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Holanda 0-0 Argentina (2-4 g.p.): A lotaria saiu aos sul-americanos

João V. Sousa · 4 min

Holanda 0-0 Argentina (2-4 g.p.): A lotaria saiu aos sul-americanos

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Depois do vendaval alemão na meia-final do dia anterior, Argentina e Holanda quiseram jogar pelo seguro e nunca arriscaram muito. A consequência disso foi um jogo pouco interessante e quase sem oportunidades de golo. Mantendo-se fiel ao seu esquema de três centrais, a Holanda praticamente não incomodou a baliza de Romero – não só devido ao acerto defensivo da Argentina e da boa exibição de Mascherano no centro do terreno (perante alguma passividade do meio-campo foi ele que assumiu um papel de organizador que normalmente não é seu), mas também por causa do desaparecimento de Robben e de Van Persie. A selecção das pampas, por seu lado, esteve ligeiramente por cima na primeira parte, mostrando-se mais pressionante. Contudo, a equipa ressentiu-se da ausência de Di María e do facto de Messi ter estado pouco em jogo. Como nem Enzo Pérez (jogo interessante, mas a espaços) nem Biglia pareciam contrariar os já habituais problemas na construção argentina, o craque do Barcelona foi obrigado a recuar muito, ainda que sempre bem guardado por De Jong. Em todo o primeiro tempo, só um livre de Messi bem defendido por Cillessen e um cabeceamento de Garay (exibição atenta e segura) após um canto quebraram a monotonia reinante.

Depois do intervalo a Holanda passou a ter mais bola, mas nem por isso o jogo ganhou interesse. O futebol apoiado da equipa de Van Gaal não esticava o suficiente para chegar à baliza adversária, e a Argentina também não parecia muito mais capaz de criar perigo e quebrar o empate. Das vezes que se aproximaram da área holandesa, os homens de Sabella esbarraram num trio de centrais muito bem organizado, com o imponente Vlaar no comando das operações. De resto, pouco mais há a assinalar. Para se ter uma ideia do que foi o jogo, uma das melhores oportunidades da partida (falhanço de Higuaín após boa jogada e grande cruzamento de Enzo Pérez da direita) tinha sido, afinal, anulada por fora-de-jogo do avançado. A Holanda, por seu turno, teve uma possibilidade clara de ganhar aos 91 minutos, mas a primeira aparição de Robben foi contrariada de forma fantástica por Mascherano no último instante.

romero
Com uma intervenção espantosa, Romero defende o remate colocado de Sneijder e abre as portas da final à Argentina
Fonte: Fifa.com

Ao longo dos 90 minutos, os restantes motivos de interesse acabaram mesmo por ser pormenores como a enorme cultura táctica de Kuyt, que permite a um atleta que joga normalmente a extremo-direito cumprir com distinção ora a lateral direito (na primeira parte) ora a lateral esquerdo (na segunda). Sneijder, embora sem o fulgor de há 4 anos, confere uma classe e uma clarividência diferentes ao meio-campo holandês; já do lado argentino, para além das exibições agradáveis dos dois atletas do Benfica, também o Sportinguista Marcos Rojo assinalou uma exibição competente, tendo sido dele um dos raros remates da partida. No outro flanco, Zabaleta não lhe ficou atrás e foi sempre dos mais lutadores. Quanto a Messi, apesar de ter estado apagado (e, tal como ele, também Higuaín, Lavezzi, Agüero e Palacio – houve mérito da organização defensiva montada por Van Gaal), protagonizou dois ou três pormenores interessantes das raras vezes em que teve uma nesga de terreno. As preocupações holandesas eram completamente justificadas, mas a equipa soube cumprir na perfeição.

No prolongamento a Holanda esteve como nunca tinha estado: instalada no meio-campo argentino e, pela primeira vez em todo o jogo, à procura do golo de forma declarada. No entanto, foi Palacio, que tinha rendido Enzo Pérez, a dispor da melhor oportunidade do tempo extra. O avançado, contudo, tentou fazer um chapéu de cabeça e a bola acabou por sair fácil para o guarda-redes. Nos penáltis, a sorte sorriu à Argentina: Vlaar, logo a abrir, e Sneijder, permitiram excelentes intervenções a Romero (Robben e Kuyt marcaram), ao passo que Cillessen não conseguiu parar os remates de Messi, Garay, Agüero e Maxi Rodríguez.

Vinte e quatro anos depois, a Argentina marca novamente presença numa final de um Mundial, desta vez em casa do eterno rival Brasil. Ao contrário do que aconteceu em 1990, agora já não há Diego Maradona, mas há Lionel Messi. Porém, apesar de contar com um jogador fora-de-série, a Argentina não tem mostrado um futebol cativante nem convincente. Pelo que se viu hoje e já se tinha visto antes neste Mundial, a lógica quase obriga a afirmar que a Alemanha tem via aberta para conquistar o título. Mas as finais são jogos à parte. E no futebol tudo pode acontecer, como ainda ontem se viu…

 

A Figura:

Ron Vlaar – É certo que Romero defendeu dois penáltis, mas nos 120 minutos foi o central holandês quem mais brilhou. Se a Argentina fez poucas jogadas perigosas, muito se deve ao atleta do Aston Villa: protagonizou cortes importantíssimos contra Messi, Lavezzi e quem quer que lhe aparecesse à frente, dominou tudo tanto pelo chão como pelo ar, em velocidade ou em antecipação. O futebol holandês tem a fama de ser algo permeável na defesa, mas hoje Vlaar contrariou essa teoria e deu a serenidade necessária aos seus jovens colegas de sector. Não merecia ter falhado o penálti. 

O Fora-de-jogo:

Qualidade do futebol praticado – Percebe-se que ninguém quisesse cometer erros que pudessem custar caro, mais ainda depois da Alemanha ter arrasado o Brasil. No entanto, duas ou três oportunidades de golo em 120 minutos de futebol é muito pouco. Foi o típico jogo decisivo onde a vontade de alcançar um bom resultado se sobrepôs à qualidade exibicional. No entanto, se é verdade que para o espectáculo foi mau, não é menos verdade que ninguém pode criticar as equipas por isso…

João V. Sousa

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