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Os puristas dirão que a década apenas termina no final de 2020 e que se iniciou em 2011. Nada contra, deixo o calendário gregoriano e as suas limitações para outras discussões. Quando falo de períodos temporais, gosto de falar dos melhores atletas, filmes ou livros dos anos 70, 80 ou 90. Não tenho por hábito falar da década que decorreu entre 1971-1980 ou da década entre 1991-2000. Por isso faz, para mim, todo o sentido analisar o Atletismo nos mesmos períodos temporais.
Na lista que hoje apresento, dou a conhecer os atletas que marcaram cada uma das disciplinas individuais de pista (as que constam do calendário dos maiores eventos globais) nos últimos dez anos. Atletas no masculino neste primeiro artigo, atletas no feminino em artigo a publicar brevemente.
É uma lista feita por apenas uma pessoa e como tal é subjetiva – assim o continuaria a ser caso fosse elaborada por mais do que uma pessoa, mas o grau de imparcialidade seria sempre maior. No entanto, tento explicar o critério para cada uma das escolhas e, em alguns casos, nem eu estou completamente certo de que a opção escolhida seja a mais justa. Em alguns casos, as escolhas são óbvias, noutros nem tanto, mas a verdade é que estes são aqueles que penso que mais merecem aqui serem mencionados, quando nos referirmos a este período.
Eventos globais ao ar livre no período: Mundiais de Daegu 2011; Jogos Olímpicos de Londres 2012; Mundiais de Moscovo 2013; Mundiais de Pequim 2015; Jogos Olímpicos do Rio 2016; Mundiais de Londres 2017 e Mundiais de 2019.
100 METROS: Usain Bolt (JAM)
Nos anos após os recordes mundiais de Pequim e Berlim, Usain Bolt (JAM) continuou a ser o líder incontestável da velocidade mundial. Uma falsa partida em Daegu (2011) impediu-o de renovar o primeiro título global deste período, mas um ano depois iria a Londres (2012) dar ares da sua graça, correndo em 9.63 segundos, a 2.ª marca mais rápida de sempre na distância!
Em Moscovo (2013) voltou a tornar-se campeão mundial e mesmo quando os especialistas duvidavam da sua capacidade de renovar o título – em 2015, Justin Gatlin tinha os tempos mais rápidos do circuito e Bolt enfrentava sérios problemas físicos – foi a Pequim (2015) renovar o título mundial no que por muitos foi visto como uma batalha do bem (Bolt) contra o mal (Gatlin), tendo em conta o passado polémico do norte-americano.
No Rio (2016) renovou o seu título olímpico e confirmou o seu estatuto de maior nome da história da velocidade mundial, fechando a carreira com seis títulos globais de 100 metros (quatro neste período), além de contribuir para mais seis títulos de estafeta. Yohan Blake (JAM) nos Mundiais de Daegu (2011), Justin Gatlin (USA) nos Mundiais de Londres (2017) e Christian Coleman (USA) nos Mundiais de Doha (2019, já sem Bolt) foram os outros atletas a conquistar títulos globais, mas nenhum se aproximou da grandeza do astro jamaicano que ainda hoje possui um recorde mundial (9.58) que parece indestrutível por muitos anos.
200 METROS: Usain Bolt (JAM)
O raio jamaicano participou em seis campeonatos globais nesta distância nos últimos 10 anos e conquistou o Ouro em todas as ocasiões! Bolt nunca escondeu que esta era a sua distância predileta, embora tivesse noção da popularidade maior dos 100 metros, facto que o terá levado a optar por fazer apenas essa distância nos últimos Mundiais da sua carreira. Bolt não foi o atleta com o tempo mais rápido nesta década – Blake voou no meeting de Bruxelas, em 2011, com 19.26, a 2.ª melhor marca da história –, mas nos grandes momentos esteve sempre em grande plano, com o título mundial de Daegu (19.40 em 2011) e olímpico de Londres (19.34 em 2012) a serem a 6.ª e 4.ª melhores marcas da história.
Os dois campeonatos sem Bolt foram vencidos por Ramil Guliyev (TUR) em Londres e Noah Lyles (USA) em Doha e, embora Lyles seja um sério candidato a grande figura da velocidade mundial (e muitos acreditam com potencial para ser o recordista mundial da distância), a verdade é que o palmarés do jamaicano será algo quase impossível de ser ultrapassado.
400 METROS: Wayde van Niekerk (RSA)
Num evento fortemente dominado pelos norte-americanos – no período pré-van Niekerk, os USA conquistaram 10 dos 14 ouros em Mundiais e 19 dos 26 ouros em Jogos Olímpicos (de 1984 a 2008 apenas norte-americanos venceram em Jogos Olímpicos!) – quem diria que o atleta que marcaria este período seria um sul-africano?! Mas Wayde van Niekerk merece claramente esse estatuto.
2015 foi o ano em que a estrela treinada por Ans Botha (de 77 anos de idade) despontou, conquistando logo aí o título mundial em Pequim, batendo grandes nomes como LaShawn Merrit (USA) ou Kirani James (GRN), atletas que tinham dividido os cinco títulos globais anteriores. Nesse dia Wayde correu em 43.48 segundos, uma marca verdadeiramente impressionante para quem havia começado a temporada com um melhor de 44.38 segundos!
Em 2016, o sul-africano tornou-se no primeiro homem da história a correr os 100 metros abaixo dos 10 segundos, os 200 metros abaixo dos 20 segundos e os 400 metros abaixo dos 44 segundos, sendo que para o final desse ano ainda estava reservada a cereja no topo do bolo. Nos Jogos do Rio, Wayde van Niekerk espantou ainda mais o mundo ao percorrer a distância mais rápido do que muitos pensavam ser possível, terminando em 43.03 segundos (!). Destruiu por completo um mítico recorde de Michael Johnson (43.18), que durava há quase 17 anos e que muitos diziam ser imbatível.
Em 2017 renovou o seu título mundial em Londres, sendo que dois dias depois viria a ser Prata nos 200 metros. Desde aí tem sido atormentado por uma gravíssima lesão que colocou (coloca?!) em causa a continuidade da sua carreira e falhou os Mundiais de Doha, mas é o atleta que marca a década pelos três títulos globais e pelo enorme recorde mundial, sendo o único desta década com duas marcas no top-10 da disciplina. Kirani James que conquistou dois títulos globais neste período (Daegu 2011 e Londres 2012) merece também ser destacado, sem esquecermos a recente e surpreendente grande marca de Steven Gardiner (BAH) em Doha (43.48), que lhe deu o título mundial e a 8.ª marca mais rápida da história.
800 METROS: David Rudisha (KEN)
Os dois últimos campeonatos mundiais deram-nos dois pódios totalmente diferentes, sendo que os que conquistaram medalhas em Londres nem sequer chegaram à final em Doha! Tal imprevisibilidade demonstra na perfeição o que tem sido esta disciplina desde que David Rudisha (KEN) se lesionou com alguma gravidade e se perdeu nas sucessivas recuperações após os Jogos do Rio.
O queniano mostrou recentemente nas redes sociais que está de regresso – embora numa forma um pouco… redonda – e que espera em 2020 renovar o seu título olímpico e o seu regresso é muito bem-vindo e importante para o nosso desporto. Afinal falamos de um atleta que, nestes dez anos, conquistou quatro títulos globais (dois Mundiais e os dois Olímpicos), tendo inclusive batido nos Jogos de Londres o recorde mundial da disciplina em impensáveis 1:40.91!
Rudisha tem seis dos oito tempos mais rápidos da história (dez dos vinte e os três mais rápidos…), o que diz muito da sua superioridade nesta distância. Durante este período houve outros a correr bastante rápido sem títulos globais (Nijel Amos…) e houve três outros campeões, em Mundiais que Rudisha falhou por lesão (Mohammed Amman, Pierre Ambroise-Bosse e Donavan Brazier venceram em 2013, 2017 e 2019, respetivamente), embora Brazier seja uma enorme promessa e Amos ainda pareça ter muito no tanque, com Rudisha em pista a história é sempre outra.
1.500 METROS: Asbel Kiprop (KEN)
Escolha difícil se considerarmos o passado recente e o presente de Kiprop. O atleta queniano falhou um controlo antidoping em novembro de 2017 e cumpre neste momento uma suspensão de quatro anos. Kiprop sempre afirmou a sua inocência e, depois de ver confirmada a sua suspensão, tem disparado em todas as direções, apontando o dedo à IAAF e a agentes antidoping que terão – na versão do próprio – incriminado o atleta por não lhes ter dado dinheiro, conforme pretendiam.
De qualquer forma, a justiça desportiva determinou que Kiprop foi mesmo culpado, não retirando, ainda assim, qualquer um dos seus títulos, que foram anteriores a essa análise. A verdade é que na primeira metade desta década, Asbel Kiprop foi mesmo o grande dominador. Venceu os três títulos mundiais desse período (2011, 2013 e 2015), embora tenha falhado os dois títulos olímpicos (venceu, antes, em 2008), os quais foram para o argelino Taoufik Makhloufi (2012) e para o norte-americano Matthew Centrowitz (2016), ambos de forma algo surpreendente.
Nos últimos dois anos, outros quenianos, Elijah Manangoi (ouro em Londres 2017) e Timothy Cheruiyot (ouro em Doha 2019) têm dominado a distância e formam hoje um dos duelos mais interessantes do circuito. Ainda assim, ninguém venceu mais do que um título global nestes 10 anos, exceção feita a Asbel Kiprop, que também venceu três Diamond League no período (este feito também foi igualado por Cheruiyot nesta temporada).
Não menos importante, em julho de 2015, Kiprop correu, no Mónaco, a distância em 3:26.69, tornando-se no 3.º atleta a correr abaixo dos 3:27 em toda a história do evento (El Guerrouj e Lagat são os outros dois). O presente de Kiprop é negro e o futuro da distância está bem assegurado pela rivalidade Manangoi-Cheruiyot. Ainda assim, o atleta que marca este período na distância só pode ser ele mesmo.
5.000 METROS: Mo Farah (GBR)
Há quem diga que Mo Farah teve a sorte de não ter enfrentado os melhores de sempre nas distâncias longas em pista e, por isso, foi tão dominante. Muitos afirmam que teve a sorte de ter competido num daqueles períodos sem grandes nomes numa determinada disciplina e esses críticos utilizam as suas marcas para argumentarem a favor dessa teoria. É verdade que o recorde pessoal de Mo Farah na distância – 12:53.11 – o coloca “apenas” como o 34.º mais rápido da história (os 26:46.57 nos 10.000 colocam-no como 16.º nessa distância), mas também é verdade que vários dos que se encontram à sua frente nessa tabela, competiram com o britânico e não o bateram em grandes eventos.
A verdade é que Mo sempre foi um atleta de títulos, um atleta tático, que sempre apostou mais em medalhas do que em marcas ou recordes. O seu controlo das provas aliado a uma ponta final verdadeiramente demolidora fizeram de Farah um dos mais temíveis de sempre em pista, conquistando os dois títulos olímpicos da distância nesta década, bem como três dos quatro Mundiais em que competiu, perdendo apenas o último, em casa, no último suspiro. Pelo caminho venceu ainda uma Diamond League – ainda que nunca tenha sido a sua verdadeira aposta na distância – e outros três títulos europeus.
Só um outro atleta venceu títulos globais nesta década e esse foi Muktar Edris (ETH). Edris irá para sempre ser conhecido como o atleta que bateu Farah na última final em pista do britânico (e em Londres!), mas ainda mais surpreendente foi ver o etíope renovar o seu título mundial, este ano, em Doha, depois de um longo período de lesão, pelo que merece uma especial menção.
10.000 METROS: Mo Farah (GBR)
Também totalmente dominador nesta distância, apenas perdeu uma final e foi logo em 2011, em Daegu, ficando com a Prata e vendo o Ouro ir para Ibrahim Jeilan (ETH), que praticamente desapareceu do circuito depois da Prata, dois anos depois, em Moscovo. Farah venceu os Jogos de Londres e Rio também nesta distância, alcançando a dobradinha, e também conquistou o Ouro nos Mundiais de Moscovo, Pequim e Londres, a sua última grande vitória em pista.
Nos primeiros Mundiais sem Mo Farah – que se tem dedicado às provas de estrada – a vitória foi para Joshua Cheptegei (UGA), e os dois podem mesmo enfrentar-se em 2020, uma vez que Mo Farah planeia um regresso às pistas, para defender o seu título olímpico nesta distância! Um facto pouco mencionado e curioso deste período é que nenhum queniano venceu o Ouro nos 5.000 e 10.000 metros em Mundiais ou Jogos Olímpicos. As vitórias foram quase sempre para Farah (britânico, nascido na Somália) e quando não o foram, foram para atletas etíopes ou ugandeses!
110 METROS BARREIRAS: Omar McLeod (JAM)
Escolha bastante complicada esta, uma vez que nos sete eventos globais deste período tivemos seis diferentes vencedores! Omar McLeod foi o único a conquistar dois títulos, com a conquista do Ouro nos Jogos do Rio e com o título mundial de Londres um ano depois. Pouco antes do título do Rio, McLeod venceu também o título indoor dos 60 barreiras em Portland, sendo totalmente dominador em 2016 e 2017.
Os outros atletas que conquistaram títulos globais foram os norte-americanos Aries Merrit (Olímpicos de Londres), Jason Richardson (Mundiais de Daegu), David Oliver (Mundiais de Moscovo) e Grant Holloway (Mundiais de Doha), com o russo Sergey Shubenkov (Mundiais de Moscovo) pelo meio, mas o único que poderia retirar o título de atleta da década a McLeod seria Aries Merrit.
2012 foi um ano demolidor do atleta norte-americano, que começou por conquistar o título indoor de 60 barreiras em Istambul, tendo depois alcançado o título olímpico em Londres e batido o recorde mundial da distância (12.80) poucas semanas depois em Bruxelas, recorde que se mantém até hoje. Em 2013, Aries Merrit foi diagnosticado com uma grave doença renal (o que o obrigou a um transplante de rim) e nunca mais voltou a ser o mesmo atleta, embora tenha-se sempre mantido na elite.
É impossível saber o que Merrit poderia ter conquistado, mas a verdade é que 2012 foi o único ano excecional da sua carreira – para os padrões de elite – e o único em que baixou dos 13 segundos. McLeod baixou por três anos consecutivos (2015-2017), três épocas de elevadíssimo nível, o que juntando aos seus dois títulos globais lhe dá uma certa vantagem.
400 METROS BARREIRAS: Karsten Warholm (NOR)
As últimas três temporadas marcam uma viragem na disciplina e podemos dizer que vivemos hoje numa era totalmente diferente da que vivíamos até aos Jogos do Rio. Karsten Warholm (NOR), Abderrahman Samba (QAT) e Rai Benjamin (USA) baixaram todos dos 47 segundos, algo que só havia sido feito por um único atleta (o norte-americano Kevin Young, recordista mundial) e por apenas uma vez na história. Nomes grandes como Edwin Moses (gigante, no caso) nunca alcançaram tal feito e nunca se pensou que se pudesse perder uma prova correndo abaixo dessa mítica barreira dos 47.
Até 2016 todos os títulos do período foram totalmente repartidos: o dominicano Félix Sánchez (2012) e o norte-americano Kerron Clement (2016) conquistaram os títulos olímpicos, enquanto que os títulos mundiais foram para o britânico Dai Greene (2011), o atleta de Trinidad, Jehue Gordon (2013) e o malogrado queniano Nicholas Bett (2015). Em 2017, Karsten Warholm (NOR) surpreendeu o mundo, trazendo o título para o continente europeu e repetiu a façanha este ano em Doha.
Em 2017, muitos haviam pensado que Warholm tinha tido a sorte dos grandes nomes da altura estarem em baixo de forma, mas em 2018 e, principalmente, em 2019 o norueguês provou que nada foi obra do acaso. Com os 46.92 corridos este ano em Zurique, Warholm subiu a 2.º mais rápido de sempre e é um sério candidato a bater o recorde mundial que dura desde 1992. Mesmo com a mais forte concorrência da história – Samba e Benjamin – o norueguês não perdeu uma única prova em 2019!
3.000 METROS OBSTÁCULOS: Ezekiel Kemboi (KEN)
Esta é uma distância muita dividida ao meio, sendo que dois atletas poderiam ser justos distinguidos e logo eles que até tiveram uma animada (para ser simpático) rivalidade. Ezekiel Kemboi (KEN) venceu o título olímpico do Rio (2012), Conseslus Kipruto venceu em Londres (2016). Kemboi venceu os títulos mundiais de Daegu (2011), Moscovo (2013) e Pequim (2015), Kipruto venceu em Londres (2017) e Doha (2019).
É verdade que Kemboi nunca teve como prioridade a Diamond League e Kipruto venceu por 4 vezes o troféu (com vários momentos inesquecíveis) e isso equilibra bastante a balança (assim como as duas Pratas de Kipruto em 2013 e 2015, perdendo para…Kemboi), mas o domínio de Kemboi durante seis anos (2010-2015) foi avassalador. O queniano coreu inclusive em 7:55, subindo a 6.º mais rápido da história (como comparação, Kipruto ainda está por baixar dos oito minutos!). Kemboi foi, no topo da sua carreira, um dos melhores alguma vez vistos.
MARATONA: Eliud Kipchoge (KEN)
Aqui poucas dúvidas podem existir: Eliud Kipchoge (KEN) é o melhor maratonista da história! O queniano detém o atual recorde mundial da Maratona, impensáveis 2:01:39, em Berlim, em 2018. Venceu um título olímpico neste período (no Rio), mas o que mais impressiona é mesmo a sua impressionante regularidade e domínio, com oito vitórias em nove majors disputadas, sendo que só não venceu na estreia, em Berlim (2013), quando foi Prata!
Inspirou gerações com o recente desafio INEOS 1:59 e com o anterior Breaking2 e é um senhor, seja na estrada ou a discursar pelo mundo fora, ensinando-nos a todos nós que os sonhos são sempre possíveis de alcançar. Correu três das dez Maratonas mais rápidas de sempre e promete que não fica por aqui. Sem Kipchoge, Wilson Kipsang (KEN) seria um natural elemento a ser eleito, mas com Kipchoge não há espaço para mais ninguém.
20 KM MARCHA: Wang Zhen (CHI)
Os japoneses podem dominar os tempos mais recentes e Suzuki (JPN) pode ser o atual recordista mundial, mas ninguém tirou mais desta década do que Wang Zhen (CHI). O chinês não só venceu os Jogos Olímpicos do Rio (2016) depois do Bronze de Londres 2012, como também conquistou a Prata em duas diferentes ocasiões: nos Mundiais de Daegu 2011 e de Pequim em 2015. Venceu ainda a World Race Walking Cup (2012 e 2016) e o seu palmarés não encontra paralelo neste período.
50 KM MARCHA: Jared Tallent (AUS)
O coração pode querer dizer Yohann Diniz (FRA), que é o atual recordista mundial e que foi campeão mundial em Londres 2017, mas racionalmente o australiano tem que ser considerado o atleta dos últimos dez anos. Venceu o Ouro nos Jogos de Londres (2012) e depois foi ao Rio (2016) conquistar a Prata, fechando a sua carreira com quatro medalhas olímpicas. Nos Mundiais conquistou três medalhas, sendo que todas foram neste período, três Pratas, nos Mundiais de Daegu (2011), Moscovo (2013) e Pequim (2015).
Pelo caminho dois Ouros na World Race Walking Cup (2012 e 2016) e duas outras medalhas de Bronze (2010 e 2014). Jared tem a curiosidade de não ter ganho o seu grande Ouro (Londres 2012) em pista, mas na minha opinião não devemos desvalorizar performances que provaram ser as melhores dentro da legalidade e, tendo em conta o seu conjunto de medalhas, é ele que merece esta distinção.
SALTO EM ALTURA: Mutaz Essa Barshim (QAT)
Dois atletas conquistaram dois títulos globais ao ar livre neste período. Derek Drouin (CAN) venceu os Mundiais de 2015 e os Jogos Olímpicos de 2016, conquistando dois títulos globais consecutivamente. O facto de ter vencido no Rio poderia dar-lhe alguma vantagem ao relação aos dois títulos de Mutaz Essa Barshim (QAT), uma vez que os dois do atleta do Qatar foram em Mundiais (Londres 2017 e Doha 2019). No entanto, Barshim conquistou ainda um título mundial indoor em 2014, medalhas de Prata nos Olímpicos do Rio e Mundiais de Moscovo, bem como um Bronze nos Olímpicos de Londres, além de ter saltado 2.43 metros em Bruxelas (em 2014), tornando-se no 2º atleta da história a saltar mais alto.
Bohdan Bondarenko (UKR) também saltou muito alto em 2013 e 2014 (2.41 por duas vezes em 2013 e 2.42 em 2014), mas até aí o registo de Barshim é superior, pois superou por 13 vezes a barreiras dos 2.40, contra sete de Bondarenko e apenas uma de Drouin. E, claro, a sua vitória em casa, nestes últimos Mundiais ficará para sempre na nossa memória. Numa época muito longe do seu melhor, a batalhar duramente com a recuperação após uma grave lesão, conquistou o mais inesperado dos seus títulos de uma forma totalmente épica!
SALTO COM VARA: Renaud Lavillenie (FRA)
Se olharmos exclusivamente para títulos individuais ao ar livre, o panorama é bastante repartido, mas apenas um atleta – Sam Kendricks (USA) – conquistou mais do que um troféu, com a conquista do Ouro nos dois últimos Mundiais (Londres e Doha). No ano passado, o norte-americano também saltou 6.06 metros, tornando-o no 2.º atleta da história a saltar mais alto ao ar livre.
Neste período, Kendricks foi também Bronze nos Olímpicos do Rio e Prata em dois Mundiais Indoor (Portland 2016 e Birmingham 2018), sendo que não seria nenhum crime considerá-lo o atleta deste período. No entanto, Renaud Lavillenie (FRA) – que conquistou o Ouro nos Olímpicos de Londres – conquistou também a Prata no Rio, bem como quatro medalhas em Mundiais ao ar livre (Prata em Moscovo e Bronze em Daegu, Pequim e Londres), sem esquecermos o seu recorde de sete (!) conquistas da Liga Diamante.
O francês venceu também três Mundiais em pista coberta (Istambul, Portland e Birmingham), sendo claramente o atleta mais medalhado em grandes competições (não esquecer que venceu ainda três títulos europeus ao ar livre e três em pista coberta…). Não se pode também dizer que Lavillenie não tenha saltado alto: ao ar livre, saltou 6.05 metros, em 2015, em Eugene e em pista coberta… saltou 6.16 metros em Donetsk (2014), batendo o recorde mundial da disciplina (considerando saltos ao ar livre e em pista coberta)!
SALTO EM COMPRIMENTO: Greg Rutherford (GBR)
Teria Rutherford batido os melhores talentos desta década se todos estivessem em competição, na sua melhor forma, em simultâneo? Muito provavelmente, não. Afinal, o britânico terminou a carreira com um melhor pessoal de 8.51 metros, bem menos do que nomes como Luvo Manyonga, Juan Miguel Echevarria, Tajay Gayle ou Jeff Henderson. Mas a verdade é que Rutherford foi consistente e demonstrou apetência para os grandes momentos, sendo o único atleta a conquistar dois títulos globais neste período, ao vencer nos Jogos de Londres (2012) e nos Mundiais de Pequim (2015), além de ainda ter conquistado um Bronze no Rio.
Rutherford venceu ainda uma Diamond League e dois Europeus, mostrando que sempre esteve por lá na hora das decisões. Jeff Henderson (USA) que venceu nos Jogos do Rio e conquistou a Prata em Doha e Luvo Manyonga (RSA), que depois de uma incrível história de superação, foi Prata no Rio e, depois, Ouro nos Mundiais de Londres (bem como Prata nos Indoor de Birmingham) também merecem uma menção – e serão até atletas com uma maior capacidade que Rutherford -, mas a verdade é que o britânico tem um palmarés que fala por si.
TRIPLO SALTO: Christian Taylor (USA)
Christian Taylor (USA) foi um autêntico monstro neste período e não há ninguém que se tenha aproximado do norte-americano. Venceu os dois Jogos Olímpicos (Londres e Rio), venceu quatro dos cinco Mundiais ao ar livre (Daegu, Pequim, Londres e Doha) e – à semelhança de Lavillenie – conquistou por sete vezes a Liga Diamante!
Também em termos de marcas, Taylor não esteve nada mal, ao ter saltado 18.21 metros nos Mundiais de Pequim, subindo a nº.2 de sempre e ficando a apenas 8 centímetros do recorde mundial. O único título global ao ar livre que não venceu foi em Moscovo (ficou fora do pódio!), com a vitória a ir para Teddy Tamgho (FRA), atleta que também venceu um título global em pista coberta e que muito prometia até ser tão fustigado por lesões que até já o obrigaram a terminar a carreira.
Outro atleta em destaque neste período foi Will Claye (USA). O norte-americano saltou 18.14 metros no ano passado, subindo a 3.º de sempre. Conquistou dois títulos em pista coberta (2012 e 2018) e conquistou quatro medalhas em Mundiais (duas Pratas e dois Bronzes) e duas Pratas em Jogos Olímpicos. Um feito assinalável, mas que também confirma que esteve sempre na sombra do gigante Taylor. O que teria sido Claye sem Taylor é uma curiosa pergunta para a qual nunca teremos resposta.
LANÇAMENTO DO PESO: Tom Walsh (NZL)
Houve escolhas difíceis, muito difíceis e depois houve esta do Peso. Há quatro nomes que poderiam constar como atletas deste período sem chocar ninguém. Existem apenas dois atletas que venceram dois títulos globais ao ar livre – David Storl (GER) e Joe Kovacs (USA) – e mesmo assim não foi essa a nossa escolha.
Joe Kovacs (USA) venceu nos Mundiais de Pequim (2015) e nos de Doha (2019), tendo sido Prata nos Jogos do Rio (2016) e nos Mundiais de Londres (2017). Além disso, subiu em Doha a 3.º de sempre, ao lançar um centímetro a mais que Walsh e Crouser num concurso verdadeiramente épico – razões mais do que suficientes para ser o escolhido.
O seu compatriota Ryan Crouser (USA) foi o campeão olímpico no Rio (2016), foi Prata nos Mundiais de Doha (2019) e tem o impressionante registo de ter passado em todas as últimas quatro temporadas dos 22.50 metros! David Storl (GER) marcou a primeira metade da década, com títulos mundiais em Daegu (2011) e Moscovo (2013), além das medalhas de Prata nos Olímpicos de Londres (2012) e nos Mundiais de Pequim (2015) e três Pratas em Mundiais Indoor! Registo espantoso, embora apenas numa temporada tenha ultrapassado os 22 metros, facto que o diferencia dos outros atletas mencionados (fica a questão: até onde poderia ter lançado a competir regularmente com estes monstros?).
Por último, Tom Walsh (NZL). O neozelandês apenas venceu ao ar livre nos Mundiais de Londres, tendo sido medalha de Bronze em Doha e nos Jogos do Rio. É, no entanto, no “extra” que reside a diferença. Walsh conquistou também dois títulos mundiais em pista coberta durante este período – 2016 e 2018 –, tornando-o totalmente dominador nas grandes competições no triénio 2016-2018. A juntar a tudo isso, é também Walsh o atleta que mais edições da Diamond League venceu (três). Curiosamente, desde o início da sua carreira, Walsh todos os anos melhorou o seu recorde pessoal, com a exceção a ser… 2017, o ano em que foi campeão mundial ao ar livre!
LANÇAMENTO DO DISCO: Robert Harting (GER)
Daniel Stahl (SWE) foi o atleta que mais longe lançou nestes dez anos. Os 71.86 metros do passado junho colocam-no mesmo como o 4.º (igualado) a lançar mais longe na história. Não apenas isso: Stahl foi o líder mundial durante quatro anos consecutivos, entre 2016 e 2019, mostrando ter sempre um enorme lançamento dentro de si. No entanto, Stahl falhou de forma consecutiva em grandes competições (foi Prata em Londres, mas era superfavorito), alcançado apenas a glória nos últimos Mundiais de Doha – e ainda assim tremendo e longe do melhor que fez nessa temporada (67.59 metros chegaram para o título num dia desinspirado dos principais rivais).
Piotr Malachowski (POL) dominou os rankings nos três anos consecutivos anteriores, tendo conquistado o Ouro nos Mundiais de Pequim e tendo sido Prata em Moscovo e nos Jogos do Rio – também lançou bem longe com um melhor (em 2013) a apenas dois centímetros do melhor de Stahl, fazendo dele o 6.º a lançar mais longe na história. No entanto, o desporto faz-se de consistência e, principalmente, de consistência quando mais importa. E aí os alemães costumam ser exímios.
Os dois títulos olímpicos do período foram para os irmãos Harting e se Christoph – 68.37 de melhor pessoal – surpreendeu com a vitória no Rio, foi o irmão mais velho, Robert, que mais em evidência esteve. Robert Harting (GER) venceu os Jogos de Londres um ano depois de vencer nos Mundiais de Daegu e um ano antes de ir renovar o título a Moscovo, fechando aí um ciclo de três anos perfeito.
Mais ninguém fez algo semelhante neste período, sendo que também venceu dois Europeus (e nesta disciplina, a maioria dos rivais participam nesta competição). O atleta que terminou a carreira no final de 2018 nunca lançou tanto como Stahl ou Malachowski – terminou com um recorde pessoal de 70.66 metros, que o colocam, neste momento, no 20.º lugar da história – mas apareceu nos grandes momentos e isso é o que mais importa.
LANÇAMENTO DO MARTELO: Pawel Fajdek (POL)
É estranho perceber que o atleta que marca este período é um atleta que não conquistou sequer uma medalha olímpica, tendo bloqueado em Londres e, principalmente, no Rio, quando já era um nome consagrado. Ainda assim, os quatro títulos mundiais consecutivos (!) do polaco Pawel Fajdek (2013, 2015, 2017 e 2019) falam por si e não deixam margens para dúvidas sobre quem é o atleta que será lembrado no Martelo durante este período.
Kristián Pars (HUN) que venceu os Olímpicos de Londres (2012) e conquistou a Prata nos Mundiais de Daegu (2011) e Moscovo (2013) foi também um atleta que marcou o início deste período (embora com um controlo positivo antidoping a ensombrar a parte final da carreira). O atleta do Tajiquistão, (também ele apanhado nas malhas do doping, este num teste reanalisado em 2019 relativo a… 2011) Dilshod Nazarov venceu nos Jogos do Rio (2016) e conquistou a Prata em Pequim (2015). Ainda que sem o tal título olímpico, Fajdek merece todos os louros e seria um merecido prémio que alcançasse a rendição olímpica em Tóquio.
LANÇAMENTO DO DARDO: Johannes Vetter (GER)
Nas sete grandes competições globais ao ar livre, tivemos sete diferentes vencedores, o que sublinha a dificuldade na escolha da figura destes dez anos. Quatro conquistaram um Ouro e uma outra medalha neste período – Johannes Vetter (GER), Julius Yego (KEN), Keshorn Walcott (TTO), Vítězslav Veselý (CZE) – e Vesely até conquistou um Ouro em Europeus durante este período, com outras medalhas nessa competição a completar a coleção.
Foi o atleta mais medalhado do período e seguindo a lógica utilizada para outras disciplinas, poderia muito bem ser o destacado. No entanto, entre Veselý e Vetter vai um mundo de distância. Os 88.34 metros que o checo tem como recorde pessoal são consideráveis e colocam-no como o 35.º melhor de sempre. Mas Vetter lançou durante os últimos quatro anos sempre acima dessa marca por várias ocasiões, tendo um recorde pessoal de 94.44 metros, que o colocam como o 2.º da história a lançar o Dardo mais longe.
Vetter, que foi Ouro nos Mundiais de Londres, veio a ser Bronze nos Mundiais de Doha de 2019, mesmo bastante limitado na sua recuperação pós-lesão, tendo lançado, no período analisado, em sete competições acima dos 90 metros! Medalhas acima de marcas é o nosso lema. Mas num caso em que as medalhas em competições globais se equivalem (e onde existe considerável concorrência extra-Europa), não podemos esquecer as “bombas” do alemão. Mencionar ainda Thomas Rohler, que apenas conquistou uma medalha global no período (e logo o Ouro do Rio), mas que regressou para vencer os Europeus em 2018 e também lançou uma enorme pedrada a 93.90 metros, que o colocou como o 3.º da história.
DECATLO: Ashton Eaton (USA)
Sim, Kevin Mayer (FRA) é o novo recordista mundial, mas está ainda longe de atingir o que Ashton Eaton (USA) atingiu. O norte-americano venceu os dois Jogos Olímpicos deste período e venceu ainda os títulos mundiais em Moscovo (2013) e Pequim (2015), tendo terminado a sua carreira como o recordista mundial do Decatlo (mais tarde, a marca foi superada por Mayer).
Eaton venceu também três títulos mundiais em pista coberta (no Heptatlo), tendo também alcançado o recorde mundial vigente do Heptatlo. Kevin Mayer (FRA) conquistou o Ouro nos Mundiais de Londres (2017) e nos Indoor de Birmingham (2018) – além da Prata nos Olímpicos do Rio – mas também tem falhado inexplicavelmente em alguns momentos importantes quando é o absoluto favorito.
Foi assim nos Europeus de Berlim e foi assim nos Mundiais de Doha, sendo que tem este ano uma grande oportunidade de conquistar o seu primeiro título olímpico, em Tóquio. Os 2020s têm tudo para ser de Mayer, mas os 2010s foram e sempre serão relembrados como os anos de Ashton Eaton.
Foto de Capa: Olympic
Artigo revisto por Diogo Teixeira














