Andrés Iniesta: o toque final da batuta

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Andrés,

É difícil saber por onde começar, numa altura em que a despedida parece estar mais perto do que nunca. Começo a chegar a uma altura em que sei que todos os meus ídolos irão dizer adeus mais tarde ou mais cedo, mas confesso que o teu adeus, pelo menos do nosso clube, é dos poucos para o qual não estou preparada. Falar-se em Iniesta é mencionar-se inúmeras qualidades e nem sempre serem suficientes para demonstrar o génio que é.

Era uma miúda quando comecei a ver a pôr os olhos no Barcelona, a ver os jogos daquela equipa da qual ouvia tão bem falar, onde foi a primeira vez (e, pelos vistos, a primeira vez marca mesmo, já que é a única equipa que defendo com unhas e dentes depois daquela que prefiro em Portugal) que vi o porquê de a Liga Espanhola ser tão bem cotada. Jogaste numa altura em que os nomes que te rodeavam eram épicos: tinhas a idade que tenho agora e vias “miúdos”, como Messi e Piqué, a começarem a explodir; tinhas o mágico Ronaldinho a jogar na tua frente, mas sempre com o Puyol a dar-te segurança na defesa e o apoio de Xavi na construção de uma das melhores linhas de meio-campo que eu me lembro. Abidal, Henry e Eto’o- que entrou após a saída de Ronaldinho- foram outros dos nomes que começaram a ficar gravados na memória.

Foi depois no dia dois de Maio de 2012 que viria a concretizar o meu sonho: encontrámo-nos em Camp Nou. Já eras treinado por Pep Guardiola- aquele que diziam que só vingava no Barcelona, apesar de essa história ficar para outro conto- e eras dono e senhor do meio-campo. Apesar de ter sido na mítica altura dos sete dias, sete golos de Messi, sempre me ficaste na retina pela qualidade de passe que tinhas. É preciso mesmo falar daquela desmarcação para o golo de Puyol? E daquele passe em desmarcação para o chapéu de Messi? Podia dizer que eras um visionário, mas não; eras tu próprio, o mágico que, com a sua humildade, ia espalhando rasgos de genialidade, para os quais me foste habituando ao longo do tempo.

Poucos meses depois, vieste a Lisboa. Novamente, continuava a ser uma miúda completamente deslumbrada pelo tipo de jogo do Barcelona e, mesmo assim, tive a oportunidade de me encantar mais um pouco. Não foi preciso entrares de início; aliás, entraste já a meio da segunda parte e, contudo, mostraste o teu perfume habitual. Mostraste que, como sempre, o jogo poderia passar por um elemento que, com um sentido de antecipação alarmante, conseguia construir o jogo de Pep, em que sempre foste o distribuidor de jogo do famoso Tiki-Taka.

O último beijo de Andrés
Fonte: FC Barcelona

Três, pelos vistos, foi mesmo a conta que Deus fez. Este ano, provavelmente o teu último de símbolo culé ao peito, pude-te ver jogar da forma mais próxima que alguma vez estive. Nunca senti um misto de emoções tão grande mas, ao mesmo tempo, nunca me senti tão satisfeita a ver um jogo de futebol. Apesar de o sistema tático aplicado ser o de um futebol mais direto, nunca quiseste deixar de pensar três segundos à frente, manter o nível altíssimo e, sempre que possível, a bola junto do pé, tentando ser feliz, mas encontrando uma equipa demasiado motivada para que pudesses festejar quatro ou cinco tentos em noventa minutos; tentaste fazer o que te foi permitido, sendo ovacionado de pé por todos os que estavam ali, em Alvalade. Era o mínimo que merecias; é o mínimo que em todos os jogos mereces.

Agora, mais maduro, dá para perceber que o fulgor não é o mesmo; que nem sempre é preciso jogar os noventa minutos para fazer a diferença. Tu, tal maestro de batuta, continuas a ter a calma suficiente para a equipa tocar a sinfonia perfeita.

Neste momento, pelas contas do campeonato, estás a um ponto de ser campeão, provavelmente a última liga com o símbolo blaugrana ao peito. Espero que o ganhes, como desejaria que ganhasses tudo o que fosse possível e imaginário esta época, apesar de ambos sabermos que é impossível.

Irás sair de cabeça levantada, pela porta grande e de lágrima fácil no canto do olho- o que sei que já acontece, mas acredita, não é só a ti- e com as costas cheias de títulos, que nunca serão suficientes para o que deste ao mundo do futebol.

Assim, quero-te agradecer, de corpo e alma, por me mostrares sempre o que é futebol. Por mostrares que nem sempre é preciso jogar bonito, que existe sempre um meio-termo entre a racionalidade e o coração.

Prometo e prometerei falar aos meus filhos que houve um (i)mortal que me mostrou a beleza do futebol. Que a vida no Oriente te corra tão bem ou melhor por aqui, como contam os rumores; afinal, também a parte oriental tem direito de te ver jogar a horas decentes. Uma coisa é certa: qualquer homenagem que te será feita, será sempre insuficiente para o que deste ao desporto. Não me resta muito mais a dizer a não ser:

Obrigada, Capitão.

Foto de capa: FC Barcelona

Marta Reis
Marta Reishttp://www.bolanarede.pt
Serrana e Sportinguista de gema. Doente por futebol desde que se conhece e apreciadora de ténis e NBA.                                                                                                                                                 A Marta escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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