Ronaldo para a história

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“Terça-feira será uma noite perfeita; mágica”, avisara Ronaldo.

Diz-se que a melhor maneira de prever o futuro, é criá-lo, e Ronaldo já tinha decidido que seria assim. Marcou o primeiro, marcou o segundo, marcou o terceiro e marcou o seu nome na história das noites mágicas do Bernabéu. Talvez não soubesse que a bola cruzada pelo Carvajal seria desviada por um defesa, deixando-o em situação ideal para fazer o primeiro golo. Talvez não soubesse que a barreira se iria abrir quando rematou para o terceiro. (O golo de cabeça sim, já ele tinha planeado ao milímetro). Mas, se não fosse assim, seria de outra forma. Mas seria, que ele já tinha decidido.

É um bicho, como lhe chamam aqui em Espanha, que teima em superar todas as barreiras, metafóricas ou literais. Desta vez, surgiu uma barreira de sete “alemães”, alinhados para impedir que o seu remate chegasse à baliza. Mas foi inútil. O livre até era mais ao jeito de Bale, mas o galês nem se aproximou, que estava ali um homem determinado em criar o seu próprio futuro. E o pontapé de Ronaldo transmitiu um pouco daquela sua obstinação para a bola, que só tendo um feitio especial é que poderia atravessar assim a barreira, pelo único buraco que lá havia. Ali, entre os 1,98m de Naldo e os 1,87m de Guilavogui.

Punho fechado e uma veia a querer saltar do pescoço, assim se remonta. Fonte: Facebook Oficial de Cristiano Ronaldo
Punho fechado e uma veia a querer saltar do pescoço, assim se remonta. Fonte: Facebook Oficial de Cristiano Ronaldo

Os golos entrariam de qualquer forma, mas os festejos só podiam ser como foram. Não era dia de dar aquele saltinho com meia volta, que o Ronaldo já tornou famoso. Era dia de punho fechado e uma veia a querer saltar do pescoço. A mesma veia que o fez sair da Madeira sem nada e que agora o impede de se contentar com três Bolas de Ouro. Ronaldo quer sempre mais. Depois de um golo, quer o próximo. Depois de pôr 80.000 adeptos a gritar pela equipa no Bernabéu, gesticula para a bancada, reclamando mais apoio: “Vamos, c******”, grita em bom português. E fá-lo, tendo já ganho legitimidade para isso, o que não é fácil num estádio habituado a ver os melhores.

Remontadas como esta sobrevivem mais do que qualquer obra de betão. É em noites como a de terça-feira que os grandes clubes são erigidos e que as lendas são criadas. E são os seus protagonistas que alimentam sonhos de crianças e, mais tarde, alimentam as histórias que essas crianças contarão aos netos. Juanito, que jogou no Real Madrid nas décadas de 70 e 80, é um desses nomes, que se imortalizaram à base de raça e de participação em remontadas históricas, e que é dado como exemplo aos mais novos. Esta semana, o filho de Juanito disse que está cansado de ouvir os adeptos invocarem o nome do seu pai. Não será mais necessário. O Real Madrid já tem um herói para as próximas décadas.

Foto de Capa: UEFA Champions League

Eduardo Botelho
Eduardo Botelhohttp://www.bolanarede.pt
Se os passes de letra existissem literalmente, o Eduardo talvez tivesse dado jogador de futebol. Assim, limita-se às reviengas literárias. A viver em Barcelona, tem vista privilegiada para a melhor liga do mundo.                                                                                                                                                 O Eduardo escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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