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O frio do Inverno chegou mais cedo a todo território da Federação Russa e os termómetros começam já a marcar temperaturas bem abaixo de zero. O Inverno fora de tempo chegou também aos estádios de futebol com a neve a transformar as superfícies verdes em verdadeiros tapetes de algodão branco, onde até os mais destemidos jogadores se vêm obrigados a cobrir todo o seu corpo deixando apenas a cabeça à mercê dos ventos gelados, que congelam tudo aquilo que mexe.
Os adeptos do FC Kuban Krasnodar fizeram este Sábado cerca de 9800 km até Vladivostok, no extremo oriente russo, para ver a sua equipa medir forças com o FC LuchEnergiya Vladivostok, em jogo a contar para a ronda 20 da FNL (ФНЛ), segundo escalão do futebol russo. Não fosse a distância que separa as equipas no vasto território russo, seria apenas mais um jogo normal de uma liga onde se pratica bom futebol. No entanto, perante a ameaça de o jogo não se realizar devido à quantidade de neve que cobria o relvado do Estádio Dynamo, os adeptos de ambas as equipas resolveram deitar mãos à obra e conseguiram retirar toda a neve do terreno de jogo a tempo do apito inicial. No final, os homens da casa venceram por 2-1, mas o que fica para história e engrandece o futebol são momentos como este, em que os adeptos esquecem rivalidades e diferenças em prol do espetáculo que é, ou deveria ser, o futebol.
Histórias como esta há muitas no futebol russo, mas, na verdade, nem tudo são rosas no dia-a-dia da modalidade naquele que é o maior país do mundo. Durante a passada semana, algo de muito estranho, ou pelo menos inusitado, teve lugar na cidade de Yekaterinburgo nos Montes Urais.

Ural
Fonte: Ekburg.tv
Após uma pesada derrota no fim-de-semana passado diante o FC Terek por 4-1, o treinador do FC Ural, Vadim Skripchenko, entendeu que não tinha mais condições para continuar a comandar a equipa e apresentou a sua carta de rescisão ao presidente do clube, Grigoriy Ivanov. Até aqui tudo aparemente normal, mas na verdade há algo de muito pouco usual neste pedido de rescisão. O jogo diante da formação de Grozny foi um tanto ou quanto estranho e a atitude de alguns jogadores em campo deixou no ar o fantasma dos resultados combinados, algo que se suspeita ter acontecido anteriormente, quando ambas as equipas se defrontaram na SKB-Bank Arena durante a temporada passada. No final desse jogo, que teve lugar em Agosto de 2015 e que terminou com o resultado de 3-3, o técnico bielorrusso Viktor Goncharenko apresentou a sua demissão e não deixa de ser estranho que, um ano e uns meses depois, exactamente após o jogo com os mesmos intervenientes e também sob suspeita de resultados combinados, Vadim Skripchenko, também ele bielorrusso e antigo braço direito de Goncharenko, apresente a sua demissão, alegando problemas de saúde que o obrigariam a fazer uma cirurgia em Minsk com a maior brevidade possível.
Como se isto não bastasse para um romance digno da autoria de Nikolai Gogol, a bizarria adensou-se quando, dois dias após ter abandonado o cargo de treinador do FC Ural, Skripchenko, que supostamente carecia de uma intervenção cirúrgica urgente, assinou contrato com o FC Krylya Sovetov, de onde havia saído o ex-técnico do Sporting CP Frank Vercauteren, vítima da onda de maus resultados da equipa.
Por estranho que pareça, a história não acaba aqui. Após tomar conhecimento da decisão de Skripchenko, o presidente do FC, Ural Grigoriy Ivanov, veio a terreiro, envolvido num suposto manto de transparência, passar uma imagem de dama ofendida, alegando desonestidade por parte de Skripchenko, que, segundo ele, estava a negociar com o emblema de Samara desde já algum tempo a esta parte.

do FC Ural
Fonte: Aktualno.ru
Os contornos desta “tragicomédia” tornam-se ainda mais estranhos se atendermos ao facto de, no Sábado que passou, o FC Ural se ter deslocado a Samara para medir forças com, precisamente, o FC Krylya Sovetov. Skripchenko fez “o seu próprio dérbi”, gozando desde logo do privilégio de conhecer como ninguém a equipa adversária, que foi até ao fim-de-semana passado, a sua equipa. Na verdade, porém, tal “conhecimento” alheio não lhe serviu de muito, uma vez que a partida terminou empatada a dois golos e o seu FC Krylya Sovetov é cada vez mais último, gozando apenas da companhia do FC Tom Tomsk, que leva já quatro meses de salários em atraso.
Foi um jogo bem disputado, com um ligeiro ascendente dos homens da casa, que se viram desde cedo em desvantagem no marcador, quando o jovem Dmitri Korobov abriu a contagem para a formação do FC Ural. Os comandados de Skripchenko reagiram e o poderoso avançado bielorrusso Sergey Kornilenko marcou por duas vezes, deixando a formação de Samara em vantagem aos 65 minutos de jogo. No entanto, a festa durou pouco e aquele que poderia ter sido o começo de sonho para Vadim Skripchenko terminou num misto de desilusão e resignação, quando o antigo menino prodígio do futebol georgiano Giorgi Chanturia apontou o golo do empate a 17 minutos do final da partida.

Fonte: KC-Camapa
Desta história transparece, eventualmente, o facto de FC Ural e FC Terek se encontrarem envolvidos, em duas épocas consecutivas, em jogos recheados de acontecimentos quase paranormais, com golos na própria baliza, guarda-redes apáticos, defesas perdidos no campo e uma passividade, não menos bizarra, das equipas de arbitragem. Transparece também, ou porventura até não, a aparente falta de princípios de Vadim Skripchenko, que afinal não estava tão doente assim e a sua cirurgia urgente podia bem esperar até Dezembro, após a paragem de Inverno da Liga Russa. Por outro lado, ficamos certamente a pensar, que tal como o seu companheiro Viktor Goncharenko na temporada passada, que esteve “desaparecido” em território bielorrusso nos dias que antecederam à sua desvinculação do FC Ural, Vadim Skripchenko poderá eventualmente ter visto “a sua vida a andar para trás” e tratou por isso de elaborar um plano de “fuga”, que parecesse no mínimo consistente, até se ver a salvo por terras de Samara
Algo está mal no futebol russo, e estas tristes e ao mesmo tempo rocambolescas histórias servem-se, com alguma frequência, em bandeja de prata, naquele que foi outrora uma potência do futebol mundial. Do outro lado da barricada temos, porém, os adeptos que viajam milhares de quilómetros para limpar a neve do campo e um Yuri Semin, treinador do FC Lokomotiv Moscovo, que, na partida do passado Sábado, entre o emblema moscovita e a formação do FC Anzhi, o seu antigo clube, se dirigiu no final aos adeptos que viajaram do Daguestão até à capital russa para lhes fazer uma vénia de agradecimento pelo carinho que sempre lhe deram e recebeu, em troca, aplausos e muitas palavras de afecto.











