Arséne Wenger: o trabalhador menos precário do mundo

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Há um ano, o colega Nuno Couto escrevia, num artigo para o Bola Na Rede:
“O que se constata é que não se verifica uma unanimidade no que toca a um possível abandono de Wenger do comando técnico do Arsenal. Se por um lado, nas bancadas do Emirates, se têm visto vários atos contra o treinador, (…)por outro, nessas mesmas bancadas, são algumas vezes visíveis mensagens de apoio a Wenger(…)”. Agora imaginemos que íamos ter com o Nuno, vindos do distante ano de 2018, e lhe dizíamos que estava tudo igual. Será que ele acreditava? Provavelmente sim, porque, afinal de contas, é o que se tem passado na última década.

É preciso deixar uma coisa clara: o trabalho de Àrsene Wenger a cargo do Arsenal FC, onde chegou em 1996, vindo do Nagoya Grampus, do Japão, merece ser respeitado. Não apenas pela incrível época de 2003/2004, que nos apresentou  uma das melhores equipas de sempre na Premier League (“Os Invencíveis”, como ficaram conhecidos, uma vez que ganharam a competição sem derrotas), mas também por ter pegado num clube que, à sua chegada, era um “gigante adormecido”, e não só o ter devolvido à ribalta do futebol europeu, como também lhe ter dado uma identidade própria e uma segurança financeira como poucos clubes ingleses conhecem.

Uma equipa que dispensa apresentações
Fonte: Premier League

Comecemos por esta “identidade própria”: o Wenger Ball é um termo que há anos é associado ao Arsenal, para descrever a forma como a equipa joga futebol ao primeiro toque. Quando resulta, é um verdadeiro espetáculo e deixa qualquer adepto incrédulo com a rapidez da jogada. Mas esta não foi a única mudança que Wenger trouxe para o clube e para o desporto rei. O treinador francês foi um dos primeiros a impor regimes dietéticos aos seus jogadores e a apostar em técnicas de preparação e recuperação física, coisas que atualmente são indispensáveis a qualquer equipa de topo. É, sem margem para dúvida, um dos profissionais mais influentes ainda em funções no futebol. A juntar a isto, a política de transferências, com base em importações francesas, é hoje indissociável dos Gunners e já lhes deu estrelas como Thierry Henry, Patrick Vieira ou Robert Pirés.

Já nas finanças, a mudança de estádio, de Highbury para o atual Emirates Stadium, com custo superior a 500 milhões de libras (de acordo com o Mirror) em 2006, obrigou o Arsenal a fazer um “malabarismo económico”, no qual Wenger foi crucial: de modo a poder pagar a dívida, não acompanhou a moda das contratações milionárias, apostando em jovens promessas contratadas a baixos preços e depois desenvolvidas, com graus de sucesso variável (por cada Robin Van Persie, os adeptos dos Gunners tinham de suportar dez “Andrés Santos”).

Agora é necessário olhar para a situação atual e perceber a cruzada #WengerOut: desde 2004, nessa fantástica época d’ “Os Invencíveis”, o emblema londrino não voltou a ganhar um título de campeão inglês; em 2006, chegou à final da Liga dos Campeões, onde perdeu contra um FC Barcelona inspirado por Ronaldinho por 2-1; entre 2007 e 2018, conta com seis títulos – Três Taças de Inglaterra e Três Supertaças Inglesas. Isto leva muitos a dizer que o francês tem, talvez, o “trabalho menos precário do mundo”, já que, apesar de o sucesso desportivo não corresponder ao investimento feito nas últimas três/quatro épocas, em estrelas como Özil, Alexis Sànchez ou Antoine Lacazette, nada parece indicar que Wenger possa ser despedido, com Stan Kroenke, presidente do Arsenal, a reforçar repetidamente a sua confiança no treinador. O mais recente exemplo foi no início desta época: “é fácil mudar de treinadores”, afirma; “o mais difícil é replicar o sucesso e continuar competitivo”.

Jogadores do Arsenal após vitória frente ao AC Milan
Fonte: UEFA

Com a dívida do Emirates Stadium paga e um investimento de mais de 118 milhões de euros nesta época (segundo o site TransferMarkt – há que realçar que esta fonte também indica que o clube ganhou mais de 122 milhões de euros em vendas de jogadores), não haverá razão para os adeptos se encontrarem impacientes com um treinador que acaba de falhar a qualificação para a Liga dos Campeões pela primeira vez em 17 anos? Serão os feitos passados suficiente para desculpar uma equipa que, ano após anos, se propõe realizar grandes feitos e se assume como candidata ao título para depois “descarrilar” na fase final da época? Será a vitória no San Siro, na passada quinta feira, em jogo dos oitavos de final da Liga Europa, suficiente para fazer esquecer aquilo que, ao que tudo indica, será mais uma campanha sem ganhar o acesso à Liga dos Campeões, com a equipa em 6º lugar, a 12 pontos do 4º classificado?

Empregar frases feitas empobrece qualquer texto, mas neste caso parece necessário: Arsène Wenger soube quando e como entrar no Arsenal; agora, terá de saber quando sair. Só assim o poderá fazer com dignidade e com o seu legado intacto.

Foto de capa: Arsenal FC

Gonçalo Taborda
Gonçalo Tabordahttp://www.bolanarede.pt
O Gonçalo vem de Sacavém e está a tirar o curso de Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social. Afirma que tem duas paixões na vida: futebol e escrita. Mas só conseguia fazer uma delas como deve ser, por isso decidiu juntar-se ao Bola na Rede.                                                                                                                                                 O O Gonçalo escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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