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O Leicester é campeão. Da utopia à epopeia: os números por trás da surpresa

Paulo Sousa · 7 min

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Cabeçalho Futebol Internacional

Leicester City é campeão da Premier League 2015/16 e… deixou o mundo todo de boca aberta!

É unânime afirmar que no início do campeonato seria praticamente impossível imaginar que o Leicester pudesse vencer o campeonato Inglês frente a tantos gigantes. Com o decorrer da competição houve quem equacionasse esta possibilidade e na reta final já poucas dúvidas restavam que este feito se tornaria uma realidade. Esta é uma epopeia à imagem do “David e Golias”.

Algumas pessoas vêm referindo que esta vitória do Leicester mais do que uma transcendência coletiva ou superação competitiva, significa uma evidente perda de qualidade do campeonato inglês. Um decréscimo no grau de competitividade. Inclusive, que os Foxes jogam um ‘futebol menos bonito’ ou que só apostam num futebol “box-to-box” por bolas diretas. Se ainda juntarmos o fato da equipa ser treinada pelo ‘mal-amado’ ou ‘falhado’ Claudio Ranieri – sobretudo após o fracasso na Grécia, tudo favorece os tradicionais defensores da ‘sorte dos pequenos’ ou do ‘demérito dos grandes’.

Eu penso de forma, claramente, diferente. Eu acredito que este feito, juntando também, o excelente desempenho do Tottenham, West Ham e Southampton estamos assistindo às mudanças evolutivas daquilo que é o Futebol de alto-rendimento. Esta é a particularidade do campeonato Inglês: competitividade nivelada por cima; futebol intenso; desgaste imenso; espectáculo garantido e resultado incerto. O campeonato Alemão, Francês e Espanhol também o poderiam ser se não existisse tanta diferença entre Bayern, Barcelona, Real, PSG e os outros.

Creio que está custando a muita boa gente perceber que o Futebol está diferente e o crescimento de algumas potências não significa necessariamente que outras estejam enfraquecidas: a Islândia, a Austria, a Albânia, a Bélgica, a Colômbia, o Chile, o Equador e a Argélia vem mostrando isso nos palcos da FIFA, onde os orçamentos não exercem tanta diferença assim.

Vou mais longe. Alguém recorda o Boavista de 2000/01 (única vez campeão Nacional); a Roma de 2000/01 (venceu o último e apenas a 3ª Série A da sua história); o Deportivo de 1999/00 (vencedor da La Liga pela única vez); o Montpellier de 2011/12 (a única vez campeão Francês); o Wolfsburgo de 2008/09 (campeão pela 1ª e única vez); o Rubin Kazan de 2008 e 2009 (as únicas duas vezes campeão na Rússia); o AZ Alkmar e FC Twente em 2008/09 e 2009/10 (campeões incomuns)?!

Todos eles se intrometeram pela disputa do campeonato, contrariando as expectativas e ergueram o troféu de campeões nacionais. Todos, sem os recursos financeiros dos ditos ‘grandes’. São os chamados inusitados ou “insólitos da bola”! Acontecem, porque a bola é redonda e porque o futebol é mais do que um mercado da moeda. Se o analisarmos de uma forma relativa, naturalmente! Mais à frente no artigo vão perceber por que refiro: ‘se analisarmos de forma relativa’.

Fonte: Daily Mail
Fonte: Daily Mail

Porém, entre estas equipas e o Leicester, há uma verdade que se esconde por trás da surpresa: são os números. Não só os da tabela classificativa, mas também os da “motivação”!

Vamos a eles!

O Leicester, ainda com duas jornadas por acontecer, é campeão Inglês com o maior número de vitórias no campeonato, com o 3º melhor ataque e a 3ª melhor defesa. Nada de anormal para quem costuma ser campeão. O mais incontestável são apenas as TRÊS derrotas em 36 partidas jogadas. Estamos a falar de apenas 8% de derrotas. Com os 7 primeiros classificados perdeu apenas para o Arsenal, duas vezes! Duas vezes em 14 jogos frente a essas equipas. Em qualquer campeonato do Mundo este número aproxima muitas equipas da oportunidade de serem campeãs. Aliás, para termos noção da importância deste percentual de derrotas (tirando as também 3 derrotas do campeão Chelsea da época passada) precisamos de regressar às épocas 2004/05 e 2003/04, com Chelsea campeão com UMA derrota e o Arsenal campeão com a emblemática marca de ZERO derrotas, respectivamente. Poderia me alongar nestas linhas procurando por todos os porquês e as evidências deste feito do Leicester, mas, a surpresa não está só nestes números. Está sim, no fato de terem sido campeões contra todas as possibilidades. Eu diria, quase todas!

O propósito do meu artigo surgiu porque, entre legítimas euforias e destaques da imprensa Mundial, que o campeonato Inglês e este Leicester City estão sendo comparados depreciativamente com outros campeonatos e outras equipas de fora da Inglaterra. Legítimo! O nível de futebol é e deve ser passível de comparações além fronteiras. Só que deve também ser equacionado num patamar de igualdades e contextualizado com as realidades. É isso precisamente que começou a acontecer em Inglaterra a partir desta época. Explicando…

Se alguém esteve desatento, esta utopia que se transformou em epopeia aconteceu coincidentemente com as mudanças revolucionárias da descentralização dos direitos de imagem, publicidade e transmissão dos jogos televisivos. Ou seja, a repartição equitativa dos muitos milhões de libras pagas aos clubes da Premier League. Na altura, esta medida gerou muita contestação por parte dos “grandes” Ingleses. Agora percebemos  que foi não só porque estes deixariam de receber muito dinheiro, mas que isto iria fazer as equipas inglesas se equivalerem no que respeita ao poder aquisitivo de jogadores de qualidade e num dos grandes atrativos de qualquer jogador de futebol – o salário.

Sem dúvida que podemos comparar e insinuar que o Leicester é inferior ao Tottenham, Arsenal, City, United, West Ham, Liverpool, Chelsea e muitos outros. Só que este ano foi melhor!  Que é inferior ao Athletic, Villarreal, Celta ou Sevilha de Espanha. Ou Nápoles, Roma e Inter de Itália. Ou Lyon, Monaco, Ajax, Shakhtar, entre outros. É fácil dizer isso, a história prova-o! Só que há uma coisa em que eles são iguais ou até mesmo bem superiores, chama-se: budget ou orçamento (em português).

O budget do Leicester vem explicar porque devemos relativizar e contextualizar a nossa opinião quando afirmamos que esta é uma ‘equipa pequena’ quando comparada a outras da Europa. Até pode ser, mas que não paga pouco, isso não. O Leicester, não tendo dos maiores orçamentos em Inglaterra, tem sem dúvida uma situação invejável para qualquer outra equipa considerada da classe média-alta do futebol Mundial. Tem um orçamento extraordinariamente grande quando comparado com equipas consideradas top em outros campeonatos.

Para um melhor entendimento, o  Leicester este ano herdou dos direitos televisivos cerca de 72 milhões de libras (num só ano), ou seja, 91 milhões de euros! Ao Benfica, por exemplo, a NOS iria pagar (iria, porque ao que parece o contrato vai ser chumbado) 40 milhões de euros por época para transmitir os seus jogos. Recorde-se que o Benfica joga Liga dos Campeões e luta para ser campeão todos os anos. A grandeza coloca-o bem longe da realidade das equipas medianas Inglesas. Os direitos do Leicester estão equiparados aos valores oferecidos ao Atlético de Madrid (conseguiu a 3ª final europeia em 5 anos) e Valência, por exemplo, que andam à volta dos 100 milhões de euros por época. Num futuro próximo, planteis do Leicester, Sunderland, Southampton e demais clubes médios ingleses terão de ser comparados com clubes do alto gabarito Espanhol, Italiano e Alemão. E refira-se que esta é só uma parte da receita financeira do Leicester!

Jamie Vardy ganha 101 mil euros por semana Fonte: Leicester City FC
Jamie Vardy ganha 101 mil euros por semana
Fonte: Leicester City FC

A nível de contratações o Leicester gastou este ano cerca de 51 milhões de euros na compra de jogadores e aumentou consideravelmente a sua folha de salários. Atualmente paga por época, a toda a comitiva do futebol profissional do clube, mais de 60 milhões de euros em ordenados, num ano. Para se ter uma pequena ideia de quanto ganham as estrelas da equipa, enuncio alguns exemplos: Jamie Vardy ganha 101 mil euros… por semana! O que faz mais de 400 mil euros/mês, só em salário – fora prémios; Riyad Mahrez ganha 70 mil euros por semana, ou 280 mil euros/mês; Shinji Okazaki 75 mil por semana e 300 mil/mês; Schlupp e Ulloa recebem 400 mil euros/mês e 200 mil euros/mês, respectivamente. São 4.580.000 euros todos os meses pagos só para os jogadores do plantel! Um excelente diferencial para se começar a entender quando se fala em comparações. A exigência será cada vez mais elevada, por isso as epopeias se poderão repetir!

Os Foxes nem precisam de se entusiasmar com os 14 milhões ganhos com a entrada direta na Liga dos Campeões. São trocos! Na época 2016/17, o valor dos direitos televisivos mudará ainda para melhor em Inglaterra. O 1º classificado, neste caso o Leicester, receberá uns incríveis 205 milhões de euros e o último 137 milhões de euros. Com estes valores a Inglaterra se posicionará no mercado, conseguirão os melhores jogadores do Mundo, virão profissionais mais competentes de todas as áreas, haverá cada vez melhores condições de treino, infra-estruturas de top nas academias de formação, incentivos à prática do futebol e claro, mais resultados surpreendentes! Será justo, a longo prazo, equiparar as equipas inglesas com outras da classe média ou média-alta do futebol Mundial?

Por último, adivinhar que o Leicester seria campeão Inglês era uma possibilidade muito remota, mas ainda assim uma possibilidade. Por crença, dedicação, sorte, competência, motivação, superação, ingenuidade e facilitismo adversário e orçamento elevado são tudo fatores que tornaram esta conquista meritória. O curioso deste feito é perceber que o fosso, entre clubes, é cada vez menor quando a diferença e a desigualdade financeira se anula por igualdade de direitos e distribuição de rendas. Mais qualidade, mais intensidade, mais competitividade se agregam à imagem do campeonato Inglês.

A certeza que fica é que emergirão  mais “Leicesters” em Inglaterra… sejam bem vindos!

Foto de Capa: Facebook da Premier League

Paulo Sousa

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