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5 curiosidades sobre o Euro | Euro 2020

Marta Rebelo · 5 min

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10 de julho. 2016. Lisboa. Empregada de mesa. Estes eram os dados com que jogava grande parte da sorte das minhas 24 horas há cinco anos atrás. Não fosse a sorte já muita na altura, tive nesse dia como gerente responsável de turno um ferrenho adepto de futebol.

Ao entrar o Éder, corri o restaurante que nem louca, clamando do alto da nossa inocência que agora é que estava tudo perdido. Depois do golo que nos deixou a todos perplexos, e a exatamente três minutos do fim, cheguei perto do Miguel e disse “chefe, sabes que se isto acontecer vou ter de abandonar o posto e ir lá fora à esplanada da concorrência abraçar toda a gente, não sabes?”. Estamina e uma vital dose de loucura não faltavam a trabalhar, mas no que tocava a cumprir regras eu era a miúda que não partia um prato. Talvez só por isso ele tenha dito que sim. No entanto, “esqueci-me” de lhe contar que, no meio dos abraços, algum amigo meu achou por bem “obrigar-me” a beber uma cerveja de penálti. Valeu-me que era pequena.

Apesar da memória que muitas vezes me falha, aqueles abraços e aquela euforia ficaram gravados para sempre neste frágil coração. Dois anos depois, a empresa e o cargo eram os mesmos, “só” a cidade era diferente. Em Berlim, durante o mundial, acolhia em minha casa com orgulho e entusiasmo os colegas de trabalho da Polónia, do Uruguai, da Argentina, do Brasil, da Alemanha, entre vários outros que gostavam mais da tal cerveja do que de futebol, e digo à bola cheia que essa agitação multicultural, mas muito pacífica, nada ficou a dever à nossa vitória “em casa”.

Decidi contar esta história por um simples motivo. Apercebi-me que, antes de qualquer europeu ou mundial, os meus níveis de excitação andam sempre perto das temperaturas negativas germânicas. Sinto-me por norma bastante apática enquanto o comum mortal já está em pulgas para que tudo comece. Contudo, e felizmente, a partir do momento em que arranca, é vê-la aos saltos e gritos pela Avenida da Liberdade fora.

Histórias nunca à parte, trago-vos com carinho cinco curiosidades sobre a competição que começou a 1960.

5.

Cara ou Coroa? – Sim, a decisão de jogos pelas grandes penalidades é imprópria para cardíacos. Então e se tudo acabasse como começa, com um simples atirar de moeda ao ar?

A 5 de junho de 1968, em Itália, o anfitrião defrontava a União Soviética na meia-final, em Nápoles. Os italianos não tinham na altura boas histórias para contar sobre os confrontos anteriores com os soviéticos e, depois de 120 minutos marcados pela consistência defensiva de ambas as partes, o resultado apontava um tristonho 0-0.

Uma vez que não se tinha ainda feito luz sobre o conceito de penálti, a meia-final de uma grande competição acabaria por ser decidida como se apenas de sorte se tratasse.

Este foi o único jogo de um europeu decidido desta forma, no qual o capitão Giacinto Facchetti, coincidência ou não, por ter escolhido coroa, atirou a Itália para a final e consequente vitória do torneio.

4.

Do It Again – Toto Cutugno já cantava em Itália e os Beatles já encantavam o mundo. Continuamos nos 60 e, curiosidade das curiosidades, no “europeu da moeda”. Não quero que vos falte nada.

Depois de dificilmente derrotar a Inglaterra na meia-final, a Jugoslávia juntou-se à Itália no jogo derradeiro do Euro 68, em Roma. Dragan Dzajic, lenda viva nos Balcãs, foi instrumental ao marcar o único golo nos últimos minutos do jogo contra os ingleses e abrindo o marcador contra os italianos aos 32 minutos. Angelo Domenghini viria a empatar a final aos 80 através de pontapé livre e os 120 minutos acabariam com o empate a uma bola. E agora?

Vou gracejar e apostar que alguém correu o estádio inteiro atrás de uma moeda de 100 liras que ninguém tinha. Melhor, pior, ou igual com moeda, até porque o vencedor seria efetivamente a Itália, o que se decidiu foi que, simplesmente, se iria repetir a final. No segundo jogo, como já referido, os Azzurri, olhando finalmente pelos corações dos seus adeptos, resolveram tudo com um 2-0. Felizmente, a final deste europeu continua a ser a única que alguma vez foi repetida.

3.

O Poder do Déjà Vu – A Checoslováquia teve uma jornada de sonho no Euro 1976, na qual viria a bater a Alemanha (Ocidental) nos penáltis que finalmente começavam a dar o ar da sua graça para decidir jogos. Depois das finais dos mundiais de 1934 e 1962, competição que nunca ganhou, esta ficaria marcada como a única vez que a Checoslováquia ganhou um europeu.

Ainda que na altura participassem bastante menos seleções do que hoje em dia, a probabilidade seria sempre baixa de que o jogo de abertura do Euro 1980 tivesse os mesmos protagonistas da final de 76. Contudo, assim aconteceu pela primeira e única vez até hoje.

Com muita ou pouca influência para o resultado, os checos tinham dez jogadores campeões europeus em campo, entre os quais a estrela da companhia Antonin Panenka, enquanto os alemães só tinham dentro das quatro linhas um jogador que disputou a final quatro anos antes. A Alemanha não só ganharia o jogo inicial como acabaria por se tornar campeã europeia no ano de 1980.

2.

Demis Roussos com Rain and Tears para os lusos – Para desfrutar prazerosamente do sucesso, é fundamental ultrapassar as adversidades do processo. Para nós, nada de novo e várias foram as passas do Algarve pelas quais passámos até chegar às alegrias relembradas na introdução deste artigo.

Na onda do ponto anterior, em 2004 voltámos a testemunhar algo nunca antes visto. Desta feita, Portugal e Grécia foram os protagonistas da final, tal como foram do jogo de abertura. Infelizmente, neste caso o desfecho da partida também seria o mesmo.

1.

A matemática não engana – Seja pela quantidade de atores ao barulho ou, tesourinhos à La Palice, o facto de a bola ser redonda, por alguma razão o futebol é indiscutivelmente o desporto-rei. A quantidade de probabilidades lançadas para dentro de campo, e até as que bailam do lado de fora, fazem de cada jogo uma equação de variáveis tão voláteis que quiçá num futuro próximo estejamos a ver a comum aposta virar profissão oficial e o comum apostador tornar-se expoente máximo na área da matemática desportiva.

Dito isto, seria obviamente difícil encontrar finais de europeus com fitas de cassete realmente parecidas. Difícil, mas não impossível. Comparando as finais de 1996, entre a Alemanha e a República Checa, e a de 2000, entre França e Itália, conseguimos encontrar um pequeno padrão.

Primeiro, em ambas as ocasiões, a Alemanha e a França começaram por estar a perder por 1-0 para acabar por vencer o torneio. Depois, as duas partidas foram decididas por um golo de ouro em tempo extra.

Despedimo-nos com mais uma pérola: ambos os golos da vitória foram marcados à Éder, ou seja, por homens que saltaram do banco. Em 1996, Olivier Bierhoff marcou para selar a vitória da Alemanha e, em 2000, David Trezeguet entregou o título de bandeja aos gauleses.

Marta Rebelo

Redação Bola na Rede · ver artigos