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Uma final de outro mundo

Eduardo Botelho · 3 min

Uma final de outro mundo

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Cabeçalho Futebol Internacional

Gary Lineker nunca rematava à baliza durante o aquecimento e, caso não marcasse qualquer golo na primeira parte, trocava de camisola ao intervalo. Cruyff cuspia sempre a pastilha para o meio-campo adversário antes do pontapé de saída. Lucescu não deixa que o condutor do autocarro faça marcha atrás com os jogadores lá dentro. Pequenas ações que vão passando despercebidas mas que são determinantes. A França deve o seu título mundial àqueles beijinhos que Laurent Blanc dava na careca de Barthez antes do início de cada jogo e o Benfica não vence competições europeias devido à maldição de Bella Guttman.

O mundo do futebol rege-se por leis diferentes das do mundo terreno. Diego Simeone sabe-o. Quando sai do balneário para o campo, o treinador do Atlético de Madrid aponta o indicador e o mindinho da mão direita para o chão para afastar o azar. Antes do apito inicial beija os pulsos. Nos jogos importantes, vai de camisa negra, tal como quando venceu a Liga Europa em 2012, porque em equipa que ganha não se mexe.

É também por isso que, desde os quartos-de-final, escolhe sempre os mesmos dois jogadores para irem consigo à conferência de imprensa antes dos jogos da Champions: Gabi e Fernando Torres. Assim eliminaram o Barcelona e assim eliminaram o Bayern de Munique, portanto lá estiveram Gabi e Torres a responder às questões dos jornalistas na véspera da final de Milão.

Simeone depois de eliminar o Bayern... com a sua camisa preta Fonte: Club Atlético de Madrid
Simeone depois de eliminar o Bayern… com a sua camisa preta
Fonte: Club Atlético de Madrid

Por outro lado, aquilo que não resulta muda-se. Há dois anos, o Atlético preparou-se para a final de Lisboa em Los Angeles de San Rafael. Foi aí que Simeone preparou a final da Taça que venceu ao Real Madrid, em 2013, e também havia sido aí que se tinha treinado, enquanto jogador, antes da dobradinha do Atlético em 1996. Mas, como o resultado na final de Lisboa não foi o pretendido, Simeone não quer repetir nada de há dois anos. A preparação, desta vez, foi feita entre o Vicente Calderón e a Ciudad del Fútbol de Las Rozas; o voo para Milão foi feito dois dias antes da final (em vez de na véspera) e, pela primeira vez, os jornalistas não puderam viajar com a equipa. Diz-se até que o Atlético pediu para jogar com o equipamento alternativo na final, proposta que foi rejeitada pela UEFA.

Simeone tem bons motivos para tentar afastar o azar. É que o Atlético de Madrid está amaldiçoado. É uma das únicas equipas (juntamente com o Stade de Reims e com o Vaência) que já perdeu duas finais da Liga dos Campeões, sem nunca ter ganho nenhuma. Mas, pior, foi a forma como perdeu ambas. Há dois anos, batia o Real Madrid por 1-0, quando, aos 92 minutos e 48 segundos de jogo sofreu o golo do empate. Em 1974, batia o Bayern de Munique por 1-0, quando consentiu o empate no último minuto do prolongamento. É demasiado cruel para ser só azar. O Atlético é um clube amaldiçoado e está destinado a perder a sua terceira final. No final do jogo, até o leitor mais cético será forçado a concordar comigo.

Há apenas uma réstia de esperança para os colchoneros. Repare no percurso que os dois clubes fizeram até à final: enquanto o Real defrontava o terceiro classificado italiano (Roma), o oitavo alemão (Wolfsburg) e o quarto inglês (Man. City), o Atlético eliminava o campeão holandês (PSV), o campeão espanhol (Barcelona) e o campeão alemão (Bayern) – o que demonstra que a má sorte do Atlético esteve presente desde início. Se conseguiram chegar até aqui, talvez estejamos prestes a assistir a mais um milagre. Nesse caso, teremos a confirmação de que Simeone é um santo. Seja como for, o que se passa naquele retângulo de relva só encontra explicação noutro mundo.

Artigo revisto por Bárbara Mota

Foto de capa: UEFA Champions League

Eduardo Botelho

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