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Embora existam, no futebol, dérbies mais mediáticos, nenhum tem a dimensão social e cultural do Celtic vs Rangers. As duas equipas de Glasgow, as mais importantes da Escócia, dividem adeptos e população no geral, tal é a importância extra-futebol que o encontro assume.
As complexas, e muitas vezes tensas, relações entre Irlanda, Irlanda do Norte, Inglaterra e Escócia tornam, para quem não é destes países, muito difícil a tarefa de entender a atmosfera e o significado dum jogo destes. Mas é possível, olhando para o passado dos dois clubes, apontar as razões que fazem dele o maior acontecimento desportivo escocês, e um dos mais emocionantes a nível mundial.
O Rangers FC, o mais antigo e titulado dos dois, é um clube com grandes ligações ao Reino Unido, e à monarquia. As suas cores mostram bem isso: as bases do símbolo e dos equipamentos do clube são o azul, o branco e o vermelho, as cores da Union Jack. Os seus adeptos, quase exclusivamente protestantes, a religião mais seguida em Inglaterra, são sobretudo anti-independentistas, e defendem a permanência da Escócia como Estado controlado pelo Reino Unido.
O Celtic FC, por outro lado, é o clube com mais projeção internacional. Para além de já ter vencido a Liga dos Campeões, é o atual hexacampeão da Liga Escocesa. É um clube ainda mais político que o Rangers, e os adeptos sempre fizeram questão de que essa característica fosse bem visível.
Formado numa comunidade de imigrantes irlandeses, o Celtic tem uma forte ligação às classes trabalhadoras, e às zonas mais pobres da Escócia. As suas cores, verde e branco, para além do seu símbolo, um trevo, são alusões óbvias à origem Irlandesa do clube. Apoiado por católicos, a religião tradicional da Irlanda, têm, quer por ser um clube menos elitista, quer pelas muitas comunidades Irlandesas espalhadas pelo mundo, um maior número de adeptos.

Fonte: Celtic FC
A disputa Católicos/Protestantes não é novidade no Reino Unido. No entanto, os dois rivais de Glasgow nunca mostraram interesse em manter a política e a religião longe do desporto, e afastar este encontro de qualquer manifestação ou sentimento extra-futebol. Aliás, é o orgulho e a veemência com que cada lado tem mantido a sua posição, ignorando qualquer atitude politicamente correta, que tornam esta rivalidade icónica.
O ponto central neste derby, mais que o próprio jogo em si, é a demonstração de ideais nas bancadas. A questão da Irlanda do Norte é, provavelmente, o tema mais abordado pelos apoiantes. Os adeptos do Celtic, a favor duma Irlanda reunificada, e os adeptos do Rangers, que apoiam a continuidade da Irlanda do Norte como parte integrante do Reino Unido, acabam, normalmente, por ser mais protagonistas que os intervenientes diretos no jogo. Bandeiras, cânticos nacionalistas e referências a episódios históricos são parte fundamental do aspeto visual do jogo.
Independentemente do resultado, os 90 minutos são preenchidos com provocações de parte a parte, e, se às vezes existe alguma cordialidade nas rivalidades entre clubes da mesma cidade, aqui não é o caso: um adepto do Rangers é automaticamente inimigo dum adepto do Celtic, e vice-versa, mais que não seja por defenderem causas e ideologias completamente distintas.
Há, porém, questões desportivas que aumentam a rivalidade. O facto do campeonato escocês ter apenas 12 clubes, e da competição estar dividida em duas fases, permite que um clube defronte outro, no mínimo, por três vezes, durante a época. Isto, aliado à forma como Celtic e Rangers dominam a Liga Escocesa, fez com que, ao longo dos anos, a corrida ao título se reduzisse, habitualmente, a dois. E sendo os jogos decisivos disputados entre os mesmos clubes, de forma sistemática, a tensão à volta do jogo passou também para os relvados.
Curiosamente, os dois clubes de Glasgow raramente dominaram o futebol nacional de forma intercalada. Ao longo dos anos, o campeonato tem sido caracterizado por grandes sequências de títulos. A última vez que houve dois vencedores diferentes, em duas épocas seguidas, foi em 2004/2005. Ambos os clubes têm o recorde de títulos consecutivos: nove. Esta época, o Celtic procura o heptacampeonato.

Fonte: BBC
Mas o desinvestimento no futebol escocês, e a pouca expressão da sua liga principal, faz com que tudo o que se passa dentro das quatro linhas, num Celtic-Rangers, fique para segundo plano. Nem sempre foi assim: durante os anos 90, e até ao início do século XXI, antes da explosão mediática da Premier League, os dois clubes conseguiram construir grandes plantéis, e ir longe nas competições europeias. Durante essa época, houve grandes espectáculos desportivos, em que a atmosfera do estádio, combinada com a qualidade vinda do campo, faziam com que o dérbi rivalizasse com outros, de ligas com qualidade superior.
Talvez, para quem segue as duas equipas, tenha tudo mais importância, agora que o dérbi não tem tanto destaque internacional. Sem influência da imprensa e da visão de outros países, o dérbi de Glasgow mantém todas as suas características intactas. As polémicas e confrontos são parte integrante deste jogo, e aos olhos dos adeptos, é assim que tem que ser. Porque, aqui, o espetáculo está nas bancadas. O resto é apenas futebol.
Foto de Capa: Celtic FC











