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Um histórico clube londrino, que há dez anos chegou à final da Liga Europa, tem uma época desastrosa e acaba despromovido da Premier League. É uma morte que parecia anunciada desde janeiro, mas resta uma pergunta: quem é que matou o Fulham Football Club? Olhemos, então, para os suspeitos.
Os jogadores
Entre jovens talentos, como Ryan Sessegnon, jogadores que deram provas de qualidade no Championship (segunda divisão inglesa), como o capitão, Tom Cairney, e homens já com experiência na Premier League, como André Schürle, o plantel do Fulham parecia equilibrado e consistente. Era necessário resolver a questão defensiva, que muitos problemas dera ao Fulham da época passada, e esperava-se uma grande contribuição ofensiva de Aleksandr Mitrovic.

Fonte: Premier League
Nada disto se concretizou. Os londrinos têm atualmente a pior defesa da liga, com 77 golos sofridos, e os 11 golos de Mitrovic estiveram longe de ser suficientes para manter a equipa acima da linha de água. Ryan Sessegnon, a pérola desta equipa, viu-se obrigado a assumir a posição de lateral esquerdo com apenas 18 anos, quando é óbvio que se sente mais à vontade num papel mais ofensivo. No centro da defesa, erros individuais clamorosos custaram, em mais que uma ocasião, a vitória ou até o empate à equipa.
O(s) treinador(es)
Quatro e 106. São estes os números que retratam a situação deplorável no banco técnico do Fulham. Quatro é o número de meses que Slavisa Jokanovic, responsável pela promoção na época passada, durou no comando do clube londrino nesta campanha. 106 é o número de dias que o seu substituto, Claudio Ranieri, se aguentou no posto.
Jokanovic insistiu em apostar no futebol ofensivo que estivera na origem do sucesso da época passada. E, com os reforços de verão, os adeptos até poderiam pensar que a qualidade da equipa teria aumentado o suficiente para encarar a Premier League com um futebol mais positivo. Este foi o grande erro de Jokanovic. As dificuldades defensivas exacerbaram-se e chegou a registar-se um período de 12 jogos em que a equipa sofreu 30 (!) golos. O Fulham tem, de facto, um registo ofensivo aceitável para uma equipa da metade inferior da tabela (34 golos marcados), mas a inaptidão defensiva foi o seu calcanhar de Aquiles.

Fonte: Fulham FC
Ranieri, obreiro de um milagre na época 2015/2016, em que levou o pequeno Leicester City FC à conquista da Premier League, foi contratado em novembro para substituir Jokanovic, e esperava-se dele um novo conto de fadas. Mas a história que o italiano escreveu no Oeste de Londres equipara-se mais a uma comédia. Os jogadores queixaram-se de Ranieri à direção, afirmando que este organizava jogos de andebol como preparação para os encontros do campeonato, descartando o trabalho tático. O ambiente entre os atletas também se deteriorou, com Aleksandr Mitrovic e Aboubakar Kamara a terem um desentendimento durante uma sessão de yoga, isto depois de já terem discutido a meio de um jogo da Premier League, devido à cobrança de um penálti.
Após o despedimento de Ranieri, em fevereiro, Scott Parker, antigo jogador do Fulham FC, subiu ao banco técnico para tentar dar rumo a uma equipa sem norte. Foi uma tarefa ingrata, que culminou na derrota por 4-1 frente ao Watford FC, no início de abril, confirmando a despromoção dos Cottagers.
A direção
Vamos novamente a números: 112 milhões de euros. De acordo com o TransferMarkt, é esta a quantia gasta pelo Fulham em transferências esta época. Jean-Michel Seri (30 M€), Zambo Anguissa (24,85 M€) e Mitrovic (20,25 M€) eram as bandeiras de uma política de transferências que visava devolver o Fulham aos seus tempos de futebol europeu.
Por trás destes números, está um nome: Shahid Khan. Atual dono do clube, Khan é infame entre os adeptos por muitas das decisões que tem tomado ao leme do Fulham. Nomeou o seu filho, Tony, que não tinha qualquer experiência no futebol, como chefe de recrutamento. Recrutamento esse que Shahid orienta com base sobretudo nas estatísticas, descartando fatores como a língua, a experiência na Premier League e a personalidade do jogador. Assim, explica-se a contratação de Kamara e Mitrovic, dois jogadores infames pelo seu mau temperamento e que, como já referido, entraram em rota de colisão.

Fonte: Fulham FC
Shahid, que também é dono dos Jacksonville Jaguars, equipa de futebol americano nos EUA, chegou a fazer uma oferta para a compra… do estádio de Wembley. A sua ideia era colocar a sua equipa a jogar no estádio que, curiosamente, serviu de casa emprestada ao Tottenham Hotspur durante vários meses. Apesar de não se ter concretizado, foi outro fator desestabilizador para os adeptos, que receavam ter de abandonar o histórico Craven Cottage.
Khan tem dinheiro e tem paixão pelo clube, dois ingredientes que são essenciais para o dono de um clube futebolístico nos dias que correm. Mas falta-lhe algo essencial: conhecimento de causa. Shahid não parece ter uma noção muito grande do desporto rei, apesar de ser fã desde a sua infância e rodeou-se de pessoas que sabem tanto como ele (o seu filho, por exemplo).
Resta saber qual será a sua atitude quanto à época seguinte: teremos uma limpeza de pessoal, uma mudança de perpetiva, ou será que a sua solução passará simplesmente por injetar mais dinheiro no clube?
Veredito

Fonte: Fulham FC
Diz-se que os problemas num clube começam de cima para baixo. Assim, temos de olhar primeiro para Shahid, que muito tem por que responder quanto à catastrófica campanha numa época que se achava promissora. De boas intenções está o Inferno cheio, e Shahid não se pode esconder atrás do amor pelo clube para justificar as decisões tomadas ao longo desta época.
Jokanovic também terá sido arrogante na sua abordagem à Premier League: com raras exceções, como é o caso dos Wolverhampton Wanderers, um clube recém promovido não pode voltar ao escalão principal do futebol inglês e esperar fazer um brilharete naquela que é a melhor liga do mundo. Tome-se o exemplo do Burnley FC: promovida em 2014, esta equipa manteve-se na Premier League através de um futebol pragmático, pouco atrativo e muito criticado, mas que lhe valeu o seu espaço neste campeonato, onde pode, com bases financeiras sólidas, começar a pensar num salto para o patamar seguinte, através de um investimento controlado e sóbrio.
Os jogadores são talentosos, mas faltou-lhes direção. Taticamente, uma lástima, e mentalmente imaturos. Situações como a discussão entre Mitrovic e Kamara a meio de um jogo não podem acontecer num clube profissional. Tom Cairney, capitão de equipa desde os tempos do Championship, não esconde a desilusão com esta época e, ao que tudo indica, irá ficar com o clube neste momento menos bom. Será de esperar que grande parte da esperança que os adeptos têm num regresso à Premier League recaia sobre os seus ombros.
É um clube morto, com vários suspeitos. Os adeptos querem apontar o dedo a toda a gente, e talvez até tenham razões para tal. Mas uma coisa é certa: os Cottagers têm potencial para muito melhor e, se as três vitórias consecutivas que conseguiram após a garantia da despromoção forem um indicador fiável, ainda voltaremos a ver os homens de preto e branco nos grandes palcos de Inglaterra.
Foto de capa: Fulham FC












