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A omnipresença de Kurban Berdyev no FC Rostov

Joel Amorim · 6 min

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Cabeçalho Futebol Internacional

Aos 39 anos de idade, o antigo artilheiro russo Dmitri Kirichenko tem em mãos um pequeno gigante do futebol, criado por Kurban Berdyev, e vê, sem que muito tenha contribuído para isso, mais uma vez o seu nome escrito na história do desporto-rei à conta de um FC Rostov que surpreendeu a Europa do futebol ao deixar para trás o RSC Anderlecht e o AFC Ajax conseguindo o apuramento para a fase de grupos da Liga dos Campeões.

Dmitri Kirichenko, o “herdeiro acidental” de Kurban Berdyev Fonte: Sovsport
Dmitri Kirichenko, o “herdeiro acidental” de Kurban Berdyev
Fonte: Sovsport

Kirichenko, que, para além de ter sido um prolífico goleador, foi também o autor do golo mais rápido de sempre em Campeonatos da Europa de futebol (marcou aos 67 segundos de jogo frente à Grécia no Euro 2004), voltou às luzes da ribalta após a saída intempestiva do mágico do Turcomenistão, Kurban Berdyev, do comando do FC Rostov após a vitória por 2-0 em Bruxelas diante do RSC Anderlecht. Kirichenko, que trabalhava como treinador-adjunto dos Selmashi desde 2014, viu-se de um momento para o outro obrigado a assumir as rédeas da equipa, assumir apenas em teoria, porque, na verdade, Berdyev nunca deixou a formação do FC Rostov.

Kurban Berdyev chegou a Rostov em Dezembro de 2014, após ter sido forçado a sair do FC Rubin Kazan cerca de um ano antes. Os Selmashi encontravam-se mergulhados num caos financeiro e desportivo aquando da chegada do experiente técnico e poucos eram aqueles que acreditavam que o clube se poderia salvar. O que aconteceu a seguir é um verdadeiro “conto de fadas” adaptado ao futebol, pois Berdyev não só conseguiu salvar o FC Rostov da descida de divisão, como fez com que a equipa terminasse no segundo lugar da Liga Russa na temporada passada, a apenas dois pontos do campeão PFC CSKA Moscovo. Se tudo isto não bastasse, é importante lembrar que, embora tudo ou quase tudo tenha melhorado no plano desportivo, a vertente financeira do FC Rostov continua absolutamente caótica (ordenados de jogadores, treinadores e funcionários em atraso, por exemplo), mas nem isso impediu Berdyev de levar o seu barco a bom porto. Foi a perseverança do experiente técnico que fez com que jogadores como o equatoriano Christian Noboa e o Iraniano Sardar Azmoun se mudassem para Rostov e de lá não saíssem e foi também, por exemplo, o próprio Berdyev que conseguiu um patrocinador para que o defesa central angolano Bastos se mantivesse no clube por mais algum tempo.

Com um plantel curto e altamente limitado, Kurban Berdyev fez, ou tem feito (na verdade,  nunca abandonou o clube totalmente), o impensável esta temporada. Ultrapassar o experiente emblema belga  RSC Anderlecht na terceira ronda de qualificação para a Liga dos Campeões parecia de todo impensável, especialmente após um empate a dois golos na Rússia. Berdyev, como já é habitual, puxou dos galões e montou uma equipa altamente focada para a partida da segunda-mão em Bruxelas e saiu do Estádio Constant Vanden Stock com uma impressionante vitória por 2-0, carimbado assim o passaporte para o playoff final de acesso à liga milionária. Entretanto, um “cataclismo” abatia-se sob a formação de Rostov e, conforme já havia prometido antes, Kurban Berdyev decide abandonar o comando técnico da equipa. Da noite para o dia, o até então adjunto Dmitri Kirichenko assume o controlo, mas não consegue melhor do que um empate sem golos em casa diante do FC Ural, jogo que serviu também de despedida para um Berdyev omnipresente, que subiu ao relvado para saudar os adeptos uma última vez e que acabou lançado ao ar pelos seus jogadores, como se de um festejo de vitória no campeonato se tratasse.

 O dia em que Berdyev se “despediu” do FC Rostov Fonte: Rsport
O dia em que Berdyev se “despediu” do FC Rostov
Fonte: Rsport

A saída de Berdyev coincidia com a saída de Dmitri Alenichev do FC Spartak Moscovo e o técnico natural do Turcomenistão apresentava-se como o sucessor perfeito para Dima no comando do histórico emblema moscovita. As negociações com o magnata e dono do FC Spartak Moscovo, Leonid Fedun, caíram por terra, ainda que os valores oferecidos a Berdyev rondassem uns largos milhões de euros. O experiente técnico, contudo, é conhecido por querer ter controlo total sobre transferências e gestão do plantel e isso esbarra terminantemente com a forma como o emblema moscovita é actualmente gerido.

Gorado o tal acordo, o nome de Berdyev foi associado com a selecção russa de futebol e com o FC Lokomotiv Moscovo, mas tal também não aconteceu, nem para um lado nem para o outro, já que Stanislav Cherchesov assumiu o comando técnico da Sbornaya há umas semanas a esta parte e, na passada semana, Yuri Semin regressou aos homens dos caminhos de ferro.

Alheio a estes negócios, o FC Rostov, com Dmitri Kirichenko ao leme da equipa, pelo menos no papel, inscreve na UEFA Kurban Berdyev como adjunto do outrora seu adjunto e, para mal dos pecados do frágil AFC Ajax de Peter Bosz, o técnico natural do Turcomenistão estava determinado em levar os Selmashi até à fase de grupos da Liga dos Campeões. Após o empate a uma bola em Amesterdão, os comandados por Kirichenko e Berdyev esmagaram o outrora gigante holandês por 4-1 em Rostov carimbando pela primeira vez na sua história o passaporte para a liga milionária.

Desta força da natureza que tem sido o FC Rostov, fazem parte para além dos acima referidos Noboa e Azmoun, uma mescla quase perfeita de jogadores, uns que já contam nas pernas com muitas primaveras futebolísticas, como são os casos do poderoso médio moldavo e capitão de equipa Alexandru Gatcan (32 anos), o experiente defesa central espanhol César Navas (36 anos), o altamente versátil médio-ala bielorrusso Timofei Kalachev (35 anos) e o intermitente ponta-de-lança russo Aleksandr Bukharov (31 anos), e outros que ainda têm pela frente uma carreira que será certamente interessante, como são os casos do versátil extremo russo Dmitri Poloz (25 anos), o competente defesa central russo Ivan Novoseltsev (25 anos), os também eles defesas Fyodor Kudryashov (29 anos) e Denis Terentjev (24 anos) e o médio de ataque Aleksandr Erokhin (26 anos). Seria injusto não lembrar também Soslan Dzhanaev, o guarda-redes russo de 29 anos, que relançou a sua carreira com Kurban Berdyev e assinou exibições verdadeiramente notáveis nas partidas diante do RSC Anderlecht e do AFC Ajax.

Dmitri Kirichenko, que viu sair Bastos para a SS Lazio há duas semanas e tem, a cada dia que passa, um plantel mais curto, mantém-se fiel ao 3-5-2 ou 5-3-2, se preferirem, de Kurban Berdyev e os resultados, pode dizer-se, são excelentes no plano internacional e bons na vertente doméstica, tendo em conta a realidade complicada que o  clube atravessa.

O que esperar deste FC Rostov no futuro próximo?  Fonte: Sport Express
O que esperar deste FC Rostov no futuro próximo?
Fonte: Sport Express

Embora não tenha sido visto nas bancadas na partida frente ao AFC Ajax em Rostov na passada semana, Kurban Berdyev e as suas ideias estiveram presentes em campo e foram elas que levaram os Selmashi a uma vitória histórica diante daqueles que foram, em tempos, um colosso do futebol europeu.

O futuro de Kirichenko e Berdyev é incerto; o primeiro porque levará por tabela caso os resultados desportivos se comecem a degradar e o segundo porque caso deixe o FC Rostov em definitivo, a curta carreira do seu pupilo como treinador principal terminará certamente de forma abrupta.

Aconteça o que acontecer, nada impedirá o FC Rostov de se estrear e medir forças na liga milionária com o FC Bayern Munique, o Atlético Madrid e o PSV Eindhoven, restando apenas saber se o vai fazer sob o olhar catedrático do mestre Berdyev, sob a coragem de um jovem treinador como Kirichenko, ou, no pior cenário possível, sob a égide de algum técnico que entre de súbito em cena, desvirtuando tudo aquilo que foi conseguido até agora.

Joel Amorim

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