Se o talento ganhasse sempre…

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Apesar de ser indicada por muitos analistas como uma das possíveis surpresas da prova e a mais provável segunda classificada do seu grupo, a Bósnia não se apurou para os oitavos-de-final do Mundial. Os três pontos que amealhou, na última jornada da fase de grupos, diante do Irão foram os únicos conseguidos durante toda a prova, o que costuma ser fatal (como foi) num Mundial.

Na génese deste “falhanço” não me parecem estar limitações de ordem técnica ou de profundidade de plantel. Do meio-campo para a frente, a equipa depara-se com uma autêntica praga de jogadores de qualidade, começando no “cérebro” Pjanic. Um 10 à antiga, capaz de manobrar todo o processo ofensivo no último terço do terreno com relativamente pouco espaço, contribuindo, para tal, com a ajuda de um nº9 dinâmico e bastante versátil – Edin Dzeko. Apesar de ser morfologicamente apontado para jogar como avançado mais posicional (1,93 metros, 84 quilos) e ser capaz de o fazer com a qualidade de um jogador de topo, é também capaz de recuar e auxiliar a construção ofensiva, sabendo explorar alas onde também militam jogadores de qualidade técnica indiscutíveis como Lulic ou Hajrovic. O primeiro é já experiente, muito versátil e funciona de forma fantástica principalmente se contar com espaço para embalar em velocidade (daí o facto de ser utilizado tanto a lateral como a extremo); o segundo é um jogador capaz de dar verticalidade ao jogo bósnio, com diagonais que permitem a penetração do lateral (normalmente direito) que joga atrás de si.

Para além destes jogadores, habituais titulares, há que contar com o virtuosismo de Misimovic (32 anos mas muito talento nos pés, provando que “quem sabe nunca esquece”), a inteligência de Ibisevic (um goleador… operário) e a assertividade no passe de jogadores como Susic ou Besic, ideais para jogar em 4x3x3. No entanto, estes dois últimos têm de ser trabalhados a nível mental, em particular Besic, que é um espelho perfeito daquilo que é a selecção Bósnia: talento desmedido e “ganas de vencer”, mas fraco poder mental quando é necessário tê-lo. Besic, tal como a sua selecção, é muito jovem (21 anos), e apesar de ser habitualmente usado numa zona bastante baixa do terreno, tem talento e potencial para explorar zonas mais adiantadas – tal e qual a cotação do seu país no panorama futebolístico. Basta redireccionar a agressividade para lances em que esta seja mesmo necessária, e controlá-la para que não o comprometa em situações cruciais do jogo… O que foi exactamente o que aconteceu à Bósnia no encontro decisivo frente à Nigéria.

A seleção da Bósnia venceu apenas um jogo e foi eliminada do Mundial'2014 Fonte: FIFA
A seleção da Bósnia venceu apenas um jogo e foi eliminada do Mundial’2014
Fonte: FIFA

Até sofrer o golo que sentenciou o encontro, a equipa conseguiu construir jogo com relativa facilidade e chegou a colocar, de forma regular (mas invalidada pelo árbitro), a bola dentro da baliza contrária. Mas a partir do momento em que surgiu a adversidade (golo nigeriano), passou-se a fazer uma corrida desenfreada e sem critério à baliza contrária que, até aos descontos, em nada resultou. Na fase de desespero, logrou um remate ao poste graças a algum demérito nigeriano, mas até lá foi travada pela racionalidade de um conjunto de jogadores que sabem o que é jogar uma grande competição e ter o país às costas.

Foi uma mentalidade jovem e inexperiente que, nesse jogo, cravou, nos anais da história, a fase de grupos como ponto final na primeira participação da Bósnia numa grande competição. Mas há margem para crescer – se o talento, sozinho, ganhasse jogos, esta equipa seria presença confirmada nas fases decisivas do Mundial.

Pedro Machado
Pedro Machado
Enquanto a França se sagrava campeã do mundo de futebol em casa, o pequeno Pedro já devorava as letras dos jornais desportivos nacionais, começando a nascer dentro dele duas paixões, o futebol e a escrita, que ainda não cessaram de crescer.                                                                                                                                                 O Pedro não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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