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Selecções de Portugal – o contraste entre gerações

Tiago Serrano · 5 min

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Cabeçalho Futebol InternacionalFinda a Taça das Confederações há que tirar ilações para o futuro. Pela primeira vez na história, a selecção nacional participou na Taça das Confederações, tendo terminado a competição num digno terceiro lugar.

No entanto eu fiquei com a impressão de que esta equipa podia ter dado mais, e de certeza não terei sido o único. Cair aos pés do bicampeão sul-americano não é motivo de vergonha, nada disso. Só que, em 120 minutos de jogo, vi uma equipa que não arriscou e que acabou por ser castigada por isso.

Após esta participação, há que realçar o facto de em 12 jogos disputados em fases finais, não perdemos nenhum no tempo regulamentar. Porém, em contrapartida, também vencemos apenas três desses 12 jogos no tempo regulamentar.

Estes resultados são o espalho da mentalidade conservadora e resultadista de Fernando Santos. No entanto, este “jogar para o resultado” deixa um vazio na qualidade de jogo da nossa equipa. E isto não é de agora.

Com isto não quero retirar nenhum mérito ou relevo ao título de campeão europeu conquistado no ano passado. Está quase a fazer um ano que foi escrita a página mais bonita da história do nosso futebol e ninguém retirará mérito a esta equipa, nem aos jogadores, nem ao Engenheiro Fernando Santos.

A Selecção de Esperanças mostrou um futebol positivo, apesar da eliminação precoce Fonte: Facebook Oficial de Podence
A Selecção de Esperanças mostrou um futebol positivo, apesar da eliminação precoce
Fonte: Facebook Oficial de Podence

A questão aqui é que a conquista do Europeu em França podia e devia servir de mote para aprofundar mais a visão face ao nosso futebol, mas não é isso que se está ver. Continuamos agarrados ao passado.

Continuamos a jogar um futebol conservador, com medo de correr riscos. Um futebol que consiste na anulação do jogo do adversário e no aproveitamento dos seus erros, mas que do ponto de vista ofensivo depende das iniciativas individuais dos nossos principais intérpretes. Em contrapartida nas nossas selecções jovens vê-se um modelo de jogo definido, principalmente na selecção de sub-21, onde a equipa orientada por Rui Jorge aborda os jogos com uma postura dominante e um futebol apoiado, modelo esse que está fixo na equipa, jogue quem jogar.

Este contraste entre o futebol da selecção A e o futebol das camadas jovens dificulta a transição dos nossos jovens valores para a selecção principal e causa um desalinhamento de ideias entre a selecção A e as selecções jovens. E pela primeira vez na nossa história, tivemos uma competição secundária entre um Europeu e um Mundial que poderia servir como teste para tomar essa visão mais profunda e começar a preparar o futuro.

Preparar o futuro em dois sentidos: primeiro, para testar uma nova abordagem ao jogo mais dominante e corajosa, com o intuito de assumir o jogo e que pudesse servir de base para o futuro. E segundo, para chamar jogadores jovens que pudessem servir como opções para o futuro, de modo a que estes ganhassem experiência internacional, ficando mais preparados para o Mundial do próximo ano. No entanto, entre os jogadores novos chamados, apenas André Silva e Bernardo Silva (que só falhou o Europeu do ano passado devido a lesão) tiveram oportunidades reais para mostrarem o seu valor e o que podem acrescentar à equipa de Fernando Santos.

Essa é a outra questão que me preocupa e que também está associada a este contraste. É que em vez de dar “bagagem” a outros jovens jogadores, Fernando Santos prefere apostar numa política de continuidade, assente na manutenção dos jogadores que o próprio escolheu como referências.

Ronaldo e Bernardo – o presente e o futuro da selecção Fonte: Selecções de Portugal
Ronaldo e Bernardo – o presente e o futuro da selecção
Fonte: Selecções de Portugal

No Verão do próximo ano, Bruno Alves terá 36 anos, Pepe terá 35, José Fonte e Quaresma terão 34, Cristiano Ronaldo terá 33, João Moutinho e Nani terão 31. E caso estes jogadores joguem regularmente na próxima época, será que eles terão a frescura física necessária para disputar uma competição tão exigente como um Mundial, após dois anos sem férias?

A forma como os últimos campeões mundiais se comportaram na hora de revalidarem o título (França, Brasil, Itália e Espanha) é a prova de que a conquista de uma competição não alimenta mais o futuro do que o estabelecimento de um plano a longo prazo. E na nossa selecção, a aposta nessa política de continuidade também já deu maus resultados nos Mundiais de 2002 e 2014, embora nesses casos houvessem outros problemas.

No entanto, o facto disso já ter sucedido também comprova que este problema não é de agora. Aliás, desde que me lembro de acompanhar a nossa selecção, Luiz Felipe Scolari foi o único seleccionador preocupado com a renovação constante da sua equipa.

Apesar de Felipão também ser um treinador “resultadista”, sempre se preocupou em renovar gradualmente a sua equipa. E mais importante que isso, era um treinador que não olhava para o estatuto dos jogadores e apostava em quem entendia. Aí, também contrasta com Fernando Santos, que apesar de supostamente defender a mesma visão de apostar em quem está em melhor forma, na competição insistiu em apostar em jogadores como Nani e André Gomes.

Eu sei que conquistámos um Campeonato da Europa a jogar um futebol conservador, mas isso não significa que ganhemos sempre a jogar assim. E como tal eu não quero que isso seja regra de uma selecção que outrora era uma referência do bom futebol. Eu sei que no tempo da Geração de Ouro não ganhámos nada, mas, por exemplo, a selecção do Chile implementou uma cultura e uma ideia de jogo e com a mesma, conseguiu mais feitos nesta década do que em toda a sua história.

Onde eu quero chegar com isto tudo é que para acabar com estes contrastes entre gerações, há que deixar de ter medo de arriscar. Há que apostar num futebol com mais iniciativa, há que apostar mais regularmente em jogadores que dão mais imprevisibilidade e virtuosismo à equipa como Gelson Martins, bem como em outros que se destacaram neste Europeu de sub-21 como Edgar Ié, Bruno Fernandes, Podence, Bruma e Gonçalo Guedes.

E repito: não quero retirar mérito algum à conquista do Campeonato da Europa com aquilo que disse. O que eu quero acima de tudo é que a maior conquista da nossa selecção sirva de base para o futuro, de modo a que se possam criar condições para potencializar o nosso futebol e os nossos jogadores, para construir uma geração vencedora no futuro. E temos matéria-prima para isso.

Foto de Capa: Facebook Oficial de Pizzi

artigo revisto por: Ana Ferreira

 

Tiago Serrano

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