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O povo é quem mais ordena

André Eusébio · 2 min

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Certamente que este tema de Zeca Afonso – que por sinal está muito na moda – se aplica ao futebol brasileiro. Para cantarmos Grândola, Vila Morena temos de fazer um exercício de memória. Para cantarmos uma ode merecida ao Clube de Regatas Flamengo também. E ver o poder que a massa tem, não só dentro da cidade como num país inteiro.

Zico pega na bola, passa um, dois, três, e golo magistral. O Maracanã ao rubro já estava, pois é a cor da maior torcida do Brasil. Negro tem muitos. Nas listras da camisa e nas arquibancadas. É a cerveja gelada que fica por beber, o encontro de amigos e o almoço de família desmarcados, e até os filhos podem esperar. Hoje não dá para isso. Hoje só dá Flamengo. Se houver um livre para bater dentro da área, é Jorge Bem quem canta: “É o camisa 10 da Gávea”.

Se a década de 80 foi de Michael Jackson, dos cabelos estouvados, da ilusão do poder de compra, de Regresso ao Futuro e outros filmes – em suma, do mundo moderno que hoje conhecemos -, foram também tempos de fim de ditadura no país irmão. Mas com o fim da ditadura uma outra se instalava. Esta boa. Foi a hegemonia dos flamenguistas no panorama nacional e extra muros. O nome do Urubu (mascote do clube) ficou inscrito na lista dos vencedores do campeonato por quatro vezes: 1980, 1982, 1983 e 1987. Venceu ainda a Libertadores em 1981. No mesmo ano, esmagaria o Liverpool em Tóquio por três a zero, na Taça Intercontinental. Liverpool foi a cidade dos Beatles, mas o Rio de Janeiro é a cidade Maravilhosa, abençoada por Deus, ou deuses, como Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade ou Chico Buarque. O samba venceu o Rock.

Arthur Antunes Coimbra, filho de portugueses, mais conhecido por Zico. Um vulto do Futebol / Fonte: blog.opovo.com.br
Arthur Antunes Coimbra, filho de portugueses, mais conhecido por Zico. Um vulto do Futebol / Fonte: blog.opovo.com.br

Só no Mundial de´82 de Espanha o futebol ofensivo que os flamenguistas (em maior número na canarinha) imprimiram numa das grandes seleções de sempre não vingou. O cinismo italiano venceu a espetacularidade brasileira. No jogo, que ficou conhecido como o desastre do Sarriá – estádio na Catalunha onde foi jogada a partida -, o mundo viu o futebol negativo vencer. Um dos maiores crimes, quiçá, dos velhos tempos da história de toda a humanidade. O mal venceu o bem. E para a história ficou um conjunto fortíssimo. Possivelmente o melhor de todos os tempos. Não venceu. Mas por isso mesmo talvez tenha sido o melhor.

Quarenta milhões de adeptos, segundo estatísticas da FIFA. Maior torcida do mundo. Clube hexacampeão brasileiro. Escusa-se de apresentações. É samba e folclore. É clube do povo e alegria. É negro com branco. Empresário e canalizador. É massa ancestral e indistinta. Arrepiante. O seu hino diz: uma vez Flamengo, sempre Flamengo. O povo escolheu. E o povo escolheu Flamengo.

André Eusébio

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