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Esta semana ficou marcada, no mundo do Atletismo, pela reunião do Conselho da IAAF em Doha, onde foram tomadas uma série de decisões que poderão mudar a cara do desporto e que têm levantado bastante polémica entre todos os envolvidos e interessados.
1. O modelo de qualificação para os Jogos de Tóquio 2020

Fonte: Olympic Games
A primeira decisão que “mexeu com as estruturas” foi a da alteração do sistema de qualificação para as grandes competições, começando já pelos Jogos Olímpicos de Tóquio no verão de 2020. Até este ano, a qualificação dos atletas sempre esteve marcada pelos chamados “mínimos”, a popular designação para uma marca mínima que um atleta tinha que atingir para estar presente em grandes competições.
A IAAF, no entanto, há já algum tempo que vinha trabalhando num ranking mundial, que permitisse ter uma melhor perceção de quais são os atletas com maior regularidade e que servisse de modelo de qualificação para as grandes competições. Tentou para os Mundiais de Doha deste ano, mas não conseguiu, uma vez que enfrentou uma forte resistência das várias federações nacionais.
Desta vez a IAAF diz que é para valer e o ranking que já se encontra em funcionamento total e acessível no website do organismo, será um dos meios de qualificação para os Jogos, tal como a obtenção da marca mínima, optando a IAAF por um modelo misto. Mas no que consiste afinal esse modelo e o que mudará?
Os “mínimos” continuam a existir, só que foram endurecidos e muito. De forma a que o ranking seja, de facto, útil para efeitos de qualificação, a IAAF decidiu aumentar bastante a exigência do nível das marcas para que apenas os atletas de elite consigam o apuramento direto para os Jogos. Para se ter uma ideia, para o Rio, marcas de 10.16 (masculino) e 11.32 (feminino) nos 100 metros chegaram para a qualificação, enquanto agora é exigido 10.05 ou 11.15.
Em provas como os 5.000 as diferenças são ainda mais acentuadas, com o “mínimo” masculino a ser agora de 13:13.50 face aos 13:25 de há dois anos. Também em outros eventos, como nos saltos, vemos essas alterações em prática com os mínimos do Triplo a subirem de 16.90 e 14.20 para 17.14 e 14.32!

O objetivo da Federação Internacional é que apenas cerca de 50% das vagas sejam preenchidas por esta via e que as outras 50% sejam acedidas através do ranking que volta ao ponto zero a cada período de 365 dias. Esse ranking tem as 5 melhores prestações de cada atleta em determinado período, tendo em conta uma pontuação que é atribuída a cada prestação individual, ponderando factores como a marca obtida, o tipo de competição em que a marca foi obtida (que dá pontos bónus), contabilizando também prestações com vento. Para a Maratona os critérios são ligeiramente diferentes, pois além do período para a obtenção das marcas ser maior, são apenas os 2 melhores resultados que contam e também existem alguns lugares garantidos para quem finaliza no top-10 ou top-5 das principais Maratonas mundiais.
Com este modelo, a IAAF pretende aumentar a competitividade, aumentar o número de presenças dos grandes nomes nos principais meetings internacionais (“obrigando-os” a competir) e premiar a regularidade dos atletas, ao invés da obtenção de uma única marca, que, por vezes, até é obtida em circunstâncias um pouco suspeitas. Também é uma resposta da IAAF à exigência de redução de quotas pelo Comité Olímpico, que reduziu o número de participantes ligados ao Atletismo em 105.
- Porquê a polémica em relação ao sistema misto?
Muitos foram os atletas que se manifestaram contra, incluindo Paul Chelimo, o norte-americano medalhado de Prata olímpico no Rio, que não cumpria, antes desses Jogos, com os novos mínimos estabelecidos e que afirmou que o “Atletismo está a matar-se a si próprio, sem piedade”.

Fonte: IAAF
A verdade é que as intenções da IAAF podem ser boas, mas o sistema parece apresentar muitas falhas que podem descredibilizar todos os objetivos do sistema de qualificação e os rankings em si, que são uma boa ideia, caso sejam corretamente implementados.
- Um dos objetivos da IAAF é o aumento de participação de atletas de elite nos meetings internacionais, promovendo os confrontos diretos mais emocionantes. Acontece que, ainda que fosse possível que tal objetivo pudesse ser alcançado com um sistema único de ranking, tal não irá acontecer com este sistema misto. Continuando os atletas de elite a ter a possibilidade de se qualificar com apenas uma única marca mínima, será bastante provável que até ao final de Junho deste ano, a maioria dos principais atletas estejam já qualificados para Tóquio, podendo por isso evitar todos esses “head-to-head”!
- Esses atletas poderão qualificar-se cedo porque os “mínimos” podem ser obtidos para a maioria das provas já a partir de 1 de Maio. No entanto, esta é também uma situação considerada injusta por muitos, uma vez que as provas feitas em Maio e Junho deste ano não irão contar para o ranking no momento da qualificação para Tóquio (relembramos que o ranking analisa as prestações num período de 365 dias), contando apenas para quem obtenha a marca mínima.
- A disparidade entre o rendimento de atletas poderá também aumentar devido às obrigatoriamente diferenças na preparação de cada atleta. Caso um atleta tenha marca mínima obtida este ano, poderá começar a temporada 2020 quando e como quiser, sem qualquer tipo de pressão, podendo evitar todos os grandes confrontos. Já um atleta que esteja no “limbo” e que procure a qualificação pelo ranking deverá estar sempre a competir para poder aumentar a pontuação e a sua posição no ranking. Tal facto deverá influenciar toda a preparação da época, pois se os atletas de elite podem apontar o seu pico de forma para Agosto de 2019, todos os outros atletas tentarão estar sempre na máxima força para melhorar o ranking, o que poderá ser negativo a nível de lesões (o exemplo do ténis nos anos recentes prova-nos isso mesmo) e de temporização dos picos de forma.
- Há também quem não concorde com os pontos bónus por competição, que podem fazer com que uma marca de 9.64 nos 100 metros valha menos pontos que uma marca de 9.9 noutras competições. A IAAF pretende que, com isto, os atletas procurem brilhar nos palcos onde isso mais interessa, mas é algo que pode prejudicar bastante os mais jovens atletas – por exemplo – uma vez que meetings universitários têm um peso pouco significativo, sendo que quem se encontra no modelo norte-americano é obrigado a participar nesses meetings, não existindo alternativa. Estaremos a forçar a antecipação do profissionalismo? Estaremos a prejudicar a possibilidade de termos mais jovens a estrear-se em grandes competições.

Fonte: IAAF
- O poder dos agentes sai claramente reforçado e pode ser prejudicial para o desporto. Os agentes são responsáveis pelas negociações de quais os meetings em cada atleta participa e a verdade é que os conhecimentos e influência podem fazer toda a diferença. Analisando por exemplo, os meetings da Diamond League, que contam inclusive mais que campeonatos continentais (!), estes são apenas por convite, podendo ser convidados atletas abaixo no ranking apenas para melhorar a sua classificação. Sendo que muitos agentes de atletas são também eles organizadores de meetings internacionais…percebemos que existe um claro potencial conflito de interesse.
- É um sistema que beneficia as nações europeias e os EUA. Países como Cuba ou a maioria das nações africanas não têm eventos suficientes dos níveis mais avançados que permitam fazer tantos pontos no ranking, como têm por exemplo os atletas suíços, que praticamente não precisam de sair de casa.
As regras do ranking podem ser consultadas aqui: https://www.iaaf.org/world-ranking-rules/basics
2. As alterações à Diamond League
Foram também anunciadas uma série de novidades em eventos Diamond League a partir de 2020, que merecem uma reflexão:
- Redução de Meetings de 14 para 12 mais uma final.
- Redução de Disciplinas de 32 para 24
- A corrida mais longa será a de 3.000 metros
- Mais eventos de Saltos e Lançamentos serão realizados no centro das cidades
- Um meeting por semana, com homogeneização do calendário
- Transmissão televisiva reduzida de 2 horas para apenas 90 minutos

Fonte: Brussels Diamond League
Sendo a Diamond League a principal competição de Atletismo com periodicidade anual e contendo um conjunto de meetings de elite, é natural que qualquer alteração na Liga Diamante (versão portuguesa) tenha larga repercussão e possa afetar todo o desporto. Foi, assim, com especial expectativa que a comunidade atlética acompanhou a conferência que a IAAF transmitiu em direto de Doha na passada segunda-feira.
Existiram algumas decisões totalmente bem recebidas – como o facto de se ter uma final única e de se homogeneizar o calendário e deixar de existir a anarquia atual, com algumas semanas a terem 2 ou 3 meetings – e outras maioritariamente bem recebidas – como termos mais eventos no centro das cidades. No entanto, tudo o resto caiu quase como uma bomba e o impacto não tem sido nada positivo.
A redução de meetings já era algo falado pela IAAF, embora ainda não tenha sido decidido qual o meeting ou meetings que caem. A IAAF falou em 12+1 meetings, pelo que não ficou claro se a final será num dos meetings clássicos (Bruxelas e Zurique receberam as finais nos últimos anos) ou se serão 12 clássicos e a final poderá ser disputada num outro estádio, o que iria implicar a queda de 2 meetings.
Um dos que deve cair deverá ser o de Birmingham, uma vez que o estádio da cidade inglesa estará em obras a partir deste verão para se preparar para os Jogos da Commonwealth de 2022. Caso caia mais algum meeting, as opções mais fortes parece dividir-se entre Oslo, Estocolmo e Rabat, sendo que a IAAF tomará a decisão final no término desta época desportiva, depois de avaliar os resultados de cada um dos meetings.
As restantes controversas decisões tomadas prendem-se todas à volta do facto da IAAF querer conquistar as gerações mais novas. A IAAF entende que para conquistar os mais novos tem que vender um produto mais atrativo, que seja mais rápido, com mais ação e menos tempos mortos. Afirmando ter consultado todos os interessados e envolvidos – o que já foi desmentido por associações, atletas e treinadores – a IAAF concluiu que o ideal seria reduzir os eventos com transmissão televisiva para 90 minutos e que, para tal, seria necessária a redução de disciplinas.
Assim, a organização deixará cair 8 disciplinas (4 no masculino e 4 no feminino), que ainda estão por decidir até ao final da época, onde se irá avaliar as disciplinas que garantem um maior “entretenimento” no momento, garantindo que a avaliação de que disciplinas estarão presentes na seguinte edição será feita anualmente.

Fonte: IAAF
Igualmente controverso foi o facto de ter sido anunciado que as provas de 5.000 metros serão retiradas da Diamond League, sendo agora o evento mais longo os 3.000 metros – o que também leva a concluir que, muito provavelmente, os 3.000 obstáculos será um dos eventos que cairá.
- O fim da longa distância em pista? Disciplinas de primeira e disciplinas de segunda?
Logicamente que as decisões tomadas levaram a algumas reações bastante violentas na imprensa de referência e nas redes sociais. No caso da eliminação dos 5.000 metros, não se pode dizer que tenha sido totalmente surpreendente a decisão da IAAF. Já em vários eventos, a Federação havia testado a fórmula dos 3.000 metros e, mesmo em edições anteriores, já estava a utilizar uma fórmula mista de algumas provas de 3.000 e outras de 5.000.
Parecia uma questão de tempo e agora muitas vozes afirmam que o plano da IAAF é acabar definitivamente com os 10.000 metros em Mundiais e Jogos Olímpicos (a distância já não fazia parte das disciplinas Diamond League e já foi excluída para futuros Mundiais Sub-20) e tornar os 5.000 na disciplina que tem um espaço quase reduzido a grandes campeonatos. Apesar de Sebastian Coe (o presidente da IAAF) ter afirmado que sabe que “a mudança nunca é fácil”, mas que a IAAF tomava estas decisões para poder vender um produto mais atrativo que seria positivo para o desporto, poucos foram convencidos pelas suas palavras.
Federações como a do Quénia ou da Etiópia foram bastante expansivas, com cartas à IAAF, existindo até acusações de discriminação naquilo que parece ser um ataque claro da IAAF à longa distância em pista, que tem sido durante largos anos dominada pela nações leste-africanas.
Today, #Ethiopian Athletics Federation (EAF) sent a strongly worded official complaint letter to the world athletics governing body, @iaaforg, regarding the omission of 5000m races in #IAAF Diamond League events. The federation asked the governing body to reconsider its decision. pic.twitter.com/ubdU46jdom
— ❤️AthleticsAfrica (@athleticsafrica) March 14, 2019
Em relação à eliminação de outras disciplinas, ainda sem se saber que disciplinas cairão, a maioria dos analistas prevê que, pelo menos, 4 dos 8 eventos sejam eventos de saltos e lançamentos, sendo que os 3.000 metros obstáculos ou os 800 metros são outras provas que poderão estar em risco.
Por muitos foram criticados os critérios escolhidos pela IAAF – baseados no entretenimento e disciplinas com duelos muitos antecipados – por serem bastante subjetivos e dependentes de cada momento.
Há quem diga ainda que a IAAF está a criar uma primeira e segunda divisões de Atletismo, com vários agentes a levantarem sérias interrogações se será viável para os atletas de elite continuarem no desporto, caso não tenham a possibilidade de realizar qualquer evento da Diamond League (os que normalmente possibilitam maior encaixe financeiro) o que irá afetar negativamente as disciplinas, tal como já acontece com o Lançamento do Martelo (a única disciplina de pista – sem contar com as combinadas – que neste momento não faz parte da Diamond League) que praticamente só é lembrado em grandes campeonatos.
3. A Marcha fica mesmo mais curta
Outra polémica decisão saída do Conselho de Doha é a aprovação da redução das distâncias nas provas da Marcha em grandes campeonatos. Até aqui as distâncias dos 20 km e dos 50 km (apenas recentemente para as mulheres) têm sido as distâncias percorridas em grandes eventos, mas a IAAF entendeu que, de forma a tornar a Marcha mais atrativa, é essencial reduzir as distâncias e consequentemente o tempo de cada evento.

Fonte: IAAF
Sem que ainda se tenha chegado a uma conclusão absoluta das novas distâncias, o que é facto é que serão escolhidas duas entre quatro possíveis distâncias para o futuro: 10, 20, 30 e 35 km, sendo que o grande objetivo da IAAF é que as distâncias sejam reduzidas para 10 e 30 km, podendo tal ser feito de forma gradual já a partir dos Mundiais de Eugene, em 2021.
Também no que diz respeito à Marcha, ao serem divulgados os mínimos para os Jogos de Tóquio, saltou à vista que não existe qualquer referência aos 50 km femininos, indo ao encontro das informações que temos de que o Comité Olímpico Internacional rejeitou o pedido para a incorporação da distância no feminino nestes Jogos, alegando ser um pedido tardio, não sendo possível disponibilizar “espaço extra” para mais eventos de Atletismo, uma vez que tal iria aumentar a quota de atletas reservada para a modalidade.
É curioso que ao mesmo tempo tenha sido aceite a nova disciplina dos 4×400 mistos…Ainda assim, a IAAF, implicitamente, parece confirmar essa mesma informação ao também afirmar que chegou a um acordo com o COI para a partir de 2021 trabalhar na equiparação de distâncias entre homens e mulheres, o que sugere que tal não irá acontecer em 2020.
E como a partir de 2021, as distâncias irão ser reduzidas, o cenário mais provável parece ser o de que nunca iremos ver a prova de 50km Marcha no feminino em competições olímpicas.
- As reacções
As novidades da IAAF foram particularmente mal recebidas no mundo da Marcha. No que diz respeito à redução de distâncias, alguns atletas afirmaram nas redes sociais que se sentiam forçados a procurar outro emprego e que esta decisão iria contribuir para o fim da Marcha como a conhecemos.
Choveram críticas à Comissão da Marcha e até houve casos – como o do britânico Tom Bosworth – em que os atletas lamentaram a decisão de anunciar mudanças sem que tudo ainda esteja definido, não podendo os atletas e treinadores ter um plano completo para o seu futuro, pois não sabem em que exata distância se devem especializar.
Já no que concerne à não inclusão dos 50km femininos em Tóquio, as reações foram bem mais tímidas. Para muito terá contribuído o facto de não ter sido comunicada exatamente uma decisão e ser mais uma “ausência de decisão”, de momento, que indica que a distância estará fora.
A IAAF refere várias vezes a quota de atletas em Jogos Olímpicos para justificar as suas mudanças e as novas quotas nem sequer incluem atletas para os 50km femininos, então é somar 2+2 para se perceber que nem a IAAF acredita nessa possibilidade.
A nível nacional, Inês Henriques, a atual campeã mundial e europeia dos 50km Marcha foi a voz mais crítica de toda a situação. Em declarações ao jornal A Bola, a atleta afirmou que não compreende porque “estão a introduzir uma nova prova, os 4×400 mistos, mas deixam de fora outra que já existia nos Mundiais (…)”, confirmando que vai recorrer a todas as vias legais para garantir que as marchadoras tenham as mesmas oportunidades que os homens já em Tóquio.
Foto de Capa: IAAF











