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Harry Kane deixou o trabalho falar até o sucesso fazer barulho

Tiago Campos · 7 min

Ballon d'Or Harry Kane 2026
Foto: Ballon d'Or

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Foi dispensado por ser “gordinho”, percorreu as divisões inferiores por empréstimo e passou grande parte da carreira a ser alvo de chacota e a ouvir que lhe faltavam títulos. Aos 33 anos, Harry Kane chegou ao topo do futebol mundial. A Bola de Ouro não podia assentar melhor nas mãos de um gentleman.

“Work hard in silence. Let success be your noise.” Poucas horas depois de conquistar a Bola de Ouro, Harry Kane escolheu esta frase para assinalar o momento nas redes sociais. 

Trabalha em silêncio. Deixa o sucesso fazer barulho. É difícil encontrar uma frase que resuma melhor a carreira daquele que é, oficialmente, o melhor jogador do Mundo.

Harry Kane nunca foi o predestinado. Nunca foi o miúdo que todos apontavam como a próxima grande estrela do futebol inglês. Não teve uma ascensão meteórica, não chegou à Premier League rodeado de capas de jornais e nunca precisou de construir uma personagem à volta do seu talento. Teve de conquistar tudo.

Quando era criança, o Arsenal dispensou-o da sua formação. Anos mais tarde, Liam Brady, então responsável pela academia dos gunners, reconheceria o erro: Kane era considerado “um pouco gordinho” e pouco atlético. O futuro melhor jogador do Mundo não servia. Seguiu em frente.

Chegou ao Tottenham, mas nem aí encontrou uma autoestrada até à equipa principal. Leyton Orient, Millwall, Norwich City e Leicester City. Empréstimo atrás de empréstimo. Campos longe do glamour da Premier League, numa altura em que outros jovens da sua geração já eram apresentados como futuras estrelas.

Kane esperou. Trabalhou. Aprendeu. Até que a oportunidade chegou. E nunca mais saiu.

Tornou-se no melhor marcador da história do Tottenham, conquistou três Botas de Ouro da Premier League e transformou-se num dos melhores avançados da sua geração. Mais do que isso: tornou-se num jogador total.

Porque reduzir Harry Kane aos golos é não perceber Harry Kane. Kane marca de todas as formas, dentro e fora da área, de pé direito, esquerdo ou de cabeça. Mas também baixa para construir, recebe entre linhas, segura a bola, percebe o movimento dos colegas e tem uma capacidade de passe que muitos médios gostariam de possuir.

Joga e faz jogar. É um nove, um dez e, por momentos, quase os dois ao mesmo tempo. Ainda assim, durante demasiado tempo, havia sempre uma frase pronta para diminuir tudo aquilo que fazia.

“Mas nunca ganhou nada”. Harry Kane tornou-se um dos melhores avançados do Mundo e continuava a ser gozado pela ausência de troféus. Como se um jogador pudesse ser responsabilizado sozinho pelo insucesso coletivo de um clube ou de uma seleção. Como se centenas de golos, recordes e exibições extraordinárias desaparecessem perante uma fotografia de uma sala de troféus vazia.

Em 2023 e já com 30 anos, tomou provavelmente a decisão mais difícil da carreira. Deixou o Tottenham, o clube onde crescera, onde se tornara uma lenda e cujo recorde de golos lhe pertencia, para atravessar a Europa e representar o Bayern Munique.

Saiu de casa para tentar conquistar aquilo que ainda lhe faltava. E o futebol, no primeiro ano, voltou a pregar-lhe uma partida. Kane marcou 44 golos em 45 jogos pelo Bayern em 2023/24. Fez 36 na Bundesliga. Teve uma época individual extraordinária e, mesmo assim, terminou sem títulos. Do outro lado apareceu um Bayer Leverkusen histórico, invicto no campeonato, que interrompeu o domínio bávaro.

Era quase cruel. O homem perseguido durante anos pela ausência de títulos tinha acabado de assinar uma das melhores épocas de estreia da história do futebol alemão e, novamente, terminava de mãos vazias.

Podia ter falado. Podia ter respondido. Preferiu continuar a trabalhar. E acabou por chegar o momento em que já ninguém conseguia ignorar o barulho dos números. 73 golos (!) em 65 jogos. Setenta e três. Numa só temporada, entre Bayern Munique e Inglaterra, só superado por um tal de Lionel Messi na época 2011/2012.

Um registo absurdo num futebol em que Kane já não se limita sequer a viver dentro da área. Participa no jogo, cria, assiste, baixa metros, liga setores e continua, no final de tudo isso, a aparecer onde um avançado deve aparecer. Na baliza.

Não ganhou o Mundial. Não ganhou a Liga dos Campeões. E não precisava. A Bola de Ouro distingue o melhor futebolista de uma temporada. Teve uma campanha sublime na Alemanha (com um hat-trick de sonho na final da Taça da Alemanha), teve uma campanha sensacional na Champions League (tendo sido apenas travado pelo PSG numa das melhores eliminatórias da história da competição), e foi determinante para que a Inglaterra chegasse às meias-finais do Mundial.

Os títulos coletivos devem pesar, naturalmente, mas nunca podem transformar-se numa condição obrigatória para reconhecer a excelência individual. Caso contrário, deixamos de escolher o melhor jogador e passamos simplesmente a procurar o melhor jogador da equipa que ganhou a competição mais importante. Harry Kane fez uma temporada assombrosa. E mereceu esta Bola de Ouro.

Digo-o sendo Lamine Yamal (historicamente eleito pelo terceiro ano consecutivo o melhor jovem do mundo e no pódio da Bola de Ouro por dois anos consecutivos com apenas 19 anos), provavelmente, o futebolista que mais prazer me dá ver jogar atualmente. O espanhol possui algo raro, quase impossível de ensinar. O prodígio espanhol já fez coisas que a esmagadora maioria dos jogadores nunca conseguirá fazer durante uma carreira inteira. Mas talvez precisamente por isso ainda tenha muito para aprender.

Lamine não precisa de perseguir a Bola de Ouro. Se continuar a jogar aquilo que joga, provavelmente será a Bola de Ouro a persegui-lo. A pressão para ganhar o prémio, o entorno tóxico à sua volta e alguma ansiedade demonstrada nos grandes momentos desta temporada não parecem ajudá-lo. Contra PSG e Real Madrid vimos um Lamine demasiado preocupado em resolver sozinho, longe da versão mais natural, irreverente, colectiva e genial que o tornou especial.

Pesou igualmente contra ele o facto da Espanha ter sido campeã mundial apesar de Lamine e não por causa de Lamine, que chegou ao maior certame da temporada fisicamente limitado, e não tendo a preponderância que sempre teve na sua selecção. 

O mesmo vale para Kylian Mbappé. Falar sobre merecimento individual faz parte do futebol moderno e da máquina mediática que envolve este prémio, mas existe uma diferença entre apresentar argumentos e deixar que os argumentos sejam apresentados dentro das quatro linhas.

Kane escolheu sobretudo a segunda opção. Não fez campanha. Marcou 73 golos. No final, talvez esta Bola de Ouro tenha também alguma beleza por isso. Num futebol cada vez mais dominado pelo marketing, pelas narrativas individuais, pelos highlights, pelas redes sociais e pela necessidade permanente de proclamar quem é o melhor, venceu um jogador que passou grande parte da carreira simplesmente a trabalhar.

Ganhou o futebol. E depois houve o discurso. Talvez tenha sido aí que Harry Kane explicou, sem precisar de o dizer diretamente, por que razão esta Bola de Ouro lhe assenta tão bem.

Quando finalmente teve nas mãos a maior distinção individual que um futebolista pode conquistar, não utilizou o palco para falar dos 73 golos. Não enumerou recordes. Não lembrou quem duvidou dele. Não respondeu aos que durante anos fizeram piadas sobre a ausência de títulos.

Lembrou-se dos outros. Dos companheiros. Da família. Dos adeptos. Do Bayern. Da seleção inglesa. Do Tottenham. E dos treinadores que encontrou ao longo do caminho. Até daqueles que estiveram presentes quando Harry Kane ainda não era Harry Kane.

É classe.É gratidão. É perceber que ninguém chega sozinho ao topo, mesmo quando é apenas um nome que fica gravado na Bola de Ouro. A imagem de Kane emocionado naquela cadeira, enquanto era aplaudido, conta uma história muito maior do que uma cerimónia.

Ali estava o rapaz que não serviu para o Arsenal.O jovem que andou emprestado pelo Leyton Orient, Millwall, Norwich e Leicester à procura de minutos. O avançado que marcou centenas de golos e ouviu repetidamente que não podia estar entre os maiores porque nunca tinha levantado um troféu.

O capitão que carregou durante anos o peso de uma Inglaterra desesperada por voltar a vencer. O homem que deixou o clube da sua vida porque percebeu que, para continuar a crescer, teria de abandonar o conforto de casa. E, finalmente, aos 33 anos, o melhor jogador do Mundo.

O futebol nem sempre recompensa imediatamente quem merece. Por vezes é injusto. Por vezes demora. Por vezes obriga-nos a cair, levantar e voltar a tentar quando já fizemos aparentemente tudo bem.

Mas também oferece segundas oportunidades. Harry Kane esperou pela sua. E quando ela chegou, estava preparado. Pelo que marca. Pelo que joga e faz jogar. Pela inteligência. Pela qualidade técnica. Pela ética de trabalho. Pela humildade. Pela extraordinária classe com que sempre carregou vitórias e derrotas.

Esta Bola de Ouro é mais do que merecida. É também uma das grandes histórias de perseverança que o futebol moderno nos ofereceu. De “gordinho e pouco atlético” a melhor jogador do Mundo.

De gozado por não ter títulos, a ganhar a Bola de Ouro na sua Londres natal, que lhe prestou um fantástico tributo e lhe rendeu uma sonora ovação. No fim de contas, Kane tinha razão. Trabalhou em silêncio, e deixou que o sucesso fizesse barulho.

Tiago Campos

Redação Bola na Rede · ver artigos

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