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No passado sábado, realizou-se a anual gala da World Athletics, que distingue os melhores de cada ano no Atletismo. Apesar de ter sido um ano recheado de cancelamento, adiamentos e em que alguns atletas pouco ou nada competiram, não se pode dizer que nenhum dos nomeados tenha tido um ano fraco ou que, em circunstâncias normais, não tivesse também sido nomeado.
Atente-se aos cinco finalistas para prémio de melhor masculino do ano:
Joshua Cheptegei (Uganda): bateu os recordes mundiais dos 5.000 metros, dos 10.000 metros e ainda dos 5km em estrada.
Mondo Duplantis (Suécia): bateu o recorde mundial do Salto com Vara por duas vezes e ainda saltou o mais alto de sempre ao ar livre (o de pista coberta conta como recorde absoluto)
Ryan Crouser (EUA): Imbatível em dez competições no Peso e chegou aos 22.91m, o terceiro, igualado, a lançar mais longe na história.
Johannes Vetter (Alemanha): Venceu 8 de 9 competições no Dardo e lançou a 97.76m, o segundo maior lançamento da história e pertíssimo de um recorde que parecia impossível até há bem pouco tempo.
Kartsen Warholm (Noruega): Venceu tudo o que havia para vencer e correu os 400 barreiras em 46.87 segundos, a segunda marca mais rápida da história.
E quanto às mulheres? Falemos das cinco nomeadas:
Letesenbet Gidey (Etiópia): Bateu o histórico recorde dos 5.000 metros, que pertencia a Tirunesh Dibaba.
Sifan Hassan (Holanda): Correu a maior distância de sempre em uma hora e bateu o recorde europeu dos 10.000 metros, com a quarta melhor marca da história.
Peres Jepchirchir (Quénia): Venceu o título mundial da Meia-Maratona e quebrou por duas vezes o recorde da Meia-Maratona em provas exclusivamente femininas (1:05:16 o melhor)
Elaine Thompson (Jamaica): Venceu as sete provas de 100 metros que fez e foi líder mundial do ano em 10.85 segundos.
Yulimar Rojas (Venezuela): Não perdeu qualquer prova no Triplo e bateu o recorde mundial em pista coberta, ao saltar 15.43 metros.
Restam assim poucas dúvidas sobre a qualidade dos atletas e das performances em causa. Então, no meio de tanta qualidade, como a World Athletics escolheu?
AS DUAS ESCOLHAS DA WORLD ATHLETICS E O QUE ELAS DIZEM NAS ENTRELINHAS
“Where do we start?”@mondohoss600 becomes the youngest athlete EVER to be named the Male World Athlete of the Year🌟 pic.twitter.com/QyyzcFL4Ld
— World Athletics (@WorldAthletics) December 5, 2020
Para melhor do ano no masculino, apesar de todos os cinco atletas terem alcançado grandes feitos, a decisão parecia ser entre Joshua Cheptegei e Mondo Duplantis, os dois atletas que bateram recordes mundiais. Havia quem dissesse que Cheptegei tinha alguma vantagem. Afinal, o atleta do Uganda bateu dois históricos recordes em pista e ainda o fez também em estrada. Duplantis, por outro lado, tinha a seu favor o facto de ter batido o recorde da Vara por duas vezes e ainda ter acrescentado o grande salto ao ar livre, retirando as dúvidas de quem defende que os saltos indoor não devem contar como recorde absoluto. A World Athletics decidiu-se pelo jovem sueco, Mondo Duplantis. É uma escolha impossível de contestar (tal como seria a de Cheptegei). Com 21 anos acabados de fazer, Duplantis chegou onde parecia impossível e ninguém consegue prever o que o futuro lhe reserva. O prémio masculino não ia para um atleta europeu desde 2014 e, curiosamente, havia sido também com o recorde mundial da Vara de Renaud Lavillenie (França). Foram os únicos atletas europeus a conquistar o troféu neste século.
“The truth is I did not expect this, sorry but I really can’t believe it.”
Congratulations @TeamRojas45, Female World Athlete of the Year✨ pic.twitter.com/RICi8inZMe
— World Athletics (@WorldAthletics) December 5, 2020
Já no feminino, havia alguma dúvidas. Elaine Thompson parecia a que menos tinha feito e Sifan Hassan, tendo batido o recorde europeu, não entrava, ainda assim no campo de recorde mundial. Tinhamos assim duas atletas de longa distância, Gidey – que bateu o recorde mundial dos 5.000 metros, mas que pouco mais fez e ainda tem provas por dar ao Atletismo – e Jepchirchir – que bateu os dois recordes, venceu o Mundial da Meia, mas que tem contra si o facto de ser um nome menor e da WA raramente reconhecer os feitos da Meia. Depois havia Yulimar Rojas. A venezuelana apareceu pouco no ano, mas, quando apareceu, venceu sempre e somou ainda o recorde mundial em pista coberta do Triplo. De forma estatística talvez fizesse sentido a atribuição do prémio à queniana, mas a World Athletics deu mesmo o prémio a Yulimar Rojas, a venezuelana de 25 anos, o que também se entende.
SALTOS > LONGA DISTÂNCIA
Fica a questão: O porquê da preferência pelos saltos? Podem existir várias respostas para esta questão, mas a mais óbvia é: a World Athletics quis evitar polémicas desnecessárias. Numa situação em que poucos contestariam os prémios dados a Duplantis e Rojas, dois atletas com um registo totalmente limpo de polémicas, porque haveria a WA de se pôr a jeito das más línguas? Não é que exista algo contra Cheptegei e Jepchirchir, o problema é que as provas de longa distância estão sobre brasas, neste momento. Os recordes caem como se fossem gotas da chuva pelo Norte de Inglaterra e os narizes torcidos são muitos.
Primeiro, e mais importante, os ténis. Sim, os ténis. Outra vez, os ténis. Os Vaporfly da Nike deram o mote, mas já há hoje modelos da Adidas (que deram neste último fim-de-semana um novo…recorde mundial masculino na Meia, numa prova com quatro atletas abaixo do antigo recorde!) e de outras marcas concorrentes, que usam a mesma tecnologia ou similar. A melhoria da performance é imensa. Vários estudos apontam para uma melhoria superior a 2 minutos na Maratona, alguns vão até próximo dos 4 minutos. É absurdo, é esmagador, mas…é legal. No entanto, fica sempre a questão, devemos dar assim tanta atenção a estes recordes? É justo compararmos estes tempos com tempos passados?
Existem aqueles que defendem que a tecnologia sempre fez a diferença e que as sapatilhas dos sprinters também estão muito longe das utilizadas por Jesse Owens em Berlim. Correto. No entanto, nunca existiu uma evolução tão grande, um salto tão absurdo em tão pouco tempo, uma tão disruptiva alteração nas melhores performance de sempre e aqui talvez estejamos mais próximos da polémica dos fatos da Natação (que foram proibidos depois de tanta polémica) do que de um simples novo modelo de calçado. A mesma WA que permite que isto aconteça – impondo poucas regras e voltando atrás, mesmo nessas poucas regras – é a mesma WA que depois não dá o prémio de melhor do ano a um atleta que bateu o recorde dos 5.000 e 10.000 num ano. Estranho, não?
Depois, entre dentes, há outras informações que circulam e que a imprensa não gosta de citar, embora o elefante paire por lá. Quem está por dentro do desporto sabe que foi um ano em que os controlos anti-doping deixaram muito a desejar. Fora de competição, houve muitos atletas não testados durante um largo período de tempo (afinal, as viagens continuam proibidas em grande parte do mundo e não se consegue garantir o transporte das amostras em tempo apropriado para testagem).
É injusto para Cheptegei e Jepchirchir? Ainda para mais, atletas já com provas dadas e sem nunca terem nada acusado? Bastante provavelmente é, mas a World Athletics também poderá estar escaldada de situações passadas, sabendo que a incidência de casos na estrada e longa distância tem sido bem superior aos eventos de saltos e lançamentos. Julgamos que Cheptegei e Jepchirchir estão limpos. Acreditamo que a WA pensa o mesmo. Mas não deixa de ser um elefante no meio da sala, num ano de COVID.
OS OUTROS PRÉMIOS
Nos outros prémios, a World Athletics distinguiu os pais de Duplantis (Greg e Helena, dois ex-atletas) com o prémio de treinadores do ano e distinguiu a Federação Polaca como a Federação do ano, pelo trabalho feito este ano, assegurando a realização de várias competições internacionais. Destaque ainda para um prémio de reconhecimento a Tommie Smith, Peter Norman e John Carlos pelo célebre episódio dos Jogos do México em 68 e para esta fantástica fotografia, de Michael Steele, que foi a foto do ano.
Congratulations to Michael Steele on winning the Photograph of the Year at this year’s #WorldAthleticsAwards
A truly beautiful 📸 pic.twitter.com/cg9Y4rHM02
— World Athletics (@WorldAthletics) December 5, 2020
A cerimónia deste ano decorreu à distância e foi apresentada pelos ex-atletas Ato Boldon e Sanya Richards-Ross.
Foto de Capa: World Athletics















