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Os 5 treinadores mais subvalorizados do século XXI

Vasco Borges · 7 min

Foto: Valencia CF

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Que atire a primeira pedra quem nunca mostrou um lenço branco num estádio. Ou quem nunca garantiu que faria muito melhor do que homem sentado no banco da sua equipa. No futebol, quando tudo corre mal, os treinadores são os primeiros a ser responsabilizados.

Nenhum treinador está imune à crítica, mas, por vezes, a memória dos adeptos é demasiado curta. Neste texto estão cinco treinadores que, pela sua filosofia única, pelo seu palmarés ou pelas vezes que conseguiram superar as expetativas, mereciam mais reconhecimento e, quem sabe, ocupar cargos de maior relevância.

 

5.


Christian Streich- Recuemos até ao verão de 1998. A Seleção francesa tinha acabado de vencer o Campeonato do Mundo. Em Espanha, o Real Bétis Balompié batia o recorde de uma transferência, com a contratação de Denílson ao São Paulo. Por cá, por entre a febre da Expo 98, o FC Porto preparava aquela que seria a época do “penta”. Enquanto isso, no sul da Alemanha, um tal de Christian Streich assumia o leme da equipa sub-19 do SC Freiburg.

Quase 23 anos depois, o mesmo homem continua ligado a um clube que tende a passar despercebido, mas que vai traçando um caminho interessante por entre os treinadores do futebol alemão. Streich é diferente. É conhecido como o “treinador filósofo” e não tem medo apontar falhas a si mesmo e ao desporto que tanto ama. Domina a arte de desconectar da bolha do futebol, de desligar do que não importa, para depois dar o máximo nos treinos e jogos. Incentiva os jogadores a desempenhar um papel ativo em questões sociais e políticas, a ter interesse pela cultura e ver para lá da questão económica do desporto.

Com esta estratégia, tem conseguido criar grupos coesos e competitivos, mesmo sem grandes estrelas. Para além de manter o SC Freiburg na primeira divisão, ajuda o clube a potenciar vários atletas para voos mais altos. O benfiquista Waldschmidt e Robin Koch (Leeds United) são os nomes mais recentes de uma lista que também tem Caglar Soyuncu, Matthias Ginter, Roman Burki, ou Max Kruse.

 

4.


David Moyes- Já se sabe que as redes sociais são um território implacável e David Moyes é uma das personalidades que mais tem sofrido nesse mundo. A excelente época do West Ham United FC tem amenizado algumas críticas, mas muitos esquecem-se de que esta não é primeira vez que o britânico faz um bom trabalho entre os treinadores da Premier League.

No início do século, tornou-se treinador do Everton FC. Os primeiros tempos não foram fáceis, mas o 4º lugar de 2004/2005 mudou o paradigma. Nas épocas seguintes, só terminou uma vez fora do top 8. Entrou para um clube que, nos anos 90, se tinha habituado à segunda metade da tabela e deixou-o como um dos dos candidatos crónicos aos lugares europeus.

A época no Manchester United FC foi desastrosa, e Moyes não está isento de culpas. Ainda assim, a tarefa de suceder a Sir Alex Ferguson seria hercúlea para qualquer treinador com coragem para assumir o cargo. Basta ver que, sete anos depois, nenhum dos treinadores que por lá passaram conseguiu devolver os “red devils” ao mesmo patamar da era Ferguson.

As passagens pela Real Sociedad de Fútbol e por um condenado Sunderland AFC também não foram positivas, mas tem agora reencontrado algum sucesso no West Ham. Pode não ser um génio tático nem um motivador nato, mas está certamente muito longe de ser um dos piores do futebol inglês como muitas vezes fazem querer.

 

 

3.


Leonardo Jardim- É certo que o treinador português é creditado pela Liga Francesa que ganhou com o AS Monaco FC. Mas o tempo que tem passado sem clube é, no mínimo, intrigante. Em 2016/2017, tinha à sua disposição um plantel de futuras estrelas, mas tal não deve servir como argumento para tirar mérito a Leonardo Jardim. Afinal, foi o responsável por potenciar jogadores como Mbappé, Bernardo Silva, Fabinho, Martial, Lemar ou Carrasco.

De notar ainda que a chegada de Leonardo Jardim coincide com o moderar do investimento dos responsáveis monegascos. Nesse verão de 2014, o Monaco gastou 39 milhões de euros em transferências. Soma considerável, mas que fica longe dos 160 milhões gastos no ano anterior. A partir de 2018, as coisas não correram de feição. Mas, durante quatro anos, Leonardo Jardim transformou o Monaco numa das equipas mais vibrantes da Europa, destronou o Paris Saint-Germain FC e ainda chegou às meias-finais da Liga dos Campões.

Fora de França, conquistou uma Liga Grega, um vice-campeonato com o Sporting CP, um terceiro lugar com SC Braga e tem uma Segunda Liga ganha ao serviço do SC Beira-Mar. Com provas dadas ao mais alto nível, é de estranhar que não ocupe um dos bancos de treinadores nas principais ligas europeias.

 

2.


Rafa Benitez- O espanhol pode ser visto como um técnico de altos e baixos e é certo que já acumulou algumas experiências menos conseguidas. Mas é injusto lembrá-lo apenas pelos piores motivos. No início do século, venceu a Liga Espanhola duas vezes com o Valencia CF. A primeira, em 2001/2002, pôs fim a um jejum de 31 anos do emblema “che”. Em 2003/2004, levou o clube à conquista da Taça UEFA.

Nesse verão, assina pelo Liverpool FC, onde ganha a Liga dos Campeões, na memorável final de Istanbul frente ao AC Milan. Repete a final em 2007, mas com desfecho inverso. Em Inglaterra, sofreu, sobretudo, por não ter conseguido quebrar o enguiço que só Jurgen Klopp conseguiu na temporada passada.

O FC Internazionale Milano terá sido o primeiro grande fracasso na carreira, conquistando apenas o Mundial Clubes. Depois de uma época no Chelsea FC – onde falhou o campeonato, mas venceu a Liga Europa –, assinou pelo SSC Napoli. Aos olhos de muitos, estaria a descer um degrau. Mas, no sul de Itália, Benitez reencontrou-se e fez duas ótimas temporadas que o levaram para Madrid.

Não chegou sequer a terminar a sua única temporada no Real Madrid CF e acabou por regressar a Inglaterra. Surpreendentemente, o destino foi o Newcastle United FC, onde venceu a Segunda Liga. Manteve, depois, o clube na Liga Inglesa, mesmo com investimento quase nulo por parte dos proprietários.

A saída para a China não ajudou na missão de recuperar o estatuto entre os treinadores que outrora teve. Ainda assim, soma 15 títulos no palmarés e não se pode negar que montou algumas das equipas mais interessantes do século XXI.

1.


Manuel Pellegrini- Aos 67 anos, o técnico chileno é um exemplo perfeito de subvalorização nos treinadores. Chegou à Europa em 2005, já com vários títulos conquistados no futebol sul-americano, e assumiu o entusiasmante projeto do Villarreal CF. Em cinco anos, levou sempre o clube à Europa, conseguiu dois inéditos pódios na Liga e ainda chegou às meias-finais da Liga dos Campeões.

Em 2009, foi para o Real Madrid. Os 96 pontos que conquistou na Liga seriam uma excelente marca, não fossem os 99 conquistados pelo FC Barcelona. A eliminação na Liga dos Campeões aos pés do Olympique Lyonnais também acabou por manchar a época. Mas terá sido a ambição de Florentino Perez em trazer José Mourinho que encurtou a estadia de Pellegrini.

No Málaga CF, alcançou um 4º lugar e uma presença nos oito melhores da Liga dos Campeões. Seguiram-se três anos no Manchester City FC. As coisas começaram por correr bem, com o título em 2013/2014. Mas com a direção dos “citezens” a virar atenções para a conquista da Champions, o chileno foi perdendo crédito e a época abaixo do esperado em 2015/2016 ditou o seu despedimento.

Em retrospetiva, são mais as épocas de boas e em que excedeu as expetativas do que as épocas más. Pellegrini é, sobretudo, um treinador de regularidade e capaz de tirar todo o partido do potencial dos seus jogadores. Esta época tem provado isso, colocando o Real Bétis Balompié na luta pela Europa. Um treinador cujo percurso, experiência e qualidade mereciam mais reconhecimento.

Artigo revisto por Mariana Plácido

Vasco Borges

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