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Do dia 1 ao 4 deste mês realizaram-se os Mundiais de Pista Coberta e só se estiveram muito desatentos não repararam que estivemos por Birmingham a acompanhar tudinho ao vivo! Com este artigo, iremos, em definitivo, encerrar as nossas publicações no que se refere aos mesmos, procurando fazer uma análise geral de tudo o que aconteceu, mais ou menos positivo.
Resultados
Pode-se dizer que tivemos uns Campeonatos com bastante sucesso neste aspecto. Foram batidos 5 recordes dos campeonatos e 1 recorde mundial. Mas as grandes marcas começaram logo no segundo dia (e o segundo mais forte dos campeonatos). Murielle Ahouré (CIV) tornou-se a nova campeã mundial da velocidade (60 metros), correndo em 6.97, naquela que é a melhor marca dos últimos 8 anos. Antes disso, já tínhamos tido um fantástico concurso de Salto em Comprimento, em que os três primeiros ficaram separados por 3 escassos centímetros (8.46 – 8.44 – 8.42), com a vitória a sorrir ao jovem cubano de 19 anos, Miguel Echevarria, batendo o actual campeão mundial ao ar livre. Para se ter uma ideia da qualidade, o Salto que deu a medalha de Bronze daria para vencer os últimos 8 campeonatos mundiais indoor!
No terceiro dia, o dia de mais emoções, começámos com a queda durante a manhã do recorde dos campeonatos no Lançamento do Peso (Tom Walsh, ao lançar 22.31 metros) e tivemos direito a mais um recorde dos campeonatos (Sandi Morris saltou 5.95 com a Vara) antes de passarmos à velocidade. Aí duas estrelas norte-americanas brilharam. Kendra Harrison (USA) conquistou, finalmente, o seu primeiro grande título global e com estrondo nos 60 metros barreiras: recorde dos campeonatos em 7.70 (igualando o recorde norte-americano) e tornando-se a primeira mulher da história a correr por três vezes abaixo dos 7.80 nos mesmos campeonatos (aliás, nunca ninguém o tinha feito duas vezes sequer). Christian Coleman também viria a bater um aguardado recorde dos campeonatos, ao correr em 6.37 segundos, deixando cair mais um recorde de Maurice Greene.

Nessa mesma noite, tivemos ainda Courtney Okolo a correr a 4ª melhor marca de sempre norte-americana nos 400 metros (50.55), vimos um Heptatlo terminar com a diferença de…apenas 5 pontos (!) e vimos Genzebe Dibaba fazer uma dobradinha (1500/3000) pela primeira vez na sua carreira, a suceder a uma fantástica prova inaugural de 3.000 metros logo na primeira noite.
No último dia do evento, as estafetas dominaram as atenções, com a queda do recorde dos campeonatos no feminino (vitória esperada norte-americana) e a queda do recorde mundial dos 4×400 no masculino pelos polacos (!) naquele que foi um dos mais surpreendentes desfechos dos campeonatos. No mesmo dia, vimos Niyonsaba correr o tempo mais rápido dos 800 metros no feminino desde 2011 num pódio todo abaixo dos 2 minutos.

Portugal
A prestação portuguesa, não sendo perfeita, não se pode dizer que tenha sido negativa face ao esperado. Nelson Évora trouxe uma medalha de Bronze, naquele que foi o seu melhor salto da história em Pista Coberta (17.40) o que significou um novo recorde nacional e daria para vencer as duas últimas edições do Triplo Salto. Aliás, a marca de Nelson Évora foi a melhor com Bronze das últimas 6 edições dos campeonatos.

Em termos individuais, o outro destaque foi Lecabela Quaresma, que ficou bastante próxima do seu recorde pessoal no Pentatlo, terminando em 8º uns Mundiais para os quais nem trazia grandes expectativas e onde até chegou a ponderar recusar o convite. Já Lorene Bazolo, nos 60 metros, (em 7.39) ficou longe do seu objectivo de bater o recorde nacional (7.30), assim como Cátia Azevedo que correu em 54.17 os 400 metros. Longe ficou também Tsanko Arnaudov, atleta no qual depositávamos legítimas esperanças, mas que lançou no único lançamento válido do Peso 19.93 metros, ficando aquém dos seus objectivos, na 12ª posição. Esperamos melhor sorte nos Europeus de Agosto.
Já nas estafetas 4×400, a nossa equipa feminina, ainda que ficando na quinta posição da sua série, correu em 3:35.43, naquele que é um novo recorde nacional em pista coberta e mais não se poderia pedir!
As “estreantes” que há muito brilhavam
Kendra Harrison (nos 60 metros com barreiras), Sandi Morris (no salto com vara), Anita Marton (no lançamento do peso), Ivana Spanovic (no comprimento) e Katarina Johnson-Thompson (no pentatlo) já eram nomes grandes no atletismo, mas só aqui em Birmingham alcançaram o seu primeiro Ouro global. Christian Coleman (60 metros) também já era um nome por demais conhecido, mas é um jovem que nunca havia chegado como um dos favoritos a um evento global, então não se enquadra nesta categoria. O que significará isto para estas atletas? Não sabemos, mas pode ser o começo de algo grande para algumas delas e uma menor pressão para enfrentar o que por aí vem. Kendra Harrison, em palavras exclusivas no final da prova onde bateu o recorde dos campeonatos, confessou-nos que até foi um alívio para ela chegar a Birmingham depois de uma derrota (nos nacionais norte-americanos), não sendo, assim, favorita desta vez. E tal como a mesma reconheceu “as derrotas tornaram-me mais forte e hoje sou uma pessoa bem mais confiante”.
Diretamente de #Birmingham para todos os portugueses e seguidores do BnR: @ken_aye_
➡ Recordista Mundial dos 100 metros barreiras! 🥇🤗 #ReportagemBnR #IAAFWorlds pic.twitter.com/Ccos1vJrEI
— Bola na Rede (@BolaNaRedePT) 3 de março de 2018
O mau tempo
Será algo que sempre será recordado quando nos lembrarmos destes Mundiais. As temperaturas extremas durante a semana em Birmingham estiveram longe do normal, mesmo para os padrões britânicos. Embora, oficialmente, o termómetro marcasse entre -3 e -5 graus, a amplitude térmica esteve durante os dois primeiros dias do evento na casa dos -15 graus! Duas tempestades afectaram o território britânico e se a vinda do Norte, trouxe frio e neve (muita neve), a que veio do Sul trouxe vento forte, o que se veio a reflectir em escolas fechadas, transportes parados, estradas intransitáveis e até aeroporto encerrados durante várias horas.

Na verdade, 10 pessoas perderam mesmo a vida durante esta vaga de frio e mau tempo no Reino Unido. O tempo afectou os Campeonatos na medida em que tivemos atletas com voos atrasados (a não cumprir com a preparação prevista), bancadas mais despidas nas primeiras duas sessões (bilhetes reservados às escolas não foram utilizados porque…não havia escola!) e alguns percursos feitos a pé pelos atletas (a enterrar literalmente os pés e tornozelos na neve) porque não havia transportes que pudesse circular. No final, a temperatura aqueceu no anterior e isso era o mais importante.
As desqualificações
Foi uma das polémicas dos campeonatos. Nunca se tinha visto algo semelhante…tivemos uma série toda desqualificada nos 400 metros, tivemos medalhistas olímpicos desqualificados por pisar a linha, tivemos uma prova que seria um recorde europeu dos 400 metros (Oscar Husillos) com a desqualificação dos dois primeiros classificados e as reclamações foram muitas pela internet fora. Os mais ruidosos, claro, os norte-americanos! O gráfico abaixo permite-nos perceber um padrão, que coloca Birmingham bem à frente de todos os outros organizadores no que diz respeito a este aspecto.
Se é verdade que a existência do árbitro de vídeo permite detectar um conjunto bem maior de situações e que os juízes terão apenas seguido as regras, a verdade é que a nível de comunicação e transparência o processo teve as suas falhas. E, claro, um pouco de bom senso para situações em que não se verifique uma vantagem clara deve ser algo a ter em conta no futuro. Pelas redes sociais, muitas sugestões circulam, como a de usar pequenas penalizações de segundos de acordo com o tipo de infração ou até a existência de uma espécie de escala de gravidade de infracções, como existe, por exemplo, na Marcha.
A Organização
Um ponto claramente positivo dos campeonatos, embora já fosse de esperar dada a experiência de Birmingham em organizar grandes eventos. Conhecida como a capital do Atletismo britânico (é por lá que se realizam todos os campeonatos nacionais), a cidade já recebeu anteriormente um Mundial Indoor (2003), um Mundial da Meia-Maratona (2009), todos os anos tem um meeting da Liga Diamante e de dois em dois anos (em anos alternados com Glasgow) recebe um meeting Indoor da IAAF World Indoor Tour, além de eventos de outros desportos. Mais uma vez passou com distinção neste aspecto, mostrando-se exemplar na forma como preparou a cidade para os campeonatos, com várias informação referentes ao evento espalhadas por todo o lado, áreas bem definidas fora e dentro do pavilhão e muitos voluntários no apoio ao público, aos media e aos atletas. Com muitas das principais cadeias hoteleiras do mundo a curta distância (a pé) do Pavilhão, torna-se uma localização praticamente perfeita para receber este tipo de eventos.

O Público
Mencionado por quase todos os atletas como um dos melhores públicos do mundo a nível indoor, o apoio aos atletas foi uma constante e até em eventos pouco usuais, como os Lançamentos, que, por vezes, são esquecidos pelo público e até pela organização. A primeira sessão (noite de Quinta) e a segunda (manhã de Sexta) apresentaram clareiras nas bancadas, principalmente relacionadas com o mau tempo vivido em Birmingham, que impediu muitos (alguns com bilhete) de se deslocarem ao pavilhão, mas nas restantes sessões a casa cheia foi uma constante. Os atletas adoram o público britânico e a verdade é que os ingleses adoram o Atletismo e vivem-no como poucos. Numa época conturbada para o Atletismo (principalmente com o caso de doping russo), a IAAF sabia que apostar em Londres (Outdoor) e Birmingham (Indoor) seria jogar pelo seguro e uma aposta certa. Não falharam. Os dois eventos foram dois dos mais bem-sucedidos de sempre da história do Atletismo e mostraram que, ao contrário do que muitos todos os anos apregoam, o desporto está bem vivo e recomenda-se. Em Londres, recorde-se, foram batidos os recordes de venda de bilhetes em Campeonatos Mundiais por larga margem, uma audiência de 942M de espectadores a nível global e um impacto directo económico de 107 milhões de Libras para a cidade. Em Birmingham, provou-se que não foi apenas o efeito Bolt. Na Grã-Bretanha, o Atletismo joga em casa e a fasquia está neste momento altíssima para os Mundiais de Doha em 2019 (o próximo evento global).
Bola na Rede / Planeta do Atletismo
Tínhamos como objectivo realizar a maior cobertura em língua portuguesa aos Mundiais e, na verdade, esse objectivo foi atingido em larga escala. Não existiu um outro meio em qualquer país de língua portuguesa, a fazer uma análise tão completa e detalhada do evento, com imagens e vídeo exclusivos do que se ia passando pela cidade inglesa, ao mesmo tempo que tudo reportávamos, com algumas curiosidades e estatísticas divulgadas ainda antes de serem divulgadas por outros meios de comunicação especialistas a nível mundial, com bastante mais experiência do que nós. Nem tudo correu de forma perfeita (nem nunca correrá, porque a busca pela perfeição é uma constante), mas nem nos nossos melhores sonhos esperaríamos conseguir exclusivos com campeões e recordistas mundiais (Kendra Harrison) e ter tamanho interesse por parte do público nas duas páginas, em resposta às nossas actualizações em tempo real em relação ao que de importante acontecia por Birmingham. O balanço é claramente positivo e no final fica a certeza que a parceria é para manter para futuros eventos.










