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O NEC Nijmegen de Dick Schreuder

Pedro Cantoneiro · 4 min

Jogadores NEC Nijmegen
Foto: NEC Nijmegen

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A frustração de Dick Schreuder no final do jogo frente ao Ajax, sentindo que falta ainda alguma coisa ao seu conjunto para chegar ao topo

Certamente todos nos lembramos do fantástico Paços de Paulo Fonseca, qualificado para a Champions pelo terceiro lugar conseguido em 2012-13. Do 4-3-3 moderno, de Josué como organizador, a parelha Diogo Figueiras e Manuel José a electrificar o lado direito e Cícero como pivot na frente. A proeza fez-se com futebol pensante, envolvente, de maduros equilíbrios. Foi a última vez que houve surpresa no pódio português.

Analisar a nossa Liga pode provocar comparações com o estrangeiro e é sempre óbvio olhar para a congénere neerlandesa, dados os semelhantes índices competitivos e naturais rivalidades em termos de rankings uefeiros. A Eredivisie nunca se fez tão rígida nos protagonistas (oito vencedores desde 1956 contra os nossos quatro) mas PSV, Ajax e Feyenoord serão inevitáveis no favoritismo, época após época. Diz-se que haverá uma classe média mais extensa, com as sucessivas aparições europeias de AZ, Twente ou Heerenveen; mas destronar os Três Grandes no acesso à Champions costuma ser difícil. Até agora.    

Dick Schreuder, 54 anos, irmão de Alfred – adjunto em Barcelona e um dos recentes fracassados ao comando do Ajax – foi jogador profissional. Chegou ao PSV, passou por Sparta de Roterdão, Groningen e cruzou o canal da Mancha para vestir a camisa do Stoke City. Passaria a treinador esperando melhor sorte e teve a oportunidade de assistir Edgar Davids no Barnet, em 2013-14. Daria o passo em frente e começaria como técnico principal no futebol amador holandês, com o Katwijk, antes de assumir o PEC Zwolle e subi-lo ao escalão máximo em 2022-23; daí passaria para Espanha e, na terceira divisão, comandaria outra subida de divisão com o CD Castellon, de peito feito e peito cheio, conseguindo o recorde máximo de golos marcados (74).

Até 2025, o NEC Nijmegen não era das mais assentes presenças na Eredivisie. Dum máximo de 69 edições, participara em 44. Era um yo-yo. O máximo conseguido tinha sido um quinto lugar em 2002-03, com o lendário Johann Neeskens no banco. Depois um oitavo, em 2007-08. O primeiro semestre de 2025 terminara com outro top8 e a despedida de Rogier Meijer, chefe com cinco anos de casa e resultados favoráveis, como o 6.º lugar e a final da Taça em 2023-24. Ten Hag chamava-o para o acompanhar em Leverkusen. Seria confiável a estabilidade criada para se aguentar o projecto ou iria tudo por água abaixo?

Dick chegou em Junho e começou a preparar tão bem a pré-época que dos oito jogos, ganhou sete, um deles por esclarecedores 27-0. Nas primeiras três jornadas da liga, pim pam pum – 5-0, 4-1, 3-0. Doze golos marcados e liderança. À quinta jornada, recebia-se o campeão PSV no Goffertstadion e o placard assinalou a derrota, mas uma senhora derrota, evidência dos novos pressupostos táticos e competitivos: 3-5 para os de Eindhoven. Pelo caminho, não se perdeu com AZ nem Twente; Foi-se a Roterdão dar 2-4 ao Feyenoord de Van Persie e empatar em casa do Ajax. O orgulho no trabalho realizado é tanto que a reacção do treinador ao apito final em Amesterdão foi atirar uma garrafa de água ao chão, seguro de que, com um bocadinho mais de audácia, se teria conseguido a vitória.   

O sistema implementado é fiel às raízes nacionais e às nuances estíliticas do futebol dos Países Baixos. Como Co Adriaanse um dia no FC Porto, a linha de três atrás não é composta por centrais de raiz, antes dois velocistas como defesas abertos e dispostos à impiedosa marcação homem a homem. Um pêndulo confere equilíbrios, seja Proper ou Nejasmic, e Kodai Sano, um irrequieto japonês, afirma-se à sua frente como um dos mais promissores box to box da Europa.

O 3-4-3, que em ataque posicional se transforma em 3-1-6 à maneira Cruyffiana, com predominância do jogo interior e a pressão asfixiante também traço do Gegenpressing. Philippe Sandler, com passagem pelo City, é o central de saída, com técnica suficiente para organizar a partir de trás. Ouaissa e Onal encarrilam pelos corredores sem parar, o experiente Chery é o artista, e Linssen o aríete, com esperteza dada pelos anos (35) a traduzir-se em seis golos e oito assistências – sinal claro da sua qualidade e prova maior da produtividade do conjunto: era costume ter Kento Shiogai como alternativa directa, pelo menos até Janeiro. O que aconteceu? Ora, o promissor japonês aceitou tão bem o seu papel de suplente que fez nove golos em quatorze aparições e o Wolfsburgo chegou-se à frente com 10 milhões. Precipitados? Nem por isso, que o miúdo só fora titular… uma vez!

Em entrevista recente à ESPN neerlandesa, Schreuder diz que a sua maior inspiração, além de Cruyff, é Marcelo Bielsa. Que teve oportunidade de ver de perto o seu Chile e o seu Athletic. O fascínio prendeu-se sobretudo pela intensidade exigida aos atletas e staff. Os ideais táticos assentes na triangulação e nos apoios próximos ao portador da bola ficaram-lhe marcados porque são a marca d’água que torna este NEC facilmente identificável: com tanta ânsia de dominar, conseguindo ao fim de 24 jogos a marca de segundo melhor ataque na Eredivisie (59), é normal que se desleixe um pouco a rectaguarda, com mais golos sofridos que, por exemplo, o NAC Breda e o Volendam, 15.º e 16.º classificados, respectivamente.

Desde Setembro, só duas derrotas e as duas com o Utrecht, inexplicável carrasco.

A frustração de Dick Schreuder no final do jogo frente ao Ajax, sentindo que falta ainda alguma coisa ao seu conjunto para chegar ao topo, terá derradeira prova no próximo dia 3 de Março, com a recepção ao PSV a decidir a passagem à final da Taça.

Pedro Cantoneiro

Redação Bola na Rede · ver artigos