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Imagina que estás em Portugal e o teu clube está abaixo da chamada «linha de água», quantos adeptos estariam no estádio? Eu digo-te o atual cenário das últimas equipas da Primeira Liga Portuguesa nos seus últimos jogos. O Portimonense SC teve 2.522 espetadores e o CD Aves teve 1.779 (e a média total da Liga Portuguesa é de 11.692, em 2019). Digamos que, para além da falta de cultura desportiva, temos o problema de a maioria ser de um dos ditos «três grandes», mas com uma certa tentativa de mudança à vista.
Agora imagina estares na Alemanha e o teu clube estar nessa mesma posição? Com uma média de audiência de 43.441 espetadores (2019), a 1. Bundesliga, principal Liga Alemã, conhece um clube que luta ferozmente pela permanência na mesma. Uma liga onde o difícil não é subir, mas sim ficar e se não existir um bom investidor a sua estadia na elite do Futebol alemão será efémera.
Ora, pois bem, estamos a dia 15 de fevereiro de 2020 e a situação do Fortuna Düsseldorf 1895 é entre o lugar do play-off de descida e os lugares que dão bilhete direto para a 2. Bundesliga. O adversário desta jornada é o Borussia VfL Mönchengladbach, um «rival» da cidade que para muitos devido à sua boa relação não o consideram como um. Mas, ainda assim, era um jogo com essa envolvência de dérbi.
Hereinspaziert❗️#f95 | 🔴⚪️ | #F95BMG pic.twitter.com/1NUFUMniCQ
— Fortuna Düsseldorf (@f95) February 15, 2020
Neste artigo, vou tentar demonstrar, através de palavras, a enorme cultura desportiva que este país tem e também o ambiente completamente diferente daquele que é vivido no nosso país. Talvez, tenhamos muito que aprender com o Futebol por estes lados da Europa (Talvez não. Temos mesmo). Sejam bem-vindos a Düsseldorf e ao Merkur Spielarena.
A BOMBA DE OXIGÉNIO QUE SE CHAMA «ADEPTOS»
São 15h e o dia, ou neste caso a tarde, começou em Altstadt, ou seja, o centro da cidade da parte mais antiga de Düsseldorf, mais precisamente em Bolkerstrasse. Confesso que foi deveras complicado pronunciar o nome da rua, que é considerada «o bar mais longo do Mundo». É uma rua que tem 300 metros e onde coabitam 50 restaurantes, bares e pubs e é aqui que os adeptos do Fortuna em dias de jogos se reúnem antes dos mesmos.

Fonte: João Barbosa/Bola na Rede
Já instalados na Bolkerstrasse (tens permissão para saltar o nome), foi tempo de observar um fenómeno que é praticamente impossível em Portugal – exceção única na Final da Taça de Portugal, no Jamor. Adeptos de ambas as equipas (Fortuna Düsseldorf 1895 e Borussia VfL Mönchengladbach) coabitavam em bares onde reinava a boa disposição e a amizade entre «rivais». Este era o habitat natural presenciado.
Um fenómeno da natureza futebolística que para um observador português é complicado de compreender. Digo isto porquê? É certo que existe as tradicionais roulottes perto dos estádios portugueses onde os adeptos podem conviver antes dos jogos, mas vamos pôr isto num caso prático. Imaginam adeptos do SL Benfica e do Sporting CP (às centenas) juntos sem qualquer problema? Já presenciei uns quantos momentos destes e os adeptos adversários recebem típicas “bocas” que já não roçam a “rivalidade”, mas sim a estupidez.

Fonte: João Barbosa/Bola na Rede
Na televisão de um dos bares, ia dando o RB Leipzig com o SV Werder Bremen, rival direto do Fortuna na batalha contra a descida. O jogo deu-me oportunidade de falar com Basti, adepto do Fortuna Düsseldorf, que contou que as aspirações do clube não podem ser grandes numa Liga como esta, onde existem os chamados «clubes-empresas». Basti desabafou também que tem pena que um clube tão histórico como o Werder Bremen esteja numa posição tão instável na Liga (17.º lugar) e haja clubes cheios de investidores a «minar» históricos do Futebol alemão.
Die Grün-Weißen (os verdes e brancos) acabaram mesmo por perder por 3-0 contra Die roten Bullen (os touros vermelhos) e mantinham-se assim em zona de despromoção. Uma luta que, à priori, já sabemos que vai a três entre SC Paderborn 07, SV Werder Bremen e Fortuna Düsseldorf 1985, que até agora ainda se mantém intensa.
Há dois anos, o Fortuna Düsseldorf venceu dramaticamente a 2. Bundesliga e a festa em Nuremberga e, depois, em Düsseldorf explica bem a paixão destes adeptos
Retirando o momento «BBC Vida Selvagem – Edição Futebol», nota-se a quilómetros de distância que os habitantes de Düsseldorf sentem todos os momentos, sofrem com as derrotas e os períodos menos bons e respiram aquilo que é essência do clube da cidade. Para além disso, os adeptos são a verdadeira bomba de oxigénio do clube e acredito que estes sejam a verdadeira fonte de inspiração para os jogadores em campo. Digamos que para uma equipa que está em sério risco de despromoção o ambiente que se vivia na cidade era de pura festa ao verem o seu clube na 1. Bundesliga, mais uma vez.
UMA (ENORME) CULTURA DESPORTIVA E O AMOR AO CLUBE
Já se fazia tarde e estávamos cada vez mais perto das 17h30, a hora de início do jogo. Fomos de táxi para o Merkur Spielarena e nas bermas das estradas pelas quais passávamos parecia que se amontoavam cada vez mais pessoas. Para aqueles que já viram a série Sunderland ‘Till I Die vão perceber o que estou a falar: todos os caminhos iam dar ao estádio (e não a Roma, como diz o ditado), onde pessoas com bandeiras às costas e vestidos a rigor de vermelho e branco seguiam convictos para apoiar, num dia tão complicado como este, o seu Fortuna.
Um estádio à «beira Reno plantado», o Merkur Spielarena não é um imponente estádio, mas a sua construção completamente moderna deixa qualquer um pasmado, pelo menos aqueles que têm o «bichinho» de colecionar visitas a estádios. Ao lado do estádio, foi construído um terminal do metro e agora pode parecer pouco importante, mas no final vais perceber a referência.
A entrada para o estádio foi pacífica e lá dentro houve direito a cerveja. Quem diria que seria possível tal feito acontecer? A verdade é que é completamente normal esta situação na Alemanha e a educação de maior parte dos alemães permite que se torne uma situação sem ocorrências de agressões, muito pelo contrário. O relógio não parava, as 17h30 aproximaram-se num ápice e os adeptos do Fortuna deram a conhecer a coreografia para o encontro contra o «rival da cidade».
Fortuna Düsseldorf fans with a choreo for the derby against Borussia Mönchengladbach.
👌#F95BMG #F95 pic.twitter.com/7RVBivImRV
— DW Sports (@dw_sports) February 15, 2020
Antes do jogo, os adeptos do Fortuna gritavam a plenos pulmões o onze inicial da sua equipa convictos que era naquele jogo que quebrariam a má fase no campeonato. À data, o Fortuna era antepenúltimo classificado e recebia um estádio com 51 mil espetadores, onde a maioria era para apoiar o clube fosse o que fosse. Mas esta é essência destes clubes: as pessoas estão ali porque amam o clube da sua cidade e muitos dariam a vida por uma vitória do Fortuna. Não importa se vencem ou se perdem, o seu lugar é ali ao pé da equipa.
A partida não começou de feição para o Fortuna, pois, aos 22 minutos, Hoffmann marcou para o Borussia num excelente contra-ataque. Porém, engane-se que o ambiente no estádio se silenciou e quando, aos 29 minutos, surge o golo do empate o estádio foi «abaixo». Foi uma sensação indescritível e festejei o golo como se fosse um da minha equipa de tanta envolvência que o jogo tinha (e porque estava a apoiar o Fortuna, claro).
O intervalo chegou e o placar marcava “1-1”. Um empate justo para aquilo que tinham feito as duas equipas. A segunda parte mostrou um Fortuna desajeitado e três golos deixaram a equipa «knockout».

Fonte: João Barbosa/Bola na Rede
A desilusão nos rostos dos adeptos era mais do que visível que viam a sua equipa perder mais um jogo e a deixarem pontos preciosos escaparem para a cidade a cerca de 40 quilómetros da sua. Mas o que mais me surpreendeu foi o facto de depois de uma goleada os adeptos permaneceram nos seus lugares e demonstraram o seu apoio num momento mais difícil. Do outro lado, equipa e adeptos do Borussia Mönchengladbach saltavam e cantavam no habitual ritual pós-jogo.
À PROCURA DE SE AFIRMAR NA ELITE RESTRITA
Usando uma analogia da sociedade da Idade Média, o Fortuna não é um clube tão histórico como muitos que frequentam atualmente a elite alemã, mas é um verdadeiro pequeno burguês à procura de se voltar a afirmar. Com um palmarés consistente, ninguém lhe tira os troféus que até agora já conquistou (uma 1. Bundesliga, duas 2. Bundesliga e duas DFB Pokal – a última em 1980) e isso é tão certo como o céu ser azul. Falta apenas encontrar o seu caminho, que aviso já que será difícil, para se afirmar, novamente, no Futebol alemão.

Fonte: João Barbosa/Bola na Rede
Foi uma viagem a uma cidade que me mostrou que há muito ainda para aprender com o Futebol germânico, tanto dentro como fora das quatro linhas. Como se costuma dizer, foi um verdadeiro «banho de bola» que não só me fez olhar de outra forma para a Liga Alemã, mas também para a nossa, a Liga Portuguesa, que não está em crise… Não! Está no fundo de um poço à espera de ser resgatada. Se oportunidade houver para experienciar momentos como estes? Vão sem pensar duas vezes. Dos tubarões aos mais modestos, a experiência fora de Portugal é 100% diferente e especial.
Ah! Ao sairmos do estádio, tivemos de esperar numa longa fila para chegar ao metro e estávamos acompanhados por um adepto do Borussia. Felicíssimo mostrava com orgulho, através de cânticos, que o seu clube tinha ganho a um rival. Os do Fortuna respondiam com picardia, relembrando que o Borussia Mönchengladbach estava eliminado da DFB Pokal, a Taça da Alemanha. Por isso, aquilo que mais se ouvia era «Nós vamos a Berlim!». Apesar de tudo, respeito foi a palavra que sempre esteve acima de tudo e de todos, tal como ao longo do dia.

Fonte: João Barbosa/Bola na Rede
Dentro do metro na volta para o centro da cidade um novo habitat, mas o mesmo respeito sempre. Adeptos do Fortuna Düsseldorf e do Borussia Mönchengladbach continuavam a entoar cânticos uns contra os outros, mas sempre com a mesma amizade. E assim seguiu o comboio da 1. Bundesliga. Os clubes não saíram da mesma posição: o Fortuna continua a sofrer perto da zona de despromoção e o Borussia a lutar pelo título. Mas quem diria que ao longo de todo o texto «violência» não foi uma palavra presente. Assim é o Futebol e assim é o Futebol alemão.
Foto de Capa: Manuela Baptista Coelho / Bola na Rede










