rodear o talento do antigo internacional sérvio como treinador principal.

A sua excelente prestação ao serviço do emblema genovês despertou o interesse do AC Milan, que o apontou como substituto de Filippo Inzaghi em Junho deste ano.

Apesar de ter assinado um contrato válido até 2017, a vida de Sinisa Mihajlovic não tem sido fácil desde que chegou a San Siro. Os Rossoneri ocupam, neste momento, um lugar na segunda metade da tabela e a sua forma de jogar não tem sido particularmente inspiradora. Algumas franjas de adeptos começaram já a verbalizar o seu descontentamento e os media italianos já equacionam o cenário de uma eventual saída prematura de Mihajlovic, caso os bons resultados não comecem a aparecer nos próximos jogos. Numa entrevista recente, o treinador sérvio ironizou de certa forma com toda esta situação, afirmando que caso ele não consiga levar o clube a bom porto, o AC Milan necessitará eventualmente de contratar um exorcista para o fazer.

Mihajlovic ao lado de Balotelli na sua nova aventura no AC Milan Fonte: eurosport.com
Mihajlovic ao lado de Balotelli na sua nova aventura no AC Milan
Fonte: eurosport.com

Sinisa Mihajlovic foi um jogador e é actualmente um treinador de pavio muito curto, de convicções fortes e com o coração muito perto da boca, mas aqueles que o conhecem fora do mundo do futebol não hesitam em dizer que é um homem extremamente bondoso, com uma inteligência muito acima da média e com uma personalidade muito menos explosiva do que aquela pela qual é sobejamente conhecido no mundo do futebol. A sua história pessoal (e profissional) é ainda marcada por um triste marco: embora já se encontrasse fora da ex-Jugoslávia, Mihajlovic foi uma das “vítimas” do conflito dos Balcãs do início da década de 1990 e tudo aquilo pelo que os seus pais (o seu pai era sérvio e a mãe croata) passaram em Vukovar é algo absolutamente inenarrável. Posters e fotografias de Mihajlovic com os olhos arrancados e com o coração perfurado eram facilmente encontradas pela cidade e, não fosse uma fuga de última hora para fora de Vukovar antes da chegada das tropas croatas, os seus pais não teriam sobrevivido aquele tenebroso conflito.

Mihajlovic é, por natureza, dotado de uma genialidade errante, mas foi seguramente um dos melhores jogadores europeus do seu tempo e o futuro dirá se o talento que lhe assistia durante os seus tempos dentro das quatro linhas o irá acompanhar na sempre ingrata carreira de treinador.

Foto de Capa: goal.com

Joel Amorim

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