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A Pista já ferve mas a Estrada tem a palavra

Pedro Pires · 8 min

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Neste fim-de-semana as provas de maior destaque serão as de estrada e prometem bastante, mas já lá vamos. Em pista a época começou com uma pujança impressionante, com várias performances nunca antes vistas por esta altura!

A pista que ferve…

Começamos por falar da fantástica performance de Michael Norman nos Mt SAC Relays, em que correu os 400 metros em 43.45! Já se sabia que Michael Norman iria provavelmente ser o maior concorrente de Wayde van Niekerk (campeão olímpico e mundial e recordista mundial) dos 400 metros, em 2019. Afinal Norman na sua última época universitária já havia batido o recorde mundial da distância em pista coberta e tinha ao ar livre marcado grandes tempos, com o melhor nos 400 a serem os 43.61 nos Nacionais Norte-Americanos.

Poucos, no entanto, poderiam adivinhar que na sua primeira prova da época, Michael Norman corresse em 43.4, igualando o 4º atleta mais rápido da história (Jeremy Wariner), na mais rápida 1ª prova de uma temporada de sempre. O norte-americano afirmou sentir-se bem e que tem ainda muito mais dentro de si, existindo muitos analistas que o colocam mesmo como o principal favorito para os 400 metros dos Mundiais do final do ano, também por pouco se saber da recuperação do sul-africano recordista mundial. A próxima possibilidade de vermos Michael Norman em ação será daqui a cerca de um mês, em Osaka, no Challenge da IAAF, a 19 de Maio.

Na mesma noite, também assistimos a um enorme feito do nigeriano Divine Oduduru em Waco, no Texas. Correu em 9.94 segundos (+0.8) os 100 metros tornando-se no novo líder mundial do ano, o que já por si seria uma marca de grande destaque. No entanto, menos de uma hora depois voltou à pista para correr os 200 metros e fê-lo em 19.76 (+0.8)!

É o primeiro atleta a baixar dos 20 segundos em 2019, uma marca que só foi ultrapassada por 3 atletas em 2018 e que em 2017 até seria a melhor marca do ano, dando para o Ouro nos Mundiais. O feito do nigeriano de 22 anos é ainda mais impressionante se olharmos para as anteriores melhores marcas pessoais de Oduduru – 10.10 e 20.13! O atleta entra assim numa restrita lista de 10 atletas que correram sub-10 nos 100 e sub-20 nos 200 na mesma noite.

Dois dias depois foi a vez de alguém que já é um “suspeito do costume”: Abderrahman Samba! O atleta do Qatar correu em casa, nos Campeonatos Asiáticos, a sua prova de eleição, os 400 metros barreiras e fê-lo em 47.51, uma marca que é a melhor de sempre feita até ao mês de Abril.

Neste momento, Samba tem o tempo mais rápido de sempre feito em Abril, em Maio e em Junho e afirmou que espera terminar o ano a correr em 46.5, o que seria um grande recorde mundial! O atual (ainda) pertence a Kevin Young, desde 1992, em 46.78, mas Samba é o único outro atleta a ter baixado dos 47 segundos.

Não foi só em provas de corrida que os grandes resultados apareceram. Nos Lançamentos, Ryan Crouser no Peso não só evidenciou já uma grande forma, como fez mesmo algo que nunca tinha feito! Lançou o engenho a 22.74 metros, um novo recorde pessoal e a melhor marca feita por qualquer atleta até ao mês de Abril. O norte-americano teve uma série de sonho, com os 3 primeiros lançamentos acima dos 21 metros (2 deles acima dos 21.5) e o quarto a 22.73 metros, o que já era o seu melhor pessoal. No quinto lançamento lançou ainda mais 1 centímetro, naquele que é o maior lançamento que o mundo viu desde…1990!

Outra performance que merece destaque são os 17.68 (0.0) metros que o norte-americano Omar Craddock saltou no Triplo Salto (o regresso após ter saído de maca na final da Diamond League de Bruxelas do ano passado), um novo recorde pessoal em 15 cm, numa competição em Long Beach onde bateu…Christian Taylor, o campeão olímpico e mundial, que se ficou pelos 17.18 metros na primeira competição do ano.

Ainda a registar Kendra Harrison, a recordista mundial dos 100 metros barreiras, que começou em boa forma, correndo já em 12.63 segundos, assumindo a liderança mundial da disciplina.

Os olhos em Londres

Fonte: London Marathon

Um pódio a repetir?

Se a pista já começou a todo o vapor, a estrada deverá dar um ar da sua graça neste próximo final de semana, com várias provas que centrarão atenções um pouco por todo o mundo. O principal destaque é mesmo a Maratona de Londres – que já tivemos oportunidade de antecipar num artigo anterior.

Eliud Kipchoge, o recordista mundial será sempre o destaque em qualquer prova por onde passe e em Londres é também o grande favorito, prometendo mais uma performance de elevado nível e afirmando que o que está para trás nada contará para a prova de domingo. Kipchoge não deverá – quem sabe… – baixar a melhor marca da história da Maratona (2:01:39), mas é bom recordar que o queniano já venceu aqui por 3 vezes e que já correu na prova em 2:03:05, o 4º tempo mais rápido da história.

O queniano terá aqui a sua primeira prova do ano e ainda não confirmou a sua Maratona de Outono/Inverno, sendo que a nossa aposta é que irá evitar as extremas temperaturas de Doha e as Maratonas norte-americanas e irá, provavelmente, voltar a Berlim. Caso vença neste Domingo, defende o título de 2018 e será o primeiro homem a ganhar por 4 vezes em Londres.

A organização tem logicamente procurado vender um duelo entre Kipchoge e Mo Farah, a estrela local, mas ainda nos parece bastante improvável que Farah possa discutir com Kipchoge a vitória na prova mítica da estrada. Para já, o britânico está no centro de uma das maiores polémicas da semana, onde afirmou que foi roubado num hotel na Etiópia, acusando o dono do hotel – um tal de Haile Gebrselassie… – de não ter feito tudo ao seu alcance para recuperar os seus pertences, mostrando-se desapontado com o mesmo.

A lenda etíope, por sua vez, afirma que fez tudo o que podia, acusando Mo Farah de vários comportamentos impróprios durante a sua estadia, de ter ficado a dever dinheiro ao hotel e ainda de ter assediado uma mulher casada, existindo queixa policial! Polémicas à parte, Mo Farah procurará em Londres melhorar o recorde europeu (2:05:11) que está em sua posse desde Outubro do ano passado.

Mas a maior concorrência que Kipchoge deverá enfrentar não deve ser daí que virá. O etíope Shura Kitata foi 2º no ano passado – posição que viria a repetir em Nova Iorque no final do ano. Aos 22 anos afirma-se como um dos maiores nomes para o futuro da distância e até promete ir a Londres não apenas para “acompanhar” Eliud, mas sim para o bater e vencer! Daniel Wanjiru, Wilson Kipsang, Abraham Kiptum, Tamirat Tola e Mosinet Geremew são outros nomes fortes do cartaz.

No feminino, mesmo com a saída de cena de Tirunesh Dibaba – está grávida e não fará qualquer prova em 2019 – o elenco conta com um cartaz impressionante que promete mais um ataque a tempos rápidos num circuito que viu as duas melhores marca de sempre da distância – Paula Radcliffe com os seus 2:15:25 em 2003 e Mary Keitany com os 2:17:01 de há dois anos. A marca da britânica é o recorde mundial absoluto feminino, a marca da queniana é recorde mundial em provas exclusivamente femininas.

Keitany está de regresso – já venceu também 3 vezes em Londres – e deverá, desta feita, ser mais cautelosa do que o foi há 1 ano quando começou com ritmos alucinantes e acabou por pagar caro o calor que se fazia sentir na capital britânica, terminando no 5º lugar. Depois disso Keitany já venceu em Nova Iorque e vem à procura de ser a 2ª mulher a vencer 4 vezes em Londres. A maior concorrente poderá ser Vivian Cheruiyot, que foi a campeã em 2018 – e depois 2ª em Nova Iorque. Cheruiyot foi uma estrela em pista – campeão olímpica e 4 vezes campeã mundial nos 5.000 e 10.000 – e está a ter uma transição quase perfeita para a estrada. Em Londres assistiremos a mais um capítulo desta rivalidade queniana.

O Quénia, ainda assim, tem mais cartas na manga, com a presença de Gladys Cherono ainda à procura da glória em Londres – tem 3 vitórias em Berlim – e a mais jovem Brigid Kosgei, que também aproveitou a estratégia suicida de Keitany e Dibaba no ano passado para ser 2ª, indo depois ainda vencer a Chicago. Da Etiópia chegam também duas atletas que lutarão pelo pódio. Tadelech Bekele foi 3ª no ano passado aqui e já venceu por duas vezes em Amesterdão e Birhane Dibaba estreia-se em Londres, tendo já no seu palmarés duas vitórias em Tóquio e pódios em Chicago e Berlim. Carla Salomé Rocha também faz parte da lista de elite anunciada pela organização.

E há mais…

Neste fim-de-semana, existem outras Maratonas de referência, como a de Madrid que decorrerá no Sábado com um forte grupo de quenianos e etíopes que deverão dominar as atenções, incluindo Tadesse Tola e Bernard Kiprop Koech, dois atletas abaixo das 2:05. Na prova feminina, das 7 mulheres abaixo das 2:30, 5 são etíopes, incluindo Askale Magarse Tafa (2:21:31) e Shasho Insermu (2:23:28).

A 1ª edição da Maratona da Europa

Em Aveiro, será a vez da primeira edição da Maratona da Europa, que tem ambiciosos objetivos, que incluem ser certificada com o selo Gold pela IAAF em apenas…3 anos! A prova promete condições acima da média para todos os participantes e um circuito ideal para a obtenção de boas marcas, sendo o mesmo praticamente plano. Terá transmissão em direto na TVI e conta com fortes apoios.

Por fim, não menos importantes, na Meia-Maratona também será um fim-de-semana em que a elite poderá mostrar a sua força no Japão, com a Meia de Gifu (selo Gold) a contar com um elenco feminino de luxo, que inclui Joan Chelimo Mely (a 4ª mais rápida de sempre), Ruth Chepngetich (que este já venceu a Maratona no Dubai em…2:17:08 e venceu a Meia de Istambul há menos de 3 semanas!) ou Rose Chelimo (atual campeã mundial da Maratona), num grupo de elite que conta com Ana Dulce Félix e em que Doroteia Peixoto também correrá. No masculino, dois quenianos e um etíope abaixo da 1 hora centram as atenções – Bedan Karoki (que este ano já correu rápido na Meia de Houston (3º) e na Maratona de Tóquio (2º)) e Jorum Okombo do Quénia e Samuel Tsegay da Etiópia.

Foto de Capa: Virgin London Marathon

Pedro Pires

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