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Celtic FC e Rangers FC: Mais que futebol

Guilherme Malheiro · 4 min

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Cabeçalho Futebol InternacionalNo futebol atual, o que não falta são rivalidades. O impacto que, no século 21, as televisões e internet geram, à volta da cobertura de grandes eventos, faz com que qualquer evento desportivo pareça único, imperdível.

Embora existam, no futebol, dérbies mais mediáticos, nenhum tem a dimensão social e cultural do Celtic vs Rangers. As duas equipas de Glasgow, as mais importantes da Escócia, dividem adeptos e população no geral, tal é a importância extra-futebol que o encontro assume.

As complexas, e muitas vezes tensas, relações entre Irlanda, Irlanda do Norte, Inglaterra e Escócia tornam, para quem não é destes países, muito difícil a tarefa de entender a atmosfera e o significado dum jogo destes. Mas é possível, olhando para o passado dos dois clubes, apontar as razões que fazem dele o maior acontecimento desportivo escocês, e um dos mais emocionantes a nível mundial.

O Rangers FC, o mais antigo e titulado dos dois, é um clube com grandes ligações ao Reino Unido, e à monarquia. As suas cores mostram bem isso: as bases do símbolo e dos equipamentos do clube são o azul, o branco e o vermelho, as cores da Union Jack. Os seus adeptos, quase exclusivamente protestantes, a religião mais seguida em Inglaterra, são sobretudo anti-independentistas, e defendem a permanência da Escócia como Estado controlado pelo Reino Unido.

O Celtic FC, por outro lado, é o clube com mais projeção internacional. Para além de já ter vencido a Liga dos Campeões, é o atual hexacampeão da Liga Escocesa. É um clube ainda mais político que o Rangers, e os adeptos sempre fizeram questão de que essa característica fosse bem visível.

Formado numa comunidade de imigrantes irlandeses, o Celtic tem uma forte ligação às classes trabalhadoras, e às zonas mais pobres da Escócia. As suas cores, verde e branco, para além do seu símbolo, um trevo, são alusões óbvias à origem Irlandesa do clube. Apoiado por católicos, a religião tradicional da Irlanda, têm, quer por ser um clube menos elitista, quer pelas muitas comunidades Irlandesas espalhadas pelo mundo, um maior número de adeptos.

Celtic Park, estádio do Celtic. Durante os dérbies, é comum a exibição de bandeiras. A da Irlanda Fonte: Celtic FC
Celtic Park, estádio do Celtic. Durante os dérbies, é comum a exibição de bandeiras. A da Irlanda
Fonte: Celtic FC

A disputa Católicos/Protestantes não é novidade no Reino Unido. No entanto, os dois rivais de Glasgow nunca mostraram interesse em manter a política e a religião longe do desporto, e afastar este encontro de qualquer manifestação ou sentimento extra-futebol. Aliás, é o orgulho e a veemência com que cada lado tem mantido a sua posição, ignorando qualquer atitude politicamente correta, que tornam esta rivalidade icónica.

O ponto central neste derby, mais que o próprio jogo em si, é a demonstração de ideais nas bancadas. A questão da Irlanda do Norte é, provavelmente, o tema mais abordado pelos apoiantes. Os adeptos do Celtic, a favor duma Irlanda reunificada, e os adeptos do Rangers, que apoiam a continuidade da Irlanda do Norte como parte integrante do Reino Unido, acabam, normalmente, por ser mais protagonistas que os intervenientes diretos no jogo. Bandeiras, cânticos nacionalistas e referências a episódios históricos são parte fundamental do aspeto visual do jogo.

Independentemente do resultado, os 90 minutos são preenchidos com provocações de parte a parte, e, se às vezes existe alguma cordialidade nas rivalidades entre clubes da mesma cidade, aqui não é o caso: um adepto do Rangers é automaticamente inimigo dum adepto do Celtic, e vice-versa, mais que não seja por defenderem causas e ideologias completamente distintas.

Há, porém, questões desportivas que aumentam a rivalidade. O facto do campeonato escocês ter apenas 12 clubes, e da competição estar dividida em duas fases, permite que um clube defronte outro, no mínimo, por três vezes, durante a época. Isto, aliado à forma como Celtic e Rangers dominam a Liga Escocesa, fez com que, ao longo dos anos, a corrida ao título se reduzisse, habitualmente, a dois. E sendo os jogos decisivos disputados entre os mesmos clubes, de forma sistemática, a tensão à volta do jogo passou também para os relvados.

Curiosamente, os dois clubes de Glasgow raramente dominaram o futebol nacional de forma intercalada. Ao longo dos anos, o campeonato tem sido caracterizado por grandes sequências de títulos. A última vez que houve dois vencedores diferentes, em duas épocas seguidas, foi em 2004/2005. Ambos os clubes têm o recorde de títulos consecutivos: nove. Esta época, o Celtic procura o heptacampeonato.

Paul Gascoigne, médio do Rangers, festeja um golo, fingindo que está a tocar flauta. O gesto é uma referência a uma marcha Protestante. O jogador recebeu ameaças de morte, depois deste episódio Fonte: BBC
Paul Gascoigne, médio do Rangers, festeja um golo, fingindo que está a tocar flauta. O gesto é uma referência a uma marcha Protestante. O jogador recebeu ameaças de morte, depois deste episódio
Fonte: BBC

Mas o desinvestimento no futebol escocês, e a pouca expressão da sua liga principal, faz com que tudo o que se passa dentro das quatro linhas, num Celtic-Rangers, fique para segundo plano. Nem sempre foi assim: durante os anos 90, e até ao início do século XXI, antes da explosão mediática da Premier League, os dois clubes conseguiram construir grandes plantéis, e ir longe nas competições europeias. Durante essa época, houve grandes espectáculos desportivos, em que a atmosfera do estádio, combinada com a qualidade vinda do campo, faziam com que o dérbi rivalizasse com outros, de ligas com qualidade superior.

Talvez, para quem segue as duas equipas, tenha tudo mais importância, agora que o dérbi não tem tanto destaque internacional. Sem influência da imprensa e da visão de outros países, o dérbi de Glasgow mantém todas as suas características intactas. As polémicas e confrontos são parte integrante deste jogo, e aos olhos dos adeptos, é assim que tem que ser. Porque, aqui, o espetáculo está nas bancadas. O resto é apenas futebol.

Foto de Capa: Celtic FC

 

Guilherme Malheiro

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