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A importância de se chamar match day

Frederico De Távora Pedro · 5 min

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Nunca na minha vida mantive um diário. Sempre achei que, ao longo dos meus 23 anos de vida, os momentos dignos de registo nunca me sairiam da memória, e que com eles ficariam todos os seus detalhes e pormenores.

Estou metade certo, metade errado. Lembro-me bem dos golos de Zidane contra o Brasil em 98, do tiraço de Figo contra a Inglaterra em 2000, da mão de Abel Xavier, do livre de Sabry que calou Alvalade e adiou os festejos do último título do Eterno Rival, e de muitas outras memórias que o Desporto-Rei já me proporcionou. Mas, até ao passado dia 3 de Dezembro, nunca tinha temido que uma memória desaparecesse. Que pura e simplesmente, uma experiência que se quer única, se converta afinal em “apenas mais um”.

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Nesse sentido, caro leitor, quero não só imortalizar, como partilhar, o dia 3 de Dezembro de 2016, como aquele em que, pela primeira vez, tive o privilégio de assistir a um jogo de Premier League, nas primeiras filas da Lower North Stand do velhinho White Hart Lane.

Se por cá se diz jornada, não é ao acaso que em terras de Sua Majestade, a expressão utilizada é Match Day. Aquele sábado solarengo na cidade de Londres, que, pelo clima, já era de si peculiar, começou para mim com um pequeno-almoço junto ao Palácio de Westminster, em que eu  apenas um de mais centenas de turistas que passam pela capital do Reino Unido diariamente. Se a maior parte deles estava mais preocupado com o ângulo perfeito para uma selfie com o Big Ben, eu batia o pé sentado no balcão de um qualquer café, à espera que no relógio mais acertado do mundo batessem as 10 da manhã para me dirigir a North London para levantar o meu bilhete na bilheteira de The Lane. E assim foi.

À saída do metro, dei de caras com uma zona mais degradada, que em nada corresponde ao fantástico e ao carisma da cosmopolita Londres, mas, no meio daquele bairro claramente menos favorecido, ergue-se, desde 1899, o mítico White Hart Lane.

Já na bilheteira, bati com o nariz na porta. Eram quase 11 da manhã, e o levantamento de bilhetes só é permitido duas horas antes do jogo. Ora, estando agendado para as três da tarde, muito tinha eu que esperar para ver finalmente a bola rolar, e sentir em primeira mão a magia de ver ao vivo algo que desde pequeno apenas acompanho num ecrã de televisão.

Mas estava enganado, e o tempo voou. Ao lado da loja oficial do clube, está o Tottenham no. 8, um pub que em dias de jogo se destina apenas a membros do clube.

Demorou algum tempo, mas lá consegui convencer o segurança a entrar no pub, tendo em conta que dentro de momentos começava o jogo grande do fim-de-semana, City vs. Chelsea. Assim que entrei, percebi o porque de Match Day.

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Adeptos dos Spurs, de muitas idades, já lotavam aquele acolhedor pub em com todos feito em madeira escura, a trocar impressões sobre os mais variados temas, desportivos e quotidianos, de olhos postos no ecrã no qual esperavam ver um empate entre dois dos candidatos ao título de campeão inglês. Tive a felicidade de poder travar conhecimentos com dois grandes adeptos dos Spurs e amigos de longa data, na casa dos 40.

Já viram muitos momentos do clube, uns melhores que outros, mas nunca tiveram a oportunidade de ver o seu Tottenham levantar o título de campeão, apesar de já terem assistido a algumas conquistas do clube. Como benfiquista, logicamente que veio à conversa o duelo dos oitavos-de-final da Liga Europa 2013/2014, em que recordaram com alguma melancolia a derrota imposta pelo Benfica, a quem reconheceram um enorme estatuto histórico, mas reprovaram, como muitos de nós os polémicos acontecimentos que envolveram Jorge Jesus, Tim Sherwood, Raul José e Shéu, num momento menos digno do então treinador encarnado.

No ecrã, e por entre cânticos de apoio aos Spurs, o marcador assinalava 1-0 para o City, quando Fabregas descobre Diego Costa, que atirou para o fundo das redes de Cláudio Bravo.

Celebrou-se, não fosse o empate o resultado mais desejado por todos aqueles que concorrem com os dois clubes “grandes” de Inglaterra menos respeitados, não se valorizasse no futebol inglês a história de um clube e a maneira como esse clube recheia o respectivo palmarés. Ainda assim, até esses dois, na palavra dos adeptos do Tottenham, são melhores que o Arsenal. Qualquer coisa é melhor que os rivais de North London.

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O jogo terminou, o Chelsea bateu o City por 3-1, e embora reconheçam, numa atitude de desportivismo, que o Chelsea foi e tem vindo a ser a melhor equipa, confessaram-me que, a haver um vencedor, que fosse o City, não só por motivos pontuais, mas porque o Chelsea é de Londres, e a rivalidade entre os clubes londrinos, sendo um mais cordial do que aquela entre lisboetas, ainda pesa muito na mente de qualquer adepto de futebol.

Durante o jogo, e já após o louvável minuto de silêncio (e não de palmas) em honra às vítimas do desastre na Colômbia, pude constatar que o ambiente nas bancadas, entre adeptos, é muito familiar, onde se discutem temas do futebol, jogadas passadas, a forma dos jogadores, entre outros, sempre com uma palavra de incentivo ao clube e aos seus jogadores, ainda que se a vontade do adepto seja a de criticar uma acção menos boa do jogador.

Peculiar é também, no caso do Tottenham, a relação que é mantida entre as bancadas de White Hart Lane e o melhor marcador da equipa, Harry Kane. Como o próprio cântico de apoio ao n.º 10 dos Spurs, he’s one of our own. E várias são, durante a partida, as vezes em que é entoado esse cântico, não só a cada golo que marca, mas também a cada vez que corre aquele metro extra, com aquele bocadinho a mais de velocidade e pressiona o portador da bola com uma vontade acima da média, atributos que só são desbloqueáveis a jogadores que jogam pelo símbolo que carregam no peito, e não pelo nome que ostentam nas costas. Mas, sobretudo, é um jogador que está obrigado a sentir o carinho que os adeptos lhe têm, pela forma como o amparam sempre que um lance lhe corre menos mal e lhe dizem “Go on son!”

O jogo terminou, e o dia para os adeptos da casa era de festa. Os Spurs brilharam, encheram o campo, e após derrota frente aos vizinhos do Chelsea, os homens de Pochettino disseram presente em vésperas de uma deslocação trabalhosa a Old Trafford, ficando colados ao Top-4 a meros três pontos do City e do Liverpool.

Para mim, o dia foi de festa, pois orgulhosamente assumo que para mim, ver o melhor campeonato do mundo ao vivo foi o concretizar de um sonho enquanto adepto de futebol, num palco tipicamente britânico, em que tive o privilégio de participar numa bela tarde de futebol.

Frederico De Távora Pedro

Redação Bola na Rede · ver artigos