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A Croácia é uma das boas seleções do futebol europeu desde que alcançou a independência da Jugoslávia, em 1991. Não sendo nenhuma grande potência como Alemanha ou Espanha, os croatas têm sido presença constante nas grandes competições de seleções. Em Europeus, vão para a sua quinta participação em seis possíveis. As melhores prestações foram conseguidas em 1996, ano de estreia, e em 2008, com presenças nos quartos de final.
Já se ampliarmos o raio de análise aos Mundiais, verificamos que desde o Euro’96, os balcânicos apenas falharam dois grandes torneios de seleções: o Euro’2000 e o Mundial’2010, ambos em clara fase de “transição de gerações”. De todas estas participações, fica na retina o brilhante terceiro lugar alcançado no Mundial de França, em 1998. Após garantir a passagem da fase de grupos, em conjunto com a Argentina, a Croácia, orientada na altura por Miroslav Blazevic, derrotou a Roménia nos oitavos de final e deu uma tareia aos alemães. Despachou os germânicos por 3-0 e só caiu aos pés da seleção anfitriã, perdendo por 2-1, num jogo marcado por dois golos do improvável Lilian Thuram. Além disso, o melhor marcador da competição foi um croata, Davor Suker, com seis golos apontados. Agora, voltam ao palco onde foram felizes há 18 anos. O atual presidente da federação é precisamente Davor Suker, o goleador do França’98.
Na fase de qualificação para este Europeu, a Croácia viu-se envolvida no Grupo H, juntamente com Itália, Noruega, Bulgária, Azerbaijão e Malta. Aparentemente, os croatas eram, juntamente com os italianos, os principais favoritos às duas vagas de apuramento direto, contudo, a tarefa foi bastante dificultada pela seleção nórdica, que terminou a um ponto dos croatas. A equipa balcânica, ainda orientada por Niko Kovac, teve um início bastante positivo com quatro vitórias e um empate (com a Itália) nos primeiros cinco jogos. Além disso, duas dessas vitórias foram goleadas a Azerbaijão e Noruega.
A segunda volta da qualificação começou com mais um empate frente aos italianos, um resultado até positivo, mas o empate com o Azerbaijão e o desaire na Noruega fizeram a equipa cair para o terceiro lugar do grupo e levaram à saída do selecionador Niko Kovac. Veio Ante Cacic para o seu lugar e os “axadrezados” venceram as duas últimas partidas, frente a Bulgária e Malta. Para garantirem a qualificação direta, os croatas precisaram da derrota da Noruega em Itália, num jogo em que os italianos consumaram a reviravolta apenas aos 82 minutos. Foi, por isso, uma qualificação tirada a ferros para a equipa nacional da Croácia. O principal destaque neste período foi Ivan Perisic, que marcou seis golos e fez três assistências nos nove encontros em que participou na fase de apuramento.
A zona do meio campo é a mais forte desta seleção. Aliás, devo mesmo dizer que acho que o setor intermédio da Croácia é dos mais fortes da competição. Quem tem jogadores em quantidade e qualidade como Badelj, Modric, Rakitic, Kovacic, Brozovic, Antolic ou Halilovic, tem uma dor de cabeça daquelas que os treinadores gostam. O meio campo croata pode assumir várias formas. Penso que em jogos mais equilibrados ou contra adversários teoricamente mais fortes, com um meio campo de qualidade, como por exemplo a Espanha, adversária na última jornada da fase de grupos, o melhor esquema terá sempre Milan Badelj como referência mais recuada, atrás de Modric e Rakitic. Podem ser questionadas as ausências de Brozovic ou Kovacic, mas um meio campo com um destes elementos a fazer companhia aos indiscutíveis do Real Madrid e do Barcelona, teria muita qualidade técnica, mas menor capacidade defensiva e agressividade no momento da recuperação de bola.
Outro ponto forte dos croatas é a facilidade que têm em colocar cinco ou seis jogadores nos últimos 30/40 metros, durante o processo ofensivo, e esses mesmos jogadores são depois importantes pela pressão que fazem quando o momento ofensivo passa para um momento defensivo.
A escassez de opções de qualidade no setor defensivo é o principal problema da Croácia. Além de ser o setor onde existem menos soluções no país, tem passado por alguma indefinição e dificuldade em cimentar um quarteto de qualidade nos últimos anos. Pletikosa, o histórico guarda redes da última década, foi substituído por Subasic, a partir da qualificação para este torneio. Apesar de tudo, o guarda redes do Mónaco é seguro, e não será por aí que a Croácia sentirá grandes problemas. A Croácia tem também, neste momento, dois excelentes laterais direitos, de gerações diferentes. Srna, o histórico capitão do Shakhtar Donetsk e da seleção, é uma figura intocável, até porque mantém quase intactas as suas principais qualidades: fecha bem o seu flanco, continua a apoiar o ataque com bons cruzamentos e superior eficácia na execução das bolas paradas. O outro lateral direito de qualidade é Sime Vrsaljko, que está no Sassuolo, mas é pretendido por vários “tubarões” do futebol europeu, sendo quase certa a sua mudança de ares neste verão. Sendo conhecido pela sua enorme disponibilidade física e qualidade ofensiva, Vrsaljko poderá ser desviado para a lateral esquerda, que não lhe é totalmente desconhecida, dado que Pivaric, lateral mais utilizado por Cacic naquele flanco, vai falhar o Euro por lesão. Também não será pelas laterais, caso joguem Srna e Vrsaljko, que a Croácia sofrerá muito. Na minha opinião, o grande problema está no centro. Ainda existem dúvidas sobre a convocatória ou não, e em que condições, de Lovren, depois de uma troca de palavras e de um ultimato feito ao selecionador através da imprensa, sendo que Corluka e Vida serão assim as opções naturais para o lugar. O problema é que ambos são algo “duros de rins” e, perante atacantes rápidos, os croatas poderão sentir problemas.
Outro potencial problema poderá ser, como já referi acima, o trabalho defensivo no meio campo. Também para precaver as fragilidades defensivas, penso que é fulcral a titularidade de Milan Badelj, o médio croata que defende melhor. Além de proteger a defesa, poderá fazer com que Rakitic e Modric se soltem mais no jogo. No Barcelona, Rakitic joga com a segurança de ter Busquets nas suas costas. No Real Madrid, vimos esta época que, desde as entradas de Zinedine Zidane para o comando técnico e Casemiro para o meio campo, a qualidade de Modric teve uma evolução bastante positiva. O ponto fraco residirá numa eventual ausência de Badelj. Não há mais ninguém no meio campo com a qualidade que ele oferece no momento defensivo e isso poderá ser problemático para os croatas.
OS CONVOCADOS
Guarda-redes – Danijel Subasic (Mónaco), Lovre Kalinic (Hajduk Split), Ivan Vargic (Rijeka)
Defesas – Darijo Srna (Shakhtar Donetsk), Vedran Corluka (Lokomotiv Moscovo), Domagoj Vida (Dínamo Kiev), Dejan Lovren (Liverpool), Gordon Schildenfeld (Dínamo Zagreb), Sime Vrsaljko (Sassuolo), Tin Jedvaj (Bayer Leverkusen), Marko Leskovic (Rijeka)
Médios – Luka Modric (Real Madrid), Ivan Rakitic (Barcelona), Mateo Kovacic (Real Madrid), Marcelo Brozovic (Inter de Milão), Milan Badelj (Fiorentina), Domagoj Antolic (Dínamo Zagreb), Alen Halilovic (Sporting Gijón)
Avançados – Ivan Perisic (Inter de Milão), Nikola Kalinic (Fiorentina), Mario Mandzukic (Juventus), Marko Pjaca (Dínamo Zagreb), Andrej Kramaric (Hoffenheim)
O TREINADOR

Fonte: UEFA
Ante Cacic é o atual selecionador da Croácia. Em termos de carreira, Cacic é um desconhecido para a maioria dos adeptos do futebol, dado que nunca foi jogador profissional e apenas teve como pontos altos na carreira os títulos nacionais alcançados pelos crónicos campeões de Croácia e Eslovénia: Dínamo Zagreb e Maribor, respetivamente. Ao serviço da seleção, Cacic tem um trajeto curto até ao momento, dado que foi Niko Kovac, atualmente no Eintracht Frankfurt, que orientou a equipa na maior parte da fase de qualificação. O atual treinador estreou-se apenas em outubro do ano passado, tendo orientado a equipa nacional em duas partidas oficiais (vitórias frente a Bulgária e Malta) e três amigáveis (vitórias frente a Rússia e Israel, empate na Hungria). Por isso, penso que ainda é prematuro dizer se é uma boa solução para orientar o combinado balcânico. No que toca a esquemas táticos, Ante Cacic parece estar a trabalhar dois modelos, em 4-3-3 e 3-5-2. Porém, o modelo preferencial deve ser o 4-3-3, com Modric e Rakitic a orientarem o meio campo. Penso que Badelj é a opção mais acertada para jogar na posição mais recuada do meio campo e Pjaca será a companhia de Perisic e Mandzukic no trio atacante. Na defesa, Vrsaljko, lateral direito do Sassuolo, deverá assumir o lado esquerdo, devido à lesão de Pivaric. A utilização de Vida como lateral, com Lovren na posição central, também é uma hipótese, mas um recente desaguisado com o selecionador Cacic poderá retirar a titularidade ao defesa do Liverpool.
OS MELHORES JOGADORES

Fonte: UEFA
Basicamente, esta equipa croata é bem mais forte do meio campo para a frente, e essa força assenta em quatro pedras fundamentais: Modric, Rakitic, Perisic e Mandzukic. Estes últimos dois são jogadores muito fortes na finalização e, sendo bem servidos pelo forte meio campo croata, podem ser absolutamente mortíferos. Já os dois médios são bastante completos: têm muita experiência ao mais alto nível, dado que são titularíssimos em duas das melhores equipas do Mundo, são muito fortes com a bola nos pés, têm bastante capacidade técnica, que usam para dribles importantes e assistências fatais. Também são muito competentes a nível defensivo, ainda que nenhum deles possa fazer o papel de referência mais recuada no meio campo. Da ligação entre estes quatro elementos sairá grande parte da produção da Croácia neste Euro’2016.
Por fim, parece-me que esta geração está, digamos, “no ponto de rebuçado”. Luka Modric, com 30 anos, é titularíssimo no Real Madrid; Ivan Rakitic, com 28 anos, é titularíssimo no Barcelona; Ivan Perisic, com 27 anos, é um dos principais jogadores do Inter de Milão; Mario Mandzukic, com 29 anos, continua a mostrar o seu apurado faro pelo golo ao serviço da Juventus.
O JOGADOR A SEGUIR

Fonte: Facebook de Marko Pjaca
Neste ponto, vou escolher Marko Pjaca. É um jogador que pode fazer várias posições no ataque, sendo que, preferencialmente, atua como extremo esquerdo. É especialmente forte quando tem uma nesga de espaço para poder jogar com o pé diretio, o que o torna mortífero quando faz movimentos diagonais a partir da ala esquerda. Nesses lances, o remate ou a “tabelinha” com o avançado podem ser perigosos para as defesas adversárias. Como referi, também pode jogar a partir da ala direita. Nesse caso, poderá fazer uso da sua enorme capacidade no 1×1 para ganhar a linha e colocar bolas à disposição de Perisic e Mandzukic. Devido às características de Perisic, penso que é na direita que Pjaca poderá atuar mais vezes, porém, isto não inviabiliza que ambos troquem de flanco durante os encontros, confundindo assim as marcações dos adversários. Quando está na área, não lhe pode ser permitido rematar, porque, na maior parte das ocasiões, resultará em golo, tendo em conta a sua elevada capacidade no remate, seja num disparo elaborado ou sem tempo para grande preparação. Este jovem de 21 anos está já na sua terceira temporada a alto nível no principal campeonato croata, a segunda no Dínamo Zagreb, após ter despontado no NK Lokomotiva. Penso que, após o Europeu, será tempo para sair para campeonatos mais competitivos. Pretendentes não faltarão para o jogador. Inclusivamente, foi referenciado nos últimos dias o interesse do Benfica. Contudo, será quase impossível a concretização do negócio. Primeiro, porque o representante de Pjaca já veio dizer que o jovem quer ir para uma das quatro principais ligas europeias. Depois, porque para comprar o passe de Pjaca, já deverá ser preciso chegar a valores na ordem dos 15/20 milhões de euros.
ATÉ ONDE PODE IR A SELEÇÃO
A Croácia está inserida no Grupo D, juntamente com Turquia (primeiro adversário), República Checa (segundo adversário) e Espanha (terceiro adversário). Se normalmente já são praticamente decisivos os resultados dos primeiros jogos, no caso croata ainda serão mais. Não é aconselhável à seleção dos Balcãs deixar decisões pendentes para o jogo frente à ainda campeã europeia Espanha. Penso que, sendo a Espanha favorita ao primeiro lugar, a Croácia parte à frente de República Checa e Turquia na corrida ao outro posto de apuramento. Contudo, é preciso que os croatas estejam ao seu melhor nível pois os turcos são sempre uma equipa muito aguerrida e complicada de bater nesse aspeto, enquanto os checos podem ser superiores caso a Croácia entre com alguma descompressão no jogo.
É absolutamente necessário que os croatas imponham a sua forma de jogar de um modo autoritário e sério, para não correrem o risco de ficarem pela fase de grupos. Depois da fase de grupos, caso a Croácia se qualifique, as suas hipóteses dependerão muito do rendimento apresentado pela equipa, em comparação com os seus adversários. Como sabemos, em competições curtas, o fator psicológico poderá ser decisivo. E nesse campo, os croatas poderão ter alguma vantagem em relação a outras seleções, pois a maioria dos seus jogadores já esteve em torneios internacionais de seleções e a espinha dorsal da equipa é constituída por vários elementos experientes.
Caso passem em primeiro, os croatas defrontarão um dos terceiros classificados. Caso passem em segundo lugar, defrontarão o vencedor do grupo E, que conta com Itália, Bélgica, Suécia e República da Irlanda. Assim sendo, penso que ultrapassar a fase de grupos será o objetivo mínimo, chegar aos quartos de final já poderá ser considerado bastante positivo, chegar às meias finais já me parece mais difícil. Veremos o que esta geração croata é capaz de nos oferecer num dos torneios onde alimenta mais expetativas aos seus adeptos.
Foto de capa: Hrvatskimedijskiservis













