… continental. Os suíços do St. Gallen, primeiros adversários do Benfica na Liga Europa 2026/27, são os segundos mais velhos em toda a Europa continental – e assim decretamos para não mencionar os ingleses, que têm sempre a hegemonia nestas coisas; ora, na grande massa europeia, das estepes a leste até ao cabo da Roca, só o Boldklub de Copenhaga (ou KB, pai do actual FC que todos vemos ano após ano na Liga dos Campeões) começou antes.
Os dinamarqueses formaram-se em 1876, a equipa de futebol veio em ’78 e, volvido um ano, nas ruas de Sankt Gallen, um jornal teve a ideia de fazer a mesma coisa.
Reuniu-se a malta num restaurante e fez-se história, criando-se o primeiro clube de futebol dos Alpes. Em 1886 vieram os Grasshoppers, em 1890 o Servette, em 1893 o Basileia; em 1904, enquanto 24 rapazes se reuniam numa farmácia em Belém, já o St. Gallen tinha pujança para se sagrar campeão nacional. Só que à glória não se deu grande continuidade – o segundo título chegou apenas em 2000…
St. Gallen é o cantão suíço mais oriental, mesmo colado à Alemanha. Muito por isso, não é o melhor exemplo quanto à tradicional emigração portuguesa para os Alpes: embora St. Gallen seja o quinto cantão em número de habitantes, só lá vivem seis mil dos 260 mil cidadãos lusos na Suíça em 2026.
O obstáculo da língua empurra as comunidades portuguesas para os cantões de influência francesa – Vaud, Genebra, Valais, Zurique, Friburgo ou Berna –, dado que serve para acalmar os ímpetos noticiosos duma eventual onda vermelha no Kybunpark a 23 de Julho – o St. Gallen é o terceiro na tabela de público na liga suíça, só atrás de Basileia e Young Boys. Tem uma média de 18 mil adeptos por jogo num estádio com 20 mil. Festa nas redondezas muita com certeza, espaço nas bancadas muito pouco.
VERÃO QUENTE
Desde que Matthias Hüppi assumiu como presidente, em 2018, o clube veio por aí acima. Homem forte do jornalismo desportivo e do entretenimento, aplicou o seu know-how para construir um projecto sólido, com capital humano competente, altos níveis de disciplina e competitividade e forte ligação com a comunidade para assegurar sucessivos bons resultados: de clube yo-yo a três finais de Taça em oito anos, mais dois vice-campeonatos.
Logo após a conquista da Taça frente ao Lausanne, no passado Maio, o ambiente de festa na cidade mudou de tom – Hüppi, no meio do caos, descaíra-se e acabou por expor a verdadeira história bastidores: alguns dos ‘shareholders’ preparavam-se para substituir alguns membros da sua actual direcção, alegando, como justificação, estarem preocupados com o futuro e a instabilidade resultante da eventual sucessão do actual presidente de 68 anos. Queriam começar a introduzir gente de outras esferas de influência. Bastou o próprio desvendar os planos dos accionistas para a cidade transformar o êxtase em revolta, imediatamente expressando toda a solidariedade.
A Espenblock, claque mais representativa, tratou logo de lançar um comunicado no qual sublinhava todo o seu apoio ao actual presidente, aludindo às traves-mestras da filosofia do projecto e do clube («1. No one is above the club. 2. Responsibility in every dimension. 3. Club before ego. 4. History and tradition are obligations»). A novela foi tanta que os tais ‘shareholders’ – Patrick Thoma, Roland Gutjahr, Martin Jäger e Ernst Eisenhut – não tiveram coragem de levar as pretensões avante.
Pudera, tão convicta e pouco recomendável se chegou a manifestar a revolta de alguns sectores da massa adepta: segundo o portal bluewin.ch, chegou a ser necessária protecção policial individualizada para os visados.
No fim (a 27 de Maio), Hüppi convocou uma conferência de imprensa para declarar vitória. Os tais a favor da reestruturação nos gabinetes saíam pelo próprio pé, alienando as suas participações a favor dos parceiros mais alinhados com o projecto vigente. Poderes reforçados para Hüppi?
«É uma grande responsabilidade. Mas liderança não tem nada a ver com poder, mas com responsabilidade. Não é sobre mim. Não sou um autocrata ou um corredor a solo. Sou um estafeta. Isso é essencial para mim, sei que posso confiar nesta equipa (de directores) completamente.»[1]
E agora? Continuará o St Gallen a espiral competitiva ascendente?
«Por agora acabou. É claro: não irei atrás de ninguém pessoalmente e assim continuará. Quanto dano foi causado? Sinceramente, vejo isto como algo positivo, pode ajudar a desenvolver sinergias e ser a base para uma cooperação ainda mais positiva no futuro. Vejo o copo meio cheio – é assim que eu sou.»
NO RELVADO
Enrico Maassen (o totalmente correcto será Enrico Maaßen) é o treinador desde 2024. Alemão de 42 anos, diz-se fã vertente emocional do jogo e por isso olha para Bielsa e a sua tradicional intensidade como grande inspiração; Começou a carreira na equipa B do Borussia Dortmund e conseguiu, em 2020-21, subir à terceira divisão alemã com o registo impressionante de uma derrota em quarenta jornadas (e, como reforço, juntaria a Steffen Tigges e Knauff um tal de… Ole Pohlmann, o craque do Rio Ave); depois, a oportunidade na Bundesliga pela mão do Augsburgo – onde treinou Renato Veiga e conseguiu a manutenção.
Ao St. Gallen chega em 2024 e manteve-se fiel ao estilo empregue nas anteriores aventuras: preferência pela pressão alta, velocidade na transição, jogo focado na baliza adversária organizando-se geralmente com três centrais. Na primeira temporada, possibilitou a Willem Geubbels fazer 14 golos em 13 presenças, obrigando os responsáveis do Paris FC a desembolsar nove milhões de euros pelos seus serviços; como substituto, viu potencial em Alessandro Vogt, um miúdo da formação, e meteu-o a marcar 15 golos – o Hoffenheim correu para o levar, por três milhões. «Há um ditado antigo: mentalidade vence a qualidade. Nem sempre levo isso à letra, mas acredito seriamente que o carácter duma equipa é um factor importante.» dizia certo dia ao site oficial do Borussia, tentando explicar as prioridades da sua abordagem. «Lutamos para ultrapassar todo e qualquer obstáculo. Foi notória a forma como nos últimos jogos nos mantivemos concentrados e competitivos.»
Se em 2024/25 conseguiu ultrapassar o Trabzonspor para chegar à fase regular da Liga Conferência, as metas aumentaram para a época passada: e Maassen correspondeu, com vice-campeonato e Taça suíça, enquanto se igualava a melhor série de invencibilidade da história do St Gallen (16 jogos, entre Fevereiro e Maio) que vinha de 1983, ficando também imbatíveis no confronto directo com os campeões FC Thun.
Para 2026/27, as dúvidas que ameaçam a estabilidade do projecto: quem substitui Vogt e o seu parceiro de ataque, Aliou Baldé, que regressou ao Nice depois do empréstimo? Poderão abrir-se novas portas a Ati Zigi, esteio defensivo que assume a baliza de Gana no Mundial? Para já, reforços confirmados, só Leon Frojka, um médio com sentido de baliza formado no Basileia e recrutado ao Aarau; na mira mantém-se Antonio Gala, o formando do Milan que mostrou credenciais na Serie C e interessa, além do St Gallen, a Torreense e Casa Pia.
A sofisticação suíça nunca colocará as bases financeiras do projecto em causa e a formação será cada vez base para a construção do plantel. A valorização do talento local permitirá o crescimento gradual e sustentado, evitando as loucuras no mercado e a tentação de recrutamento pelo nome.
Assim, é natural que por enquanto se notem diferenças substanciais face a um clube como Benfica: se o transfermarkt diz que o actual plantel benfiquista vale 400 milhões, ao dos suíços avalia em aproximadamente 36. O que se reflecte naturalmente no coeficiente uefeiro, com 72 mil pontos a confrontar seis mil, vigésimo classificado contra 231º no ranking de clubes.
A preparação para os embates com o Benfica começa cedo, com um exigente teste no dia 11 de Julho contra o Lyon. O que se explica com o início dos quadros competitivos suíços, que fazem a primeira divisão começar no interlúdio da eliminatória com os encarnados, com a recepção ao Zurique três dias depois da primeira mão.
Não causará isso grande oscilação exibicional, já que a maioria do onze-tipo de 2025-26 se mantém: na baliza, o já mencionado ganês Ati Zigi, mundialista do plantel; à sua frente, a linha de três formada por Gaal (formado no Monchengladbach), Stanic (incluído no Onze do Ano da Liga) e Okoroji (formado no Bayern).
À direita, o francês Vandermersch (mais de uma centena de jogos na Ligue 2) e Stevanovic (formado no Basileia, internacional sub21 pela Sérvia) do lado contrário. Ao meio, os craques Boukhalfa (campeão da Bundesliga 2 pelo St Pauli e 14 golos na última temporada) e Görtler (capitão e Jogador do Ano da Liga Suíça) costumam ser indiscutíveis, com Konietzke (pérola da formação) a partilhar minutos com Daschner (experiência de Bundesliga pelo Bochum).
O ataque é a grande dúvida, a ser desfeita no tal amigável com os franceses de Paulo Fonseca. Em jeito de aposta, e impondo-se a lógica de Enrico Maassen e do próprio projecto, a atenção deverá recair para Diego Besio e Nevio Scherrer…
[1] https://www.bluewin.ch/en/sport/football/hueppi-its-not-about-me-im-not-an-autocrat-3251874.html

