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Portugal | Jesus começa sem revolução

Raul Saraiva · 6 min

Jorge Jesus, Portugal
Foto: FPF

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Assim sendo, para quem esperava uma rutura com a lógica de estatutos instalada na Seleção de Portugal, esta primeira lista é algo dececionante

Jorge Jesus anunciou, esta sexta-feira, a primeira convocatória como selecionador nacional. O novo treinador de Portugal chamou 25 jogadores para o arranque da Liga das Nações, numa paragem internacional particularmente exigente, com quatro jogos no espaço de dez dias. A estreia acontece diante do País de Gales, em Alvalade, a 24 de setembro, seguindo-se deslocações à Noruega, a 27, e à Dinamarca, a 1 de outubro. A primeira série de compromissos termina a 4 de outubro, novamente frente à Noruega, desta vez no Estádio do Dragão.

Ora, para contextualizar, antes do anúncio, a expectativa dividia-se entre a vontade dos adeptos de ver uma mudança profunda e o aviso do próprio Jesus de que não haveria tempo para grandes revoluções.

Recorde-se que, em entrevista ao Canal 11, o novo selecionador já tinha antecipado que não se afastaria muito dos nomes chamados para o Mundial. “Não há muito tempo para mudar nem há um leque tão grande de jogadores nesta altura. Não vou fugir muito daqueles que foram convocados [para o Mundial]. Dois ou três novos, algo desse género”, afirmou, na altura. Acertou no essencial e talvez seja precisamente essa a principal questão.

Assim sendo, para quem esperava uma rutura com a lógica de estatutos instalada na Seleção de Portugal, esta primeira lista é algo dececionante, uma vez que Jorge Jesus não revolucionou, pelo menos para já.

João Palhinha, Nuno Tavares e Fábio Silva regressam e todos têm argumentos para isso. Palhinha oferece, desde logo, características diferentes (e que fizeram falta no Mundial) para o meio-campo, Nuno Tavares chega depois de um excelente arranque na Lazio (no fim de semana passado, Gennaro Gattuso disse mesmo que o lateral “tem nível para jogar no Real Madrid”) e Fábio Silva tem estado em evidência no Borussia Dortmund. Samuel Soares é a única estreia, depois de conquistar a titularidade no Benfica, mas, em princípio, dificilmente terá oportunidade para jogar nesta primeira fase.

Por conseguinte, a continuidade acaba por ser a nota dominante. Diogo Costa e Rui Silva mantêm-se na baliza, com Samuel Soares a completar o lote. Na defesa, Jesus conserva praticamente toda a estrutura que esteve no Mundial. Rúben Dias, Tomás Araújo, Gonçalo Inácio e Renato Veiga continuam, enquanto João Cancelo e Diogo Dalot ocupam novamente o lado direito e Nuno Mendes mantém o seu lugar à esquerda.

É aqui que surgem algumas das primeiras interrogações. Matheus Nunes ficou de fora e, olhando para o rendimento apresentado, é difícil perceber a decisão. O lateral do Manchester City tem, claramente, argumentos para estar acima de Dalot neste momento. Tiago Santos ou Alberto Costa seriam opções mais arrojadas, mas justamente por isso poderiam representar um sinal de mudança. Adicionalmente, Eduardo Quaresma, António Silva e Tiago Gabriel poderiam ter entrado na discussão no centro da defesa, enquanto Flávio Nazinho, pelo que tem mostrado no Mónaco, também é um nome a ter em atenção. Ainda assim, Nuno Tavares acaba por ser a escolha mais fácil de justificar entre as novidades defensivas, até porque já trabalhou com o agora selecionador nacional.

O meio-campo talvez seja o setor onde a convocatória mais contraria as expectativas criadas pelo próprio Jorge Jesus. Na sua apresentação, o novo selecionador tinha dado a entender que as soluções utilizadas no Mundial não tinham sido suficientes, mas a fotografia pouco se alterou. Palhinha entra por Samu Costa e os restantes nomes permanecem: Rúben Neves, Vitinha, João Neves, Bernardo Silva e Bruno Fernandes.

Bruno Fernandes Jogadores Portugal
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Mateus Fernandes continua de fora e essa ausência é difícil de enquadrar numa convocatória que deveria começar a preparar o futuro, até porque a Liga das Nações devia, acima de tudo, servir para isso. Para experimentar, testar soluções e começar a construir uma equipa que chegue ao próximo Europeu e ao próximo Mundial com um modelo consolidado. Deste modo, quatro jogos nesta paragem davam margem para Jesus convocar mais jogadores e observar diferentes perfis, mesmo que alguns tivessem de passar boa parte do estágio “apenas” a treinar.

No ataque, as escolhas levantam ainda mais discussão. Pedro Neto e Francisco Conceição chegam com o argumento da boa forma. Rafael Leão, pelo contrário, é uma presença que gera dúvidas, nomeadamente depois da mudança para a Turquia. Ao mesmo tempo, Flávio Gonçalves tem sido uma das sensações do arranque de época, Rodrigo Mora poderia justificar uma oportunidade e Carlos Forbs tem somado golos e assistências na Bélgica.

Além disso, Cristiano Ronaldo continua e, sinceramente, não há grande discussão a fazer sobre isso. Já se percebeu que só sairá quando ele próprio entender que chegou o momento. A verdadeira questão será perceber o que Jesus fará com ele. Gonçalo Ramos e Fábio Silva também estão nos convocados e o novo selecionador terá de encontrar uma forma de encaixar estes elementos num sistema que, até agora, permanece uma incógnita.

Cristiano Ronaldo
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Neste contexto, é essa incógnita que me interessa mais do que a própria lista, já que, quaisquer que fossem as escolhas, a discussão sobre os convocados seria sempre interminável. Uns entendem que a Seleção deve privilegiar quem joga nas principais ligas e quem já está habituado a trabalhar com o selecionador nacional, outros defendem jogadores, porventura de campeonatos menos mediáticos, com base sobretudo no momento de forma. Posto isto, o debate vai sempre haver, mas é bom lembrar que o principal problema de Roberto Martínez não esteve propriamente nos nomes que escolhia, mas na incapacidade de construir uma identidade coletiva.

Isto porque Portugal tinha talento suficiente para jogar melhor, mas raramente se percebeu um conceito que colocasse as características dos atletas ao serviço de um verdadeiro coletivo. Logo, é aí que está a grande esperança depositada em Jorge Jesus, isto é, que consiga fazer a Seleção jogar de uma forma coerente com aquilo que tem à disposição, que crie dinâmicas capazes de potenciar os melhores jogadores e que devolva algum entusiasmo a quem vê Portugal.

Por isso, a forma como Jesus vai montar a equipa será muito mais reveladora do que esta primeira convocatória. Será um 4-4-2 (eventualmente, losango)? Um 4-1-3-2? Onde e como vai jogar Bruno Fernandes? Que funções terão Vitinha e João Neves? E Bernardo Silva? Como será utilizada a presença de Cristiano Ronaldo perante Gonçalo Ramos e Fábio Silva? Fará dupla com João Félix?

São perguntas que, à primeira vista, não têm resposta nesta lista de convocados, pelo que Jorge Jesus terá quatro jogos para começar a encontrá-la. Também por isso, a Liga das Nações não deve ser encarada apenas como uma competição para gerir estatutos, mas, isso sim, para fazer crescer uma ideia e um modelo de jogo que faça o coletivo sobrepor-se às individualidades.

Jorge Jesus
Fonte: Pedro Barrelas / Bola na Rede

No fundo, a primeira convocatória de Jorge Jesus trouxe um estreante, três regressos e poucas trocas relativamente ao ciclo anterior. A espinha dorsal mantém-se praticamente intacta, sendo que Portugal continua, inclusive, com quatro nomes a atuar na Arábia Saudita e acrescenta Rafael Leão, agora na Turquia, enquanto vários jovens continuam remetidos aos sub-21 de Luís Freire.

E, aliás, a lista de jogadores que ali permanece é demasiado interessante para ser ignorada. Daniel Banjaqui, Martim Fernandes, Tiago Gabriel, Dário Essugo, Mateus Fernandes, Mathias de Amorim, Mezian Soares, Rodrigo Mora, Afonso Moreira, Carlos Forbs, Flávio Gonçalves, Geovany Quenda e  Rafael Nel são nomes que representam boa parte da expectativa em torno do futuro da Seleção.

Em suma, depois de uma era inteira com Roberto Martínez, era natural esperar uma lufada de ar fresco. Essa expectativa esbarrou rapidamente numa lista muito mais conservadora do que aquilo que muitos desejavam. Não significa, contudo, que Jesus esteja condenado a repetir o passado.

Jorge Jesus
Fonte: Ana Beles / Bola na Rede

Portanto, agora falta perceber se Jorge Jesus consegue fazer aquilo que a convocatória, por si só, ainda não mostrou, ou seja, construir uma Seleção com identidade, meritocracia e uma ideia de jogo capaz de devolver entusiasmo aos portugueses.

Raul Saraiva

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