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Ralf Rangnick | Quem é o professor do futebol alemão?

Vasco Borges · 7 min

Ralf Rangnick
Foto: RB Leipzig

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Desde que Ole Gunnar Solskjaer tomou as rédeas do Manchester United FC, em novembro de 2018, raramente conseguiu ser consensual. Em quase três anos, não venceu nenhum título e a sua equipa pareceu sempre uns furos abaixo ora de Manchester City FC, ora de Liverpool FC.

Esta temporada as coisas não têm sido diferentes e nem o regresso de Cristiano Ronaldo parece ter revigorado o clube. Nas últimas semanas acumulam-se as notícias sobre a saída do treinador norueguês e vai aumentado a lista de candidatos ao seu lugar.

Um dos nomes mais recentes a surgir é o de Ralf Rangnick. Mas afinal quem é este alemão, que fica longe do mediatismo de outros candidatos – Conte, Zidane, Luís Enrique e, mais recentemente, Brendan Rodgers – ao banco de Old Trafford?

O INÍCIO PRECOCE

Ralf Rangnick nasceu há 63 anos e começou a treinar há 38. Quer isto dizer que se estreou nos bancos com apenas 28 anos, em 1983. O clube não podia ser mais modesto: o FK Viktoria Backnang.

Durante quase 20 anos andou pelos escalões regionais do futebol alemão, com uma passagem de quatro anos como coordenador de formação do VfB Estugarda pelo meio. Foi aí que deu os primeiros passos rumo a uma filosofia que viria a ter sucesso anos mais tarde.

Na viragem do século, depois de levar o SSV Ulm 1846 da Liga Regional à Primeira Liga, regressou a Estugarda como técnico principal. Passou depois pelo Hannover 96 e integrou a equipa técnica do FCG Schalke 04. Ainda que sem grande protagonismo, foi deixando um selo de competência por onde passava.

Pelo meio, ficou popular em 1998 quando apareceu na televisão alemã a explicar a sua filosofia (já lá vamos). Na altura, acabou por dar mais nas vistas pela forma como estava vestido e foi apelidado, com muita ironia à mistura, como “professor do futebol”.

HOMEM DE CONFIANÇA DOS MULTIMILIONÁRIOS

Em 2006 o alemão deixa Gelsenkirchen, e o trabalho numa equipa de primeira divisão, para regressar aos escalões regionais e assumir o, então desconhecido, TSG Hoffenheim 1899.

O clube, sediado na pequena cidade de Sinsheim, seria em tudo similar aos primeiros emblemas que Ralf Rangnick treinou, não fosse o facto de ter sido adquirido por um dos homens mais ricos da Alemanha. Dietmar Hopp começou a injetar dinheiro em 2005 e queria chegar rapidamente ao escalão principal.

Assim foi. Com um investimento gradual no plantel e com o trabalho de Ralf Rangnick, o Hoffenheim garantiu duas subidas consecutivas e em 2008/2009 estreou-se na Liga Alemã. Até houve direito a um estádio novo, com capacidade para albergar quase toda a população de Sinsheim – o estádio tem lotação para quase 30 mil pessoas e na cidade vivem cerca de 35 mil.

O cunho do técnico alemão ficou bem patente no projeto, dentro e fora de campo. Em 2010 regressou ao staff do Schalke, mas dois anos depois voltou a sair para orientar outro projeto ambicioso.

 

Desta vez era a multinacional Red Bull que decidiu criar uma filial em Leipzig, uma grande cidade que não tinha um clube à altura. Foi diretor desportivo, coordenador técnico e treinador, acompanhando o clube das regionais à Liga dos Campeões em apenas cinco anos.

Em 2019 saiu de Leipzig, mas continou na esfera da Red Bull, passando pelos NY Red Bulls e RB Bragantino. Este ano terminou a ligação de quase dez anos e trabalha com os russos do FK Lokomotiv Moskva.

Rangnick foi sempre competente enquanto treinador, mas é nos bastidores que mais brilha. A sua filosofia está bem patente nos projetos de sucesso de Hoffenheim e, sobretudo, RB Leipzig e há outros clubes e treinadores a seguir os mesmos passos. Julian Nagelsmann, que treinou Hoffenheim e Leipzig, Klopp, Tuchel, Flick ou Roger Schmidt são alguns dos exemplos.

OS “TRÊS C’S” E O GEGENPRESSING

Mas afinal, o que há de tão especial na filosofia de Rangnick? Alicerçado na implementação de um ADN forte e em equipas de trabalho supercompetentes, Rangnick define três “C’s” cruciais para o desenvolvimento de um clube: conceito; competência e capital.

O conceito tem a ver, precisamente, com o ADN. O estilo de futebol do clube deve ser atrativo e bem vincado, para que “mesmo num dia mau, seja possível identificar a forma como a equipa joga”. Esse ADN estende-se depois aos jogadores, ao staff, aos adeptos e a tudo que rodeia o clube.

Um dos pilares desse estilo de jogo é a teoria do “Gegenpressing”, seguida no RB Leipzig e por … Jurgen Klopp. Ragnick define-a como “muito simples” e tem como pontos-chave a pressão alta e intensa e, nos momentos de posse, tentar a progressão rápida e constante no terreno, sem passes para trás ou para o lado.

Ao contrário do estilo popularizado por Guardiola, o “Gegenpressing” retira ao guarda-redes a responsabilidade de jogar com os pés, a não ser que estritamente necessário. Um estilo que pretende ser, ao mesmo tempo, altamente eficaz e atrativo.

 

O segundo ponto, a competência é tão simples quanto parece, mas difícil de atingir. Para cada cargo no clube, contratar a melhor pessoa possível, dar-lhe formação e desafios constantes e recompensá-la pelo bom trabalho.

Os treinadores e scouts devem ser não só especialistas na sua área, mas também em tudo o que influencia a equipa, incluindo a arte de realmente perceber os jogadores e as suas necessidades.

Por fim, e sem grandes romantismos, defende que um clube precisa de sustentabilidade financeira para se desenvolver. É preciso planear a equipa, as infraestruturas, a rede de scouting, a formação e muitas outras coisas que necessitam de investimento.

Acima de tudo, o alemão é um especialista em futebol moderno e é conhecido por estar sempre à procura de novas ideias e, assim, sempre um passo à frente do seu tempo.

SERIA O HOMEM CERTO PARA O MANCHESTER UNITED FC?

Apesar de colaborar com o Lokomotiv, Ralf Rangnick não está preso por nenhum vínculo e, a julgar pelo que é veiculado na imprensa internacional, está à espera do próximo desafio. No ano passado esteve em contacto com o AC Milan, mas as negociações caíram quando a equipa de Stefano Pioli enveredou numa série de 12 jogos sem perder.

Não tenho dúvidas que a competência de Ralf Rangnick podia trazer muito ao Manchester United, fosse como treinador ou como coordenador ou diretor desportivo.

No entanto, há uma coisa muito importante a reter: por muito desenvolvido que esteja o modelo de Rangnick, é preciso tempo. Um projeto tão ambicioso não se desenvolve num dia e pode não trazer os resultados imediatos que os adeptos do United procuram. Subir um clube com bom investimento pela pirâmide alemã, ainda que notável, não é o mesmo que vencer o campeonato inglês e a Liga dos Campeões.

Para clube tão histórico – e num jejum tão grande – como o United, habilita-se a ser enxovalhado ao mínimo percalço.

Assim, a questão resume-se à discussão entre o “seria bom para o clube?” e o “seria executável?”.

A resposta à primeira pergunta é, obviamente sim. Rangnick é supercompetente e a médio/longo prazo traria frutos aos “red devils”. As vitórias não poderiam não surgir imediatamente, mas chegariam assim que o ADN ficasse imprimido no clube. Um pouco à imagem do que aconteceu com Alex Ferguson.

Infelizmente, a resposta à segunda é: provavelmente não. As notícias mais recentes indiciam que os donos do Manchester United preferem tomar um rumo diferente. Provavelmente, porque não querem esperar que todo um novo modelo seja implementado ao curso de vários anos.

Certo é que, mais cedo ou mais tarde, o alemão vai encontrar o seu próximo projeto. Quem levar Ralf Rangnick para o seu clube arrisca-se a ter sucesso e quem não o quiser, arrisca-se a ser vítima desse sucesso.

Ralf Rangnick

Vasco Borges

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