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Estará na hora de passar o testemunho?

Tiago Serrano · 4 min

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Terminou a aventura da equipa das quinas na Rússia e o que é facto é que a prestação da selecção campeã europeia foi bastante discreta, tanto em termos de resultados como em termos de futebol jogado em si.

Pessoalmente, eu acredito que o público português no geral defende que o seleccionador Fernando Santos merece uma segunda oportunidade e ainda tem algum crédito devido à conquista do europeu. No entanto, nos espaços informativos sobre futebol existentes na televisão, nos jornais e nas redes sociais, foram raros os comentários ou crónicas em que não havia críticas dirigidas ao Engenheiro.

E a verdade, é que os tempos mudam e o nosso futebol cresce, mas a selecção de todos nós teima em repetir erros cometidos em Mundiais anteriores e que acabam por ter papel influente no desenrolar da competição, nomeadamente, a célebre aposta na política de continuidade. E quanto a isso, o Senhor Engenheiro não pode ficar isento de responsabilidades.

José Fonte mostrou que já não tem andamento para este nível competitivo
Fonte: Selecções de Portugal

Começando a olhar para a convocatória, até se verificaram algumas melhorias em relação aos mundiais de 2002 e 2014, com a presença de seis jogadores com uma idade máxima de 23 anos. Por outro lado, persiste a aposta nalguns jogadores que mostraram que já não têm andamento para este nível competitivo, principalmente o caso de José Fonte, que joga no penúltimo classificado da Superliga chinesa. A aposta teimosa em Cedric Soares, quando temos um lateral-direito no campeão espanhol e outro que foi o melhor lateral direito da Seria A e acabou de se transferir para o hepta-campeão italiano, também é bastante questionável.

Depois, é particularmente importante que o treinador tenha um modelo moldável, que se ajuste às características dos jogadores que tem à disposição e foi aqui que a aposta na continuidade mais se notou. Fernando Santos repetiu o mesmo erro de Paulo Bento em 2014 ao tentar replicar ao máximo o modelo que o fez chegar ao céu em 2016: um modelo em que a equipa abdica da posse de bola e entrega a iniciativa de jogo ao adversário.

O problema aqui é que vários jogadores da equipa nesta época estiveram longe de ter o mesmo desempenho que tiveram há duas épocas atrás, tais como Adrien Silva, João Mário, José Fonte e Raphael Guerreiro. E a quebra de forma desses jogadores resultou numa significativa perda de eficiência desse mesmo modelo, situação que se verificou principalmente na defesa em que a mesma linha defensiva que há dois anos atrás defendia de forma exemplar, passou a cometer sucessivos erros defensivos que nos custaram a eliminação precoce da competição. No entanto, o mais preocupante nem é o que se viu nos jogadores campeões europeus na Rússia, mas sim naqueles que entraram recentemente na selecção, entre os quais Bernardo Silva, que falhou o Europeu devido a lesão.

Há uns anos atrás, com o investimento da FPF nas camadas jovens da selecção nacional, esta começou a ter uma maior preocupação com a evolução dos nossos jovens atletas e com isso, os treinadores das selecções jovens começaram a meter as suas equipas a praticarem um futebol positivo, que permita aos jogadores recriarem-se com a bola nos pés e explorarem as suas potencialidades.

E o que se viu neste Mundial foi jogadores como Bernardo Silva e Gonçalo Guedes a não encaixarem no modelo “ultracongelado” de Fernando Santos. E isto não acontece por falta de qualidade dos jogadores, acontece simplesmente porque o modelo não os favorece, não explora as suas potencialidades.

E agora que acabámos de acolher a geração que se sagrou vice-campeã europeia de sub-21 em 2015, acho que esta era a melhor altura para Fernando Santos passar o testemunho. E passa-lo a quem? Na minha opinião, não existe ninguém mais indicado do que Rui Jorge.

O actual seleccionador de sub-21 está identificado com o processo e a identidade levada a cabo pelas selecções jovens e conhece a geração de jogadores que estão na calha para chegaram à selecção A. Para além do mais, é um treinador que já assumiu publicamente que não se contenta em simplesmente, ganhar. Procura sempre ganhar, jogando sempre um futebol positivo e agradável para os adeptos.

João Mário tem sido uma miragem daquele que se mostrou no Sporting CP e no Europeu
Fonte: Selecções de Portugal

Para além do mais, a aposta num seleccionador já identificado com o processo encabeçado pela federação começa a ser uma aposta comum em vários países. Joachim Low era o adjunto de Jurgen Klinsmann na selecção alemã e quando assumiu o barco após o Mundial de 2006, implementou um modelo que tem vindo a ser renovado ao longo dos anos e que tem tido sucesso no futebol mundial (apesar da prestação decepcionante na Rússia). E esse modelo tem começado a ser adoptado noutras selecções. A Federação espanhola apostou em Julen Lopetegui após este ter sido campeão europeu em sub-19 e sub-21. A Federação inglesa apostou em Gareth Southgate após dois anos na selecção de sub-21. E como tal, acho que esta era a altura certa para passar o testemunho a Rui Jorge.

Com certeza que muitos adeptos (pelos quais tenho o máximo respeito e compreensão) defendem a continuidade de Fernando Santos por este ainda ter crédito com a conquista do Europeu, mas eu cá contrario: é exactamente pelo Sr Engenheiro ainda ter crédito que considero que esta é a melhor altura para ele colocar o seu lugar à disposição. Porque caso saia agora, ainda sai por uma porta grande. Mas se ele não deixar o seu conservadorismo de lado e se mantiver fiel ao seu modelo de jogo “ultracongelado”, esse cenário pode mudar de figura após o próximo Europeu.

Como tal, fico eternamente grato a Fernando Santos por nos ter levado ao topo ao futebol europeu, mas não o quero ver a “queimar” uma das gerações mais talentosas do futebol português.

Foto de Capa: UEFA

Tiago Serrano

Redação Bola na Rede · ver artigos