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Num dia em que o Decatlo e o Heptatlo terminaram com dois novos campeões mundiais, foi, ainda assim, nos 400 metros que a maior surpresa se deu. Sim, sabia-se que Naser poderia bater Miller-Uibo. Não, nada faria prever que o pudesse fazer com a terceira melhor marca da História! A prova de 400 metros foi um hino ao Atletismo, com cinco grandes recordes pessoais, todos abaixo dos 50 segundos.
Os Portugueses

Fonte: FPA
Portugal teve quatro atletas em competição no sétimo dia do evento, com a participação de três (Patrícia Mamona, Susana Costa e Evelise Veiga) no Triplo feminino e um (Francisco Belo) no Peso masculino.
As primeiras a entrar em ação foram as atletas do Triplo, Patrícia Mamona conseguiu o apuramento para a final de sábado, com um primeiro salto de 14.21 metros. A marca não era suficiente para a qualificação direta (14.30), mas a atleta portuguesa conseguiu mesmo o apuramento, sendo a 10.ª a saltar mais longe na tarde de Doha. Já no que diz respeito a Susana Costa e Evelise Veiga, a sorte não foi a mesma. Evelise Veiga (18.ª marca entre as presentes), a fazer um melhor de 13.89 metros e Susana Costa a fazer um melhor de 13.77 metros (20.ª).
No final, Patrícia Mamona afirmou que sentiu “um pequeno estalo no joelho” durante a competição, mas que não sentia quaisquer dores e que “foi só um susto”. Sabia que na final tinha “que dar tudo”, pois o nível no Triplo “está muito alto”. Evelise Veiga não deixou esconder as suas emoções e afirmou estar “desgostosa”, porque não conseguiu “mostrar o melhor” de si, mas que tem que estar orgulhosa da época que fez. Já Susana Costa reconheceu que foi uma “época de verão atribulada”, que “pensava que o que tinha treinado chegaria”, mas que “sabia que não estava a 100% e que nestas competições é necessário estar a 200%”.
Mais tarde, foi a vez de Francisco Belo entrar em competição no Peso, tendo um resultado abaixo das suas expectativas, com um melhor lançamento a 19.52 metros, sendo 32.º na classificação geral. No final, o atleta não quis apontar desculpas, confirmou que teve um problema físico que o deixou em observação por 24 horas, uma gastroenterite, mas disse também que isso não é desculpa e que “todos os atletas têm pequenos problemas”. Disse que arriscou hoje porque “sabia que o nível seria elevadíssimo e teria sempre que fazer a marca de qualificação direta para passar”. Belo diz que agora é tempo de começar a pensar nas “competições do próximo ano”, um ano de Mundiais de Pista Coberta, Jogos Olímpicos e Europeus (por ordem temporal, não por ordem de importância).
As finais de hoje
21-year-old Salwa Eid Naser blazes to 400m gold beyond Shaunae Miller-Uibo
It’s the 3rd fastest time in history! 🔥🔥🔥
🥇Salwa Eid Naser 48.14 🇧🇭
🥈Shaunae Miller-Uibo 48.37 🇧🇸
🥉Shericka Jackson 🇯🇲 pic.twitter.com/5WWPU64GMQ— Olympic Channel (@olympicchannel) October 3, 2019
O momento mais aguardado da noite era a final feminina dos 400 metros, com o grande duelo em perspetiva entre Shaunae Miller-Uibo (BAH), a campeã olímpica e líder mundial do ano, e Salwa Eid Naser (BRN), a atleta que… só perdia com Miller-Uibo. Naser, que nasceu na Nigéria, mas que compete pelo Bahrein, arrancou muito forte e, por momentos, 80% dos que assistiam, no estádio ou na televisão, terão pensado que ela pagaria a fatura na parte final, mas…não! Aguentando-se bastante forte à saída da curva, sabia que Miller-Uibo iria forçar na reta da meta, mas continuou forte e terminou nuns inacreditáveis 48.14 segundos, a 3.ª melhor marca da História (as primeiras duas são de Marita Koch e Jarmila Kratochvílová…), recorde asiático e o tempo mais rápido do mundo desde 1985! No final, a atleta nem queria acreditar no que os resultados mostravam, mas é mesmo verdade e ela é a nova campeã mundial com uma marca do outro mundo. Do outro mundo foram também os resultados, no geral. Cinco mulheres baixaram dos 50 segundos, todas com recorde pessoal, mas o grande destaque – além de Naser, claro – tem de ser Shaunae Miller-Uibo que, em 48.37 segundos sobe para a 5.ª mais rápida da História! Ainda que bata também o recorde da América Central e da América do Norte, apenas leva para casa uma medalha de Prata.
Já para a Prata voou Shericka Jackson (JAM) em 49.47 segundos, repetindo a medalha que tinha alcançado em Pequim, aqui com um novo recorde pessoal. No 4.º e no 5.º lugar, duas norte-americanas – escusado será dizer que também com recorde pessoal – Wadeline Jonathas (USA) e Phyllis Francis (USA) – que até era a campeã mundial em título – correram em 49.60 e 49.61, respetivamente. Será, muito provavelmente, a prova dos campeonatos e Naser, aos 21 anos, pode muito bem sair de Doha como a nova coqueluche do Atletismo mundial.
Novos e surpreendentes campeões mundiais nas provas combinadas. No final da noite de ontem, Kevin Mayer (FRA) e Nafi Thiam (BEL) pareciam bem lançados para renovarem os seus títulos (não eram líderes, mas algumas das suas provas fortes eram hoje). No Decatlo, Mayer, mais uma vez, teve azar em grandes campeonatos e depois dos três nulos no Comprimento dos Europeus do ano passado, agora, em Doha, lesionou-se e já não conseguiu fazer a Vara (o atleta diz que passou por problemas no tendão de aquiles nas últimas semanas). O Ouro foi assim disputado até ao último momento, indo para o atleta que venceu nos 800 metros finais, Niklas Kaul (GER), com 8691 pontos, um novo máximo de carreira aos 21 anos, depois do título mundial júnior há 3 anos.

Fonte: IAAF
A Prata foi para Maicel Uibo (EST), que lutou como pôde nos 800 metros finais para alcançar o 2.º lugar com um novo recorde pessoal (8604 pontos), saindo dos Campeonatos com a mesma medalha que a sua esposa, Shaunae Miller-Uibo! Uibo tinha sido Bronze nos Indoor de Birmingham e aqui sobe uma posição. Por último, com a medalha de Bronze nestes Campeonatos, ainda não é desta que Damian Warner (CAN), que fez 8529 pontos, chega ao Ouro. O canadiano tem agora três medalhas em Mundiais ao ar livre e uma em pista coberta, além de um Bronze olímpico.
Já no Heptatlo, Katarina Johnson-Thompson (GBR) fez muito melhor do que Thiam no Comprimento (6.77/6.40) e não esteve tão distante como se esperava no Dardo (43.93/48.04), pelo que quando entrou na prova final de 800 metros já se sabia que só um cataclismo impediria o seu título mundial, uma vez que KJT tinha um recorde pessoal 8 segundos melhor do que Thiam nessa distância. Aí, a britânica não desiludiu. Correu em 2:07.26 e não só se sagrou campeã mundial, como bateu o recorde nacional britânico da grande Jessica Ennis-Hill (GBR), totalizando um máximo de 6981 pontos, ao conquistar 4 das 7 provas nestes Campeonatos. Recorde-se que depois de ter sido 6.ª no Rio e 5.ª nos Mundiais de Londres, muitas críticas se fizeram ouvir relativamente à sua capacidade competitiva. Pois aí está a resposta de Johnson-Thompson… depois do título em pista coberta, este é o primeiro título mundial ao ar livre para a atleta britânica. No segundo lugar, a Prata foi para Nafi Thiam (BEL), que com 6677 pontos, teve a sua primeira grande derrota da carreira para a britânica, sendo que o Bronze foi para Verena Preiner (AUT) que fechou o Heptatlo com 6560 pontos, próxima do seu recorde pessoal, na sua primeira grande medalha da carreira.

Fonte: IAAF
A primeira final da noite foi a do Lançamento do Peso feminina. Lijiao Gong (CHI) – que já havia sido a campeã em Londres – começou bem, esteve sempre na frente do concurso, com todos os lançamento acima dos 19 metros e renovou mesmo o título, com um melhor lançamento a 19.55 metros no 4.º ensaio.

Fonte: IAAF
Daniel Thomas-Dodd (JAM) ainda assustou no último ensaio, mas ficou a 8 centímetros (com 19.47), garantindo, ainda assim, a primeira medalha da Jamaica na história do evento. O terceiro lugar do pódio foi para Christina Schwanitz (GER), que lançou a 19.17 metros no 5.º ensaio, garantindo todo o pódio acima dos 19 metros.
Foto De Capa: IAAF
Outros destaques
Em duas decisões pouco usuais, a IAAF decidiu atribuir medalhas de Bronze extra nas provas masculinas do Lançamento do Martelo e dos 110 metros barreiras. No Martelo, a Polónia protestou relativamente ao primeiro lançamento de Bence Halász (HUN), que foi marcado a 78.18 e que lhe deu o Bronze. Acontece que, após a prova, a IAAF reconheceu que o lançamento não deveria ter sido validado, pelo facto do atleta ter pisado fora, mas manteve esse Bronze, justificando que o facto do atleta ter visto essa marca como válida poderá ter influenciado o seu restante concurso, dando o Bronze a Halász e a Wojciech Nowicki (POL), que tinha sido 4.º. Já nas barreiras, Orlando Ortega (ESP) ia em 2.º quando foi impedido na sua marcha por Omar McLeod, que, em queda, atingiu e desequilibrou o espanhol. A IAAF manteve a medalha de Lagarde, mas atribuiu uma extra a Ortega.
Amanhã
Amanhã o dia não terá a participação de qualquer atleta português, o que não quer dizer que não existam vários motivos de interesse, pois será um dia com seis finais: cinco no estádio e uma na estrada.
A primeira delas será o Salto em Altura masculino (a partir das 20h15 locais, menos duas em Portugal Continental) com a estrela local, Mutaz Essa Barshim, que, apesar do tempo de paragem por lesão, deu boas indicações na qualificação. Pouco depois (21h locais) começa a final feminina do Lançamento do Disco, onde se espera uma grande luta entre Sandra Perkovic (CRO) e as duas cubanas que têm dominado o ano: Denia Caballero e Yaimé Perez. Às 21h30 locais, tem lugar a aguardadíssima final dos 400 barreiras no feminino, com Dalilah Muhammad (a nova recordista mundial) e Sydney McLaughlin (uma das maiores promessas do desporto) a dividirem as atenções. Logo depois, às 21h45, será a vez de uns 3.000 metros com obstáculos, que prometem colocar o estádio em polvorosa, com os grandes favoritos a dividirem-se entre o Quénia (crónicos vencedores do evento e que trazem aqui, por exemplo, Conseslus Kipruto, o campeão mundial), a Etiópia (Getnet Wale é o nome maior) e Marrocos (será desta para El Bakkali?). Por fim, a ação acabará (às 22h20 locais) no estádio com a final masculina dos 400 metros, final que está agora muito em aberto, com a ausência de Michael Norman (USA) que caiu, eliminado, nas semifinais. Fred Kerley (USA), Steven Gardiner (BAH) ou mesmo o, finalmente regressado, Kirani James (GRN) estarão na luta pelas medalhas. Mais tarde, às 23h30 locais, na Corniche de Doha, decorrem ainda os 20km Marcha masculinos.
Artigo revisto por Inês Vieira Brandão













