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O estado de graça de De Bruyne no City: constrói, organiza e define

Diogo Fresco · 4 min

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Cabeçalho Liga Inglesa

Muito peculiar é o caso de Kevin de Bruyne. Foi contratado pelo Chelsea pela sua valia a médio-longo prazo, mas não encheu os olhos ao nosso José Mourinho. Num clima de crispação, acabou por tomar a decisão de abandonar o clube londrino e procurar jogar.

Procurou jogar e agora faz jogar. De Bruyne é, claramente, um dos melhores médios ofensivos da atualidade a jogar e a fazer jogar no líder do melhor campeonato do mundo. Provou que Mourinho estava errado e hoje essa demonstração de capacidades converge diretamente com o português: primeiro, porque são vizinhos; segundo, porque ambos almejam ficar em primeiro lugar na classificação. A isto acresce o Mourinho vs Guardiola. Coisas de novela, mas coisas como esta cobrem todo o acontecimento relacionado, neste caso específico, com a Premier League.

Como mero espetador de futebol, De Bruyne desempenha um papel escrito e encenado por Pep Guardiola. O seu perfil faz-me lembrar o de Frank Lampard. Defende, controla, aparece facilmente em zonas de finalização e tem uma excelente e potente longa distância. Fugindo a quaisquer comparações, reitero que a sua envolvência no jogo é bastante semelhante à do antigo capitão do Chelsea.

Uma das suas variadas virtudes é a inteligência. Sabe ler, processar e contemporizar cada lance, cada jogada. É claramente um jogador de classe mundial, mas que ainda tem algo a provar. Títulos. Um jogador atinge uma marca de renome quando se começa a encher de títulos, ou será que não? Primeiro, responderia que não necessariamente. Ocorreu-me o nome de Steven Gerrard, mas logo depois lembrei-me de que ergueu uma Liga dos Campeões e umas quantas Taças. Depois, lembro-me de Ronaldo Nazário, Ibra, Totti, que nunca venceram essa competição, mas as conquistas domésticas ou correspondentes a provas de índole internacional (Seleções), acabam por complementar o jogador. Ou seja, depois de me debruçar sobre a importância dos títulos, percebi que realmente são indispensáveis para que um jogador atinja a marca de elite. Um jogador que seja protagonista num campeão é automaticamente reconhecido, e ganha aquela reputação ímpar.

Este City parece estar disposto a arrecadar tudo o que estiver em disputa. De Bruyne tem um peso tão grande no futebol dos citizens que nem ele o sente. Está numa completa zona de conforto. Zona essa que requer nunca se sentir confortável! Parece contraditório, mas num meio campo, em qualquer jogo da Liga Inglesa, a atenção tem de ser constante. Para um centro campista, a missão é ser mais um na retaguarda quando necessário ou conveniente; assumir um papel de construção; e liderar uma saída rápida na transição ofensiva. De Bruyne é isto tudo no City, e ainda deixa o seu nome na lista dos marcadores. Neste momento, em que muito provavelmente a sua progressão como futebolista já não terá muito mais continuidade, será a aprimoração das suas qualidades a fazê-lo melhor jogador. Como dizem os entendidos, o difícil não é chegar ao topo, mas manter-se por lá…

O seu selecionador Roberto Martinez vincou bem recentemente bem o final do último parágrafo. Pegando no facto do seu jogador estar a ter um início de época deslumbrante, diz que poderá chegar ao mais alto nível se se mantiver bastante ativo nos jogos que realiza, que se torne uma chave, uma referência na equipa, chegando ao ponto de a liderar. Em artigos que tive a oportunidade de ler, de forma a conhecer um pouco a personalidade de Kevin de Bruyne, saltou-me à vista algo interessante.

Então não é que, além da serenidade que lhe é reconhecida enquanto cidadão, a sua dedicação ao futebol é algo transcendente. Uma das histórias que li sobre este jogador, foi que o seu compromisso para com as coisas é pré estabelecido: enquanto criança, prometeu à sua mãe que estudaria para que mais tarde se pudesse dedicar somente ao futebol.

De Bruyne, com 17 anos, já dava mostras de liderança e inconformismo. Características que hoje o acompanham na forma como joga Fonte: Hln.be
De Bruyne, com 17 anos, já dava mostras de liderança e inconformismo. Características que hoje o acompanham na forma como joga
Fonte: Hln.be

Então, bom aluno, aplicado e com um nível de organização, aparentemente, invejável, o belga cumpriu e hoje é jogador de futebol profissional. Como jogador, sente que os outros também deveriam ser como ele: no clube onde começou a sua aventura como sénior, no Genk, chemou Elyaniv Barda (um veterano) à atenção por achar que não estava a correr o suficiente nos treinos! Isto espelha tremendamente bem a sua forma de ser, a forma de como quer que as coisas sejam feitas. Parte da sua personalidade com certeza lhe acrescenta qualidades como jogador profissional de futebol.

Como médio ofensivo é impossível não lhe atribuir a condição de main man. É por ele que tudo passa, é o intermediário entre defesa e ataque. Guardiola, sem ter essa intenção, tem De Bruyne como elemento de decisão naquela equipa. Uma equipa que, de forma alguma, quer jogar sem bola (filosofia de Guardiola) não a pode perder, não é verdade? Portanto, é o camisola 17 dos citizens que está no comando da decisão, de organizar o jogo consoante as suas medidas, de fazer a bola chegar aos jogadores e zonas do terreno mais apropriadas, consoante as ideias da equipa para a partida em questão. Afinal, três golos e nove assistências até ao momento teriam de ser explicadas de alguma forma…

De Bruyne é um jogador excecional. É “raçudo”, mas ao mesmo tempo é um jogador com toque de classe, que encontra linhas de passe como quem encontra talheres numa cozinha. Faz passes a rasgar como poucos nesta indústria. E o mais importante de tudo, é o seu espírito de incutir aos outros, não direi disciplina, mas pelo menos um maior rigor, seja ele técnico ou tático, como se fosse um professor. Este conjunto de virtudes, qualidades, talentos, dizem-me que depois de se retirar, Kevin de Bruyne será um treinador de referência mundial, caso assim o queira.

Foto de Capa: Manchester City FC

Diogo Fresco

Redação Bola na Rede · ver artigos