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Quando no dia 11 de Agosto passado, Mariya Lasitskene reagia de forma irritada após a sua vitória na prova do Salto em Altura nos Europeus de Berlim, muitos não entenderam a reação pouco própria de alguém que acabava de vencer uma medalha de Ouro num evento com a importância dos Campeonatos Europeus. Acontece que, apesar da vitória na competição, à russa já não lhe chega apenas ser a melhor em prova. A russa quer ser a melhor de sempre. E parece mais preparada do que nunca.
O ano passado foi notícia uma derrota de Lasitskene. E porquê? Era apenas mais um meeting Diamond League, dessa feita em Rabat, mas Lasitskene não venceu a prova, algo que não acontecia há 2 anos, desde que havia perdido em Junho de 2016. Foram 45 vitórias consecutivas e pode-se dizer que em Marrocos perdeu contra si, num dia em que apenas saltou 1.90 metros, o seu registo mais baixo desde 2016. Nada que tenha importunado muito a russa, que depois disso venceu os 9 eventos em que participou, incluindo os Campeonatos Europeus em Berlim, a Continental Cup em Ostrava e a final da Diamond League em Zurique.
O Domínio Lasitskene

Fonte: IAAF
Durante os seus primeiros anos de sucesso conhecida como Mariya Kuchina, a russa que é agora conhecida como Lasitskene (nome de casada) é, sem qualquer dúvida, um dos nomes mais dominantes do Atletismo mundial. Existem poucos eventos em que sabemos, à partida, quem será o vencedor, mas o Salto em Altura feminino é um deles sempre que ela está em prova.
O início do seu domínio remonta a 2014, ano em que (na altura com 21 anos) conquistou o Ouro nos Mundiais de Pista Coberta em Sopot logo em Março, venceu a Diamond League (com vitórias em 3 etapas quando a competição ainda era decidida em formato de campeonato), venceu a Continental Cup e foi Prata nos Europeus. Foi esse também o primeiro ano em que atingiu os 2 metros e desde aí nunca mais largou esse clube.
Em 2015, começou o ano a vencer os Europeus de Pista Coberta em Praga e terminaria a vencer o seu primeiro campeonato global ao ar livre, com a vitória nos Mundiais de Pequim com 2.01 metros, na altura um novo máximo pessoal.
2016 parecia ter tudo para ser um ano para a russa brilhar nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro e conquistar a sua primeira medalha olímpica. Tudo errado. 2016 foi, na verdade, o ano que marcou o rebentamento do escândalo de doping russo, com vários testemunhos e provas que apontavam e confirmavam o envolvimento do Estado russo num esquema de encobrimento e utilização de substâncias proibidas. Mariya nunca teve sobre si qualquer suspeita nesse sentido, mas em 2016 o atual estatuto de atleta neutral era algo que ainda não existia e a IAAF proibiu a participação de atletas russos nos Jogos, algo que afetou de forma marcante a atleta. Viu o seu apelo para participar nos Jogos ser negado, ao mesmo tempo que internamente saltava 2 metros, marca que lhe teria dado o Ouro nas Olímpiadas desse ano. Mais tarde, Lasitskene acabaria por confessar que foi incapaz de ver qualquer prova dos Jogos Olímpicos, por se sentir injustiçada e por achar que aquele deveria também ser o seu palco.
O ano seguinte foi o ano em que a evolução da russa foi ainda mais notória e em que se começou finalmente a falar, de forma justificada, em recorde mundial. Recebendo o estatuto de atleta neutral a tempo do início da temporada ao ar livre, Lasitskene passou em 13 competições ao ar livre e 3 em pista coberta a marca dos 2 metros. Em Hengelo (na Holanda) passaria os 2.04 metros em Junho, mas um mês depois iria à Suiça, em evento Diamond League, atingir o seu novo recorde pessoal ao saltar 2.06 metros em Lausanne.
A marca coloca-a, aos dias de hoje, como a 7ª atleta (igualada com outras 3 atletas) a ter saltado mais alto na história (indoor e outdoor) e bem próxima da marca de recorde mundial, que são os 2.09 metros da búlgara Stefka Kostadinova. Nesse mesmo ano conquistaria a vitória na final da Diamond League em Bruxelas (2.02), já depois da grande conquista do ano, a revalidação do título mundial em Londres com um salto de 2.03 metros.
2018 foi aquilo que, por muitos, é considerado como um ano-off, uma vez que não existe um grande evento global ao ar livre – situação que apenas acontece uma vez a cada 4 anos. Ainda assim, a russa não o considerou dessa forma: participou em tudo e conquistou tudo o que havia a conquistar! Cedo, em pista coberta, passeou no circuito de meetings da IAAF, arrecadando com naturalidade o Ouro nos Mundiais de Pista Coberta em Birmingham (2.01). Ao ar livre venceu importantes meetings pelo mundo fora, alcançado também as já referidas vitórias na final da Diamond League, na Continental Cup e nos Europeus. Como melhores registos, ficam os três saltos de 2.04 metros alcançados – um deles em Pista Coberta (logo em Janeiro, na Rússia) e dois outros ao Ar Livre (em Paris e Londres na Diamond League).
Para 2019, a russa tem como grandes objetivos a nível de títulos a conquista dos Europeus Indoor de Glasgow (onde já confirmou a presença) e a revalidação do título mundial em Doha (o que significaria 3 títulos consecutivos).
Lasitskene e a suspensão russa
Como já abordámos anteriormente, a russa foi particularmente afetada pela suspensa à Federação Russa (RusAF) em virtude das falhas da sua agência antidopagem (RUSADA) bem como do envolvimento e encobrimento Estatal. O facto dos Jogos Olímpicos apenas se realizarem de 4 em 4 anos significam que uma ausência é especialmente notada, uma vez que os atletas só daí a 4 anos têm uma nova oportunidade, o que no caso dos saltadores ainda ganha uma maior dimensão, uma vez que manter uma carreira ao mais alto nível durante 12 anos (3 ciclos olímpicos) não é algo particularmente comum.
O Desporto, e o Atletismo em particular, têm sempre o seu grau de incerteza e não é por isso seguro dizer que Lasitskene teria hoje já um Ouro olímpico no seu palmarés. Ainda assim, é racional constatarmos que se a mesma tivesse estado presente no Rio teria sido uma das principais favoritas, entrando em prova como a campeã mundial. A russa nunca escondeu que esta é uma espinha atravessada na sua garganta, embora a mesma sempre tenha apontado críticas – mais ou menos diretas – em igual medida à IAAF e à Federação Russa.
No que diz respeito à IAAF, a voz das suas críticas tem sido sucessivamente o seu marido Vladas Lasitskas – comentador da Eurosport Russia – que várias vezes nas redes sociais tem chamado à atenção para o que afirma serem comportamentos discriminatórios e diferenciados da IAAF. Entre exemplos apresentados por Vladas estão o facto de outras nações terem tantos ou mais casos de doping do que a Rússia, de uma forma bastante regular com a conivência de autoridades e sistemas locais sem que nada aconteça a nível de sanções. Também é comum lermos comentários de Lasitskas chamando à atenção para a falta de reconhecimento da IAAF e da European Athletics para com Mariya, não a nomeando sucessivamente para as listas finais dos prémios de melhores atletas do ano, o que o mesmo afirma ser uma extensão do castigo russo. Já que no refere à RusAF, Vladas não está sozinho e também Mariya Lasitskene já se fez ouvir, criticando a falta de ação da Federação Russa para cumprir com os parâmetros internacionais e de alguma falta de apoio da federação para com os atletas que têm o atual estatuto de atletas neutrais. A posição da atleta – que muitas vezes parece ser veiculada através do seu marido – é a de que a Rússia deve cumprir com as regras do jogo, mas que em caso de incumprimento, isso não deve ser algo que afete diretamente os atletas que nunca violaram qualquer regulamento anti-doping e que são prejudicados apenas por serem nacionais russos. A própria situação de atleta neutral é encarado como um mal necessário, embora a atleta não esconda o seu desconforto por não representar a bandeira russa e por não poder ouvir o hino nacional do seu país quando sobe ao lugar mais alto do pódio.

Fonte: Vladas Lasitskas Twitter
A situação russa preocupa tanto a atleta que, receando que volte a ter de ficar de fora de uma grande competição internacional, reconheceu esta semana em entrevista à agência russa TASS, que caso a suspensão russa se mantenha em 2019, já planeia mudar de residência para o exterior do país para que possa ser testada de acordo com as exigências da WADA. Neste momento, a WADA levantou temporariamente a suspensão russa, e a decisão será definitiva desde que a RUSADA cumpra com um conjunto de requisitos, que parecem longe de resolução. Durante todo este processo, a IAAF decidiu não seguir a decisão da WADA e continua a proibir todos os atletas russos de competir em representação da bandeira nacional.
A ameaça ao Recorde Mundial que se torna em obsessão
A frieza de Mariya Lasitskene, que raramente deixa transparecer as suas emoções (principalmente positivas), levou a que alguns críticos a acusassem de falta de respeito e arrogância ao não festejar as vitórias nos Europeus, mostrando-se até zangada. A atleta viria depois a justificar ser tudo uma questão de marcas e expetativas: “não me importa como os outros saltam”, referiu Mariya. A atleta mencionou que ficou satisfeita com a vitória em Berlim, mas que tinha uma marca maior em mente e que esse era o seu objetivo para os Europeus. Mariya mostra assim mais uma vez que, neste momento, mais do que competir contra outras atletas, compete contra si mesma e contra as suas marcas.
– Goteborg Athletics Grand Prix, Gothenburg (SWE) – August 18
– @Diamond_League @WeltklasseZH – August 30
– Meeting Citta Di Padova, Padova (ITA) – September 2
– @iaafostrava2018 – September 8-9
Don’t miss her emotions 😉 pic.twitter.com/rOmNxNkZoV
— Vladas Lasitskas (@VladasLasitskas) August 14, 2018
À sua frente no ranking de sempre do Salto em Altura estão 6 mulheres: a alemã Heike Henkel que saltou 2.07 metros (em pista coberta) em Fevereiro de 1992; a russa Anna Chicherova (que mais tarde, acusou doping) que saltou 2.07 metros em Julho de 2011; a búlgara Lyudmila Andonova que saltou 2.07 metros em Julho de 1984; a sueca Kajsa Bergqvist que saltou (em pista coberta) 2.08 metros em Fevereiro de 2006; a croata Blanka Vlasic que saltou 2.08 metros em Agosto de 2009 e a búlgara recordista mundial Stefka Kostadinova que saltou 2.09 metros em Agosto de 1987. São já mais de 31 anos de um recorde que pareceu muito perto de cair em várias alturas da história, mas que se mantém de pé. E na mente de Lasitskene poderá estar agora a carreira da croata Blanka Vlasic. É que em 11 anos da sua carreira, a croata ultrapassou, pelo menos, os 2 metros. Especificamente entre 2007 e 2010 sempre pareceu que a queda do recorde seria uma questão de tempo, mas uma série de lesões e de tentativas falhadas por uma “unha negra” ditaram que a croata nunca tenha alcançado o recorde mundial.
https://www.youtube.com/watch?v=taDlHrfbe5g
Possivelmente, a russa também olhará para o caso masculino em que o recorde parece poder ir a qualquer altura para Mutaz Essa Barshim, mas o tempo vai passando e a grave lesão do atleta do Qatar em 2018 levanta muitas interrogações se o mesmo será capaz de bater a lendária marca de Javier Sottomayor que dura desde 1993. É isso que Lasitskene tenta evitar e daí se explica a sua frustração, apesar das vitórias. Atingir o recorde mundial o mais cedo possível será importante também para retirar essa “pressão” dos seus ombros o mais rápido possível e, quem sabe, permitir voos ainda mais altos sem pressão.

Fonte: European Athletics
Para já, a russa parece preparar-se para coisas especiais em 2019. Depois das férias, já começou a competir em ambiente indoor e esta semana num centro comercial em Minsk (Bielorrússia) saltou já 2 metros. E com uma ameaça a 2.07 metros muito, muito próxima de sucesso…
Foto de Capa: European Athletics
Artigo revisto por: Rita Asseiceiro












