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Um leão, um pistoleiro e um problema financeiro entram num bar…

Gonçalo Taborda · 5 min

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O título deste texto parece o início de uma daquelas anedotas que vinham nos livros das “365 piadas”. Mas a história do Associazione Calcio Milan nos últimos anos tem-se assemelhado mais a uma tragédia do que outra coisa.

Por agora, voltemos à anedota, até como forma de celebrar o fim da silly season,  de que tanto gostamos. Quem são estes três fulanos que entraram no bar (chamemos ao estabelecimento AC Milan)?

O Leão

Fonte: AC Milan / Bola na Rede

De primeiro nome Rafael, é um miúdo jovem (20 anos). Veio ter com o seu amigo e compatriota, André (segundo nome Silva). Esse tal André até era bastante popular quando entrou lá no bar. O início da sua vida no AC Milan foi positivo, e deixou muita gente ansiosa pelo que estaria para vir. Mas agora está sentado num canto, sem falar com ninguém. Esteve em Espanha por um ano, para ver se mudava a sua fortuna, mas de pouco lhe valeu. É como um jogador de futebol, quando chega a um novo clube e marca uns bons golos nos primeiros jogos, mas depois parece perder o entusiasmo, levando a uma quebra de rendimento.

Enfim, deixemo-nos de comparações. Voltemos à história do bar, e à história do Leão. Rafael começou por frequentar os bares de Alvalade (foi lá que nasceu para este mundo, aliás). Depois de um episódio digno daquelas rixas de bar dos westerns antigos, decidiu nunca mais voltar lá, e mudou-se para França, onde até recolheu vários elogios, de habituais frequentadores daquele estabelecimento (o Ligue 1¸ penso que assim se chamava). A palavra foi-se espalhando pelos bares da Europa inteira, mas foi este que mais o atraiu. Então, aqui está Rafael, com o seu fato vermelho e negro, pronto para causar uma boa impressão, mesmo que isso implique empurrar André Silva ainda mais para o canto. Quando entra, Rafael percebe que existe um senhor que já atrai, sozinho, todas as atenções: o pistoleiro.

O Pistoleiro

Fonte: AC Milan / Bola na Rede

Veio da Polónia. A alcunha que lhe deram deriva do gesto que faz com as mãos. É comparável à celebração de um futebolista sempre que marca golo (lá estou eu com as comparações futebolísticas outra vez). O seu nome verdadeiro é Krzysztof Piatek, e, surpreendentemente, só está em Itália há um ano. O AC Milan nem foi, aliás, o primeiro bar a que se dirigiu. Começou por frequentar um chamado Genoa, onde a lenda do Pistoleiro começou a ficar cimentada. Das 21 visitas que fez, disparou de forma certeira 19 vezes. O AC Milan ouviu falar deste Piatek, e conseguiu trazê-lo para o seu estabelecimento. Lá, continuou o seu sucesso, com mais 11 tiros certeiros noutras 21 visitas.

Agora, depois de tirar umas férias, todos esperam que volte com a pontaria afinada (em maio do ano passado a sua eficácia parecia ter baixado, e chegou a visitar o bar seis vezes sem um único tiro certeiro). A concorrência do miúdo que acaba de entrar certamente irá servir para o picar.

Noutro canto do bar (um diferente daquele onde está o André), o Pistoleiro olha para o homem mais temido de Itália: o problema financeiro.

O Problema Financeiro

Fonte: AC Milan / Bola na Rede

Está ali sentado, sozinho, de fato preto. Não fala com ninguém (ninguém sabe sequer se ele fala). Pouco se conhece dele. Sabe-se apenas que já está no AC Milan há algum tempo, e tem bastante poder. As gerências passaram, mas ele ficou. Os gastos desmesurados do bar nos últimos tempos só o parecem ter beneficiado a ele e, para a época que se avizinha, proibiu o AC Milan de entrar no roteiro europeu de bares, para o qual o estabelecimento se qualificava. Para exemplificar, imaginemos um clube que fica fora da Liga Europa por falta de fair play financeiro, depois de gastar milhões de euros em jogadores que pouco ou  nada renderam. Mas lá estou eu outra vez com as analogias da bola. Peço desculpa.

Talvez ele seja um mal que vem por bem. Talvez, não tendo de se focar no panorama europeu, a gerência pode focar-se em devolver este estabelecimento à ribalta de tempos passados. Afinal, entre a década de 90 e a primeira década do século XXI, o AC Milan era dos bares mais prestigiados de Itália e do mundo. Agora, fora do roteiro europeu, a atenção fica virada para o contexto doméstico, dando ao AC Milan mais tempo para tratar dos seus problemas internos. E há muitos: já em maio do ano passado, Gennaro Gattusso foi despedido. Ele até fora um frequentador popular deste bar nos seus tempos áureos, e recentemente passara a manager (está para o bar como o treinador para uma equipa de futebol). Os resultados, como os de tantos outros que já passaram antes dele (seis nos últimos quatro anos), não agradaram aos donos do estabelecimento, e teve de ser corrido.

Agora, vindo de outro bar em Itália, chega Marco Giampaolo, que, dizem os entendidos no assunto, é um génio tático. Se o é mesmo, só o tempo dirá, porque a história ainda não no-lo disse. No Sampdoria, seu antigo local de trabalho, teve um desempenho aceitável, e tornou aquele bar no nono melhor de Itália. Agora, chega a Milão, e a um contexto profissional completamente diferente, muito mais instável. Assim, nenhuma garantia nos dá do seu possível sucesso. Essa incerteza, aliás, tem sido apanágio de muitos dos managers que a gerência decidiu trazer para o AC Milan. Às vezes pensamos: porque não trazer alguém que já tenha dado provas inequívocas? Aquele português, o José Mourinho, já esteve em bares pela Europa toda e sempre se saiu bem (salvo alguns decasatos pessoais). Porque não trazê-lo? Será que a ideia que o AC Milan passa para o exterior hoje em dia é a de uma espelunca, sem esperança de renovação?

Tendo já aberto as portas após a pausa para férias, pode-se dizer que o AC Milan entrou com o pé esquerdo neste defeso. Um pouco como aquele clube que joga no San Siro (não me lembro do nome), o que acabou de perder 1-0 perante a Udinese Calcio, numa exibição paupérrima. Será mais que o penoso período que o estabelecimento tem vivido irá continuar?

Isso não sabemos, mas sabemos isto: o AC Milan não merece o mesmo destino que aqueles bares do Bairro Alto que temos visto fechar nos últimos anos. É um estabelecimento catedrático da Europa, frequentado por ilustres figuras do passado e do presente, que merece ser respeitado pela gerência, preservado pelos frequentadores e reconstruído pelos jovens. O Leão, o Pistoleiro e o problema financeiro entraram no bar, mas esperemos que, quando saírem de lá, as luzes do letreiro vermelho e negro ainda estejam ligadas. A cidade de Milão merece, e a Europa agradece.

Foto de Capa: Bola na Rede

artigo revisto por: Ana Ferreira

Gonçalo Taborda

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