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«É preciso revolucionar o Atletismo, apostar em jovens» – Entrevista BnR com Mariana Machado

Angelina Barreiro · 20 min

Foto: Angelina Barreiro/Bola na Rede

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Em terras minhotas – especificamente, em Braga, no Estádio 1.º de Maio – encontrámos a atleta que está a dar a reviravolta na História do Atletismo Nacional. De apenas 19 anos, Mariana Machado dá-nos a conhecer um pouco da sua história, do seu percurso no desporto, da sua vida académica e da importância que o Atletismo tem tido em Portugal.

– O início da viagem ao mundo do Atletismo e a «herança» na Modalidade –

«Fui apurada ao [corta-mato] nacional, e, como adorei a experiência, comecei a treinar mais. A partir daí, fiquei encantada por este mundo».

BnR: Em primeiro lugar, gostaríamos de começar por uma curta viagem ao passado. Como é que descobriste a modalidade?

Mariana Machado: Na verdade, a modalidade de Atletismo sempre esteve muito presente na minha vida, porque a minha mãe foi atleta olímpica e sempre me incutiu o hábito pelo desporto. É óbvio que, o facto de a minha mãe ter praticado Atletismo, sempre me foi incutido, tanto pela minha família, mas também pelas pessoas que conheciam a minha mãe, que diziam «também vais correr como a tua mãe», e, assim, as pessoas «de fora» acrescentavam sempre uma pequena pressão. Por isso, penso que foi por aí que o Atletismo surgiu.

BnR: Quando é que começaste a praticar?

Mariana Machado: Comecei a praticar Atletismo um pouco tarde, com 14 anos, se não me engano. Porque, inicialmente, no meu quinto ano, eu queria praticar, mas a minha mãe achava que era uma vida de muitos sacrifícios, e muito treino, e achava que eu ainda era muito nova. Só no nono ano, é que muitas pessoas me tentaram trazer para o Atletismo, inclusive a minha treinadora, Sameiro Araújo, que na altura era treinadora da Bárbara, e também houve um professor meu de educação física que me convenceu a entrar num corta-mato escolar. Fui apurada ao [corta-mato] nacional, e, como adorei a experiência, comecei a treinar mais. A partir daí, fiquei encantada por este mundo, basicamente.

Mariana Machado, ao lado da sua treinadora, Sameiro Araújo, no campeonato da Europa de Cross-Country, em 2018
Fonte: SC Braga Atletismo

BnR: Consegues definir um pequeno momento em que te apercebeste que o Atletismo era realmente a modalidade certa para ti (por exemplo, uma prova, um treino, entre outros)?

Mariana Machado: Essa prova, que foi a minha primeira competição a nível nacional, que o meu professor me convenceu a ir – o [corta-mato] regional, e depois do regional passar ao nacional, que se realizou na Guarda – acho que foi onde me apercebi que poderia chegar mais longe. Pode ter sido um décimo lugar completamente insignificante, mas, para mim, teve bastante valor, e fez-me consciencializar da decisão de entrar mesmo a sério no mundo do Atletismo. Foi um décimo lugar que conquistei sem sequer treinar para o Atletismo, e aí percebi que isto é um bocado de talento e genética que tenho em mim. Essa prova marcou-me muito, porque, para mim, foi descobrir um mundo novo, algo que foi como «amor à primeira vista». Nesse ano, ganhei a minha primeira medalha a nível nacional, fui vice-campeã aqui [Estádio 1.º de Maio], e, a partir daí, consegui alcançar coisas cada vez maiores, a ambicionar cada vez mais, e, quando é assim, uma pessoa já não quer parar e quer conquistar ainda mais, e ganhar.

BnR: Poderias ter considerado qualquer uma das outras disciplinas do Atletismo, mas optaste pela corrida. Queres-nos explicar um pouco mais sobre esta escolha?

Mariana Machado: A verdade é que eu não tenho jeito para mais nada, sinceramente (risos). No primeiro ano que comecei a praticar Atletismo com a Sameiro, ainda fiz provas combinadas – uma competição que engloba lançamentos, salto em comprimento e em altura, velocidade, barreiras – e ainda fui terceira a nível regional, mas desde cedo me apercebi que só me conseguia destacar nas provas de corridas, e mais longas, principalmente do meio fundo e o fundo. Gostava de fazer um bocadinho de tudo, mas tinha um pequeno «ódio» a fazer barreiras. Mas desde cedo que a minha genética me levou a corrida contínua, e meio fundo/fundo.

BnR: Falando de Atletismo propriamente dito, tens feito competições por 800m, 1500m, 3000m e corta-mato. Das quatro, qual é a disciplina em que te sentes mais à vontade?

Mariana Machado: A que eu me sinto mais à vontade… É difícil. 800m não é de certeza (risos), porque os 800m é uma prova muito dura, e para o qual eu não tenho caraterísticas muito boas. É uma prova incrível de ver, das minhas favoritas no Atletismo, mas não tenho o perfil indicado para a fazer [800m], mas faço – ainda este ano bati o meu recorde pessoal – mas mais numa forma de me preparar para os 1500m, que penso que é a minha melhor prova, e é das que gosto mais, porque não é uma prova muito rápida como os 800m, nem tão demorada como os 3000m. O corta-mato também tem um gostinho muito especial. São duas provas [1500m e corta-mato] muito diferentes – uma é em cross, outra é em pista – e, o corta-mato, é sempre diferente. Nunca encontrámos um corta-mato igual ao outro, e gosto imenso dessa diversidade. E acho que é no cross [corta-mato] que se vê a garra do atleta. Quem tiver mais garra, é o candidato a vencer. No início do ano, fiz corta-matos, fui ao Europeu de Cross-Country, e agora vou voltar a focar-me nos 1500m. Mas são as minhas duas disciplinas de eleição.

BnR: És filha da antiga atleta olímpica de Atletismo, Albertina Machado, e um verdadeiro exemplo de que “filho de peixe sabe nadar”. Essa influência familiar também foi uma das razões que te levou à escolha da modalidade?

Mariana Machado: Sim, claro. O facto de a minha mãe ter sido atleta, é óbvio que me incutiu o hábito pelo desporto. Mas nunca me forçou a nada, muito pelo contrário, no início até era ela que nem queria muito. Mas, desde que eu me decidi, e comecei a mostrar resultados na modalidade [corta-mato], ela também ficou contente por eu me estar a sobressair num desporto que ela tanto adora. E é sempre muito curioso esse provérbio [filho de peixe sabe nadar], e as pessoas, muitas vezes, associam, e eu também acredito que haja uma componente genética. Mas acho que foi sobretudo uma decisão minha, e o facto de eu ser muito ambiciosa, e muito persistente, que me levou a continuar na modalidade. Ter a minha mãe como suporte ajuda bastante, e é sempre bom ter em casa alguém que possa aconselhar neste aspeto.

Mariana Machado com a sua mãe e ex-atleta olímpica, Albertina Machado
Fonte: Câmara Municipal de Braga

BnR: Para além da tua mãe, Albertina Machado, quem é que também consideras que é uma influência e uma “inspiração” para fazeres o que fazes?

Mariana Machado: Várias pessoas me perguntam se eu tenho ídolos ou inspirações. Eu inspiro-me nas pequenas pessoas, nos atletas com os quais eu trabalho diariamente. Claro que vejo resultados de atletas internacionais, e fico abismada: «Como é que é possível correrem assim?». Mas eu não sei qual é o trabalho que está por detrás disso. Por exemplo, no meu grupo de treino, eu vejo o quanto eles trabalham e se esforçam diariamente, e acho que é nessas pessoas que eu me inspiro. As pessoas que eu consigo ver realmente o seu esforço, trabalho e dedicação. No Atletismo, tenho como inspiração a minha mãe, claro, porque é uma pessoa com quem eu lido diariamente, e acompanho o seu esforço diário.

BnR: Alguma vez sentiste uma pressão acrescida por todo este histórico familiar que carregas, na modalidade?

Mariana Machado: Claro, há sempre uma pequena pressão. Mas, para ser sincera, nunca fui uma rapariga de ceder à pressão. Sempre lidei bem com ela [pressão], e nunca fiquei nervosa pelo facto de ser filha da Albertina, e das pessoas ficarem de olhos postos em mim por isso. Quando vou para uma competição internacional, sei do trabalho que tenho feito. Tenho consciência de que, se estou lá, é porque estou bem preparada, e só tenho que estar confiante do trabalho que realizei, e, só penso que o trabalho que tenho tido seja recompensado nas próximas provas. Acho que, quando trabalhamos bem, só tem tudo para os resultados correrem o melhor possível, e o melhor ainda está para vir.

– O orgulho de vestir as cores nacionais e a oportunidade de representar o «clube que se ama» –

«Tenho orgulho de pertencer a esta «seleção de guerreiros», reconhecendo o trabalho que tenho feito em prol do Desporto a nível nacional, e  em prol do Sporting Clube de Braga».

BnR: No ano passado, ganhaste três medalhas europeias, bateste inúmeros recordes (até os teus próprios recordes) e foste eleita como a atleta europeia do mês de novembro. Segundo estes dados, podes considerar 2019 como um dos teus melhores anos enquanto atleta?

Mariana Machado: Espero que [2019] não tenha sido o meu melhor ano. Aliás, espero que 2020 seja bem melhor. Mas, sim, acho que foi um ano incrível. Consegui as minhas primeiras medalhas a nível internacional. Sempre disse que já era das melhores a nível nacional, e que gostava de dar o salto a nível internacional, e alcançar as minhas primeiras medalhas. E 2019 foi o ano disso acontecer. Foi com muito trabalho e muito esforço que consegui, num ano em que muitos atletas acabam por abandonar o desporto, que é na entrada para a universidade. Tenho um quarto lugar no Campeonato do Mundo, um terceiro e segundo lugar no Campeonato da Europa, só me falta mesmo a medalha de ouro – que esteve à porta, nos 3000m do Campeonato Europeu de Pista. Mas, sim, 2019 foi um ano incrível, mas espero que, em 2020, consiga alcançar coisas melhores. A nível internacional é difícil, porque, parece que não, mas já sou Sénior, e agora começa a ser mais difícil de nos fazer destacar num escalão que abrange um número de atletas muito maior. Mas acredito que, mais tarde ou mais cedo, tenho tudo para alcançar ainda mais medalhas, e, agora, já será no escalão de Sénior.

Mariana Machado conquistou a medalha de prata nos 3000m no Campeonato Europeu de Boras, na Suécia, em 2019
Fonte: SC Braga Atletismo

BnR: Se tivesses que escolher uma palavra para definir o orgulho de representar a nossa bandeira, qual seria?

Mariana Machado: É uma boa pergunta. É uma sensação tão boa. Uma palavra… Seria mesmo orgulho. Inspiração, determinação, garra. Eu acho que, quando vestimos o equipamento da Seleção, nós transformámo-nos. Pelo menos, quando eu o faço, penso «sou invencível» (risos). A primeira vez foi assim, e acho que não há nenhuma vez como a primeira. É sempre especial. Mas, cada vez que represento Portugal, é sempre uma sensação muito boa e um orgulho extremo de dar tudo por tudo pelo nosso país.

BnR: Desde sempre que tens representado o SC Braga. Como é que tem sido fazer parte da história do clube minhoto?

Mariana Machado: É muito bom. Ainda só tenho 19 anos e já considerarem que faço parte da História do Clube [SC Braga] é incrível. Acho que, só os recordes que já alcancei, as medalhas que também já consegui, acho que já devo ter um lugarzinho naquele clube (risos). É sempre muito especial, é o clube da minha terra, o clube que eu mais gosto, que me faz feliz, o clube que me faz correr de uma forma diferente, porque estou a representar quem realmente gosto. E há poucas coisas como isso. É como representar a Seleção, mas, aqui em Portugal, represento o SC Braga. É muito gratificante, e espero que o clube também, da mesma forma que eu tenho este carinho imenso, retribua da mesma forma, tal como eu tenho orgulho de pertencer a esta «seleção de guerreiros», reconhecendo o trabalho que tenho feito em prol do Desporto a nível nacional, e, em prol do Sporting Clube de Braga.

BnR: Para ti, qual é a importância de fazer elevar o nível de um clube que não é, por norma, considerado um “grande”?

Mariana Machado: É muito bom. Ainda no ano passado fui à “Taça Europa das Nações”, e eu e mais um colega éramos os únicos atletas do SC Braga, e é sempre bom pôr o SC Braga nestas competições a nível internacional, e é gratificante ver que consigo estar também nas melhores a nível internacional, a representar este clube. É bom saber que estou a retribuir a confiança que o SC Braga depositou em mim.

Mariana Machado, juntamente com Ricardo Lima, na representação de Portugal e do SC Braga no Campeonato da Europa das Nações, em 2019
Fonte: SC Braga Atletismo

BnR: Consideras que tens uma espécie de “ritual” antes de cada prova? Qual é o teu “segredo” para manter a concentração?

Mariana Machado: Na verdade, eu não tenho assim nenhum «ritual». Eu só sou uma rapariga extrovertida, antes das provas falo com toda a gente, sempre divertida, a rir. Há pessoas que correm com uma pedra na mão, outras que vestem as cuecas ao contrário (risos), há situações mesmo caricatas, mas eu não tenho nenhuma. Gosto de estar alegre, porque vou fazer uma coisa que realmente gosto, e, quando chega a hora da prova, é ficar o mais concentrada possível, e dar tudo.

BnR: Se tivesses que escolher apenas um momento da tua carreira no Atletismo, qual é que escolherias?

Mariana Machado: É uma pergunta difícil, porque eu tenho muitos momentos. O momento que eu fui mais «feliz», foi quando fiquei em quarto no Campeonato do Mundo. Fiquei contente, porque um quarto lugar num Campeonato do Mundo é sempre um resultado incrível. É verdade que fiquei muito próxima das medalhas, e, por isso, é um sabor «agridoce». Outro momento que fui feliz, foi agora no Campeonato da Europa de Corta-Mato, e talvez tenha sido aquele que fui mais feliz, porque, apesar de ter ficado em terceiro, e acho que as pessoas depositaram mais expetativas em mim, a verdade é que o cross não era, de todo, bom para mim – muito duro, com muitas subidas – mas preparei-me para tal, e acho que foi por isso que consegui ganhar uma medalha. Pode não ter sido o resultado que muitos estavam à espera, mas, para mim, foi uma prova marcante. Sim, talvez a mais marcante (risos). Porque tinha, ao meu lado, toda a minha família, e isso nunca tinha acontecido nas competições internacionais. Então, ver toda a minha claque e ouvir o meu nome enquanto corria, foi uma sensação gratificante.

Mariana Machado conquistou a medalha de bronze no Campeonato da Europa de Cross-Country, em Lisboa, em 2019
Fonte: SC Braga Atletismo

– O curso de Medicina, ano de Jogos Olímpicos e as possibilidades em aberto no futuro no Desporto Profissional –

«Se não for aos Jogos, o Campeonato da Europa será o meu grande objetivo para a época».

BnR: Neste momento, estás a frequentar o curso de Medicina na Universidade do Minho. Como é que tens encarado o desafio de conciliar os estudos com o Atletismo?

Mariana Machado: É muito complicado. Muitas vezes, as pessoas pensam que o maior problema é conciliar os estudos com os treinos. Mas, para mim, é mais difícil conciliar os estudos com a minha recuperação pós-treino. Porque nós precisamos de descansar muito bem, fazer massagens, fisioterapia, reforço muscular… E isso aí é tudo à parte dos treinos. Devemos levar, pelo menos, duas massagens por semana, e eu apenas levo uma. Eu consigo fazer o curso, estudar e vir treinar, mas fazer o reforço muscular, fisioterapia, dormir nove horas… É meramente impossível conciliar tudo isto, ainda com um curso que é o de Medicina. No primeiro ano, fiz tudo como uma pessoa normal, e alcancei os resultados que alcancei, e tenho noção que há muitas coisas que ainda posso melhorar. Até este ano, também fiz tudo direitinho, e este ano é ano de Jogos [Olímpicos] e sei que devia estar a apostar um pouco mais. A verdade é que, há algo que não me deixa só viver do Atletismo, eu preciso de viver de mais alguma coisa. Mas, agora, no segundo semestre, tenho deixado um pouco de lado a universidade e tenho-me concentrado nas pequenas coisas que falhava, para ver o quê que este ano me vai trazer. E são estes pormenores que me podem levar mais longe, e eu espero que sim.

BnR: Qual é, para ti, a importância de ter um back-up em relação a uma profissão? Quero dizer, qual é a importância de ter uma garantia de emprego, caso as coisas não corram bem no Desporto Profissional?

Mariana Machado: Eu sou a pessoa mais apologista disso. Eu não consegui deixar a universidade, porque eu tenho a completa noção de que o Desporto não dura para sempre. Por exemplo, até aos 40 anos, conseguimos estar a bom nível, se tudo correr bem. Mas, a partir daí, torna-se impossível conciliar uma carreira de alto rendimento. Eu, como tenho a perfeita noção disso, nunca quis pôr de lado os meus estudos. Entrei em Medicina, e podia ter entrado com o estatuto de alto rendimento, mas não, sempre me esforcei ao máximo para não estar lá por outros aspetos a não ser o meu esforço e, isso, só me deixa orgulhosa. Quanto ao meu percurso académico, o Atletismo não dura para toda a vida, e por isso é que eu me foco bastante nos estudos e não consigo deixar. Se eu tiver uma lesão, tenho de ter algo para me agarrar, e tenho sempre um plano B. E é muito importante sentir que nós não vivemos só do Desporto.

BnR: Estamos em 2020, ano de Jogos Olímpicos em Tóquio, e o sonho dos Jogos Olímpicos parece estar a aproximar-se cada vez mais para ti. Acaba por ser uma das tuas maiores motivações, enquanto atleta?

Mariana Machado: Sim. Sinceramente, acho que ainda sou muito nova para participar nos Jogos Olímpicos. Se eu alguma vez conseguisse participar nos Jogos de Tóquio, era um sonho absurdo, porque eu nunca pensei, quando entrei na modalidade, com 19 anos, estar presente nos Jogos. A verdade é que, só o facto de pensar que, se não for a estes, terei que esperar mais quatro anos, também me deixa um «bichinho na barriga». Por isso, eu, ambiciosa como sou, este ano, vou dar um pouco mais de mim para ver o que consigo alcançar. Se não for os Jogos Olímpicos, também o meu primeiro Campeonato da Europa como Sénior vai ser possível, até porque acho que já tenho mínimos. Por isso, se não for aos Jogos, o Campeonato da Europa será o meu grande objetivo para a época. Claro que os Jogos é a maior competição que um atleta pode ambicionar. Mas, se não conseguir, não será o fim do mundo, até porque 2024 é, sem dúvida, um objetivo que considero mais realista, porque, com 24 anos, já vou estar mais madura, e terei mais margem de progressão até lá e posso estar mais confiante.

Mariana Machado em ação, no Campeonato Europeu de Pista, em Boras, na Suécia
Fonte: SC Braga Atletismo

BnR: És oriunda de Braga, e o SC Braga, bem como a cidade, acaba por ser uma das tuas maiores paixões. Num futuro próximo, já pensaste na possibilidade de vir a representar outro clube?

Mariana Machado: A verdade é que, há dois anos, quando assinei pelo SC Braga, tive propostas de outros clubes. Mas achava que ainda era muito nova para mudar para um clube como o SL Benfica, ou como o Sporting CP. E, apesar de algumas vantagens que eles me ofereciam, eu optei por ficar no SC Braga por amor à camisola, e não me sentia preparada para representar um clube que lida com muitas mais pressões do que o SC Braga. Com o SC Braga, sinto-me em casa, e não sinto essa pressão de obter grandes resultados. As coisas saem-me naturalmente, porque estou naturalmente no clube que gosto, e, isso, é sempre especial. Se há a possibilidade de mudar de clube? Há sempre a possibilidade, e eu espero que isso não aconteça. Espero que o SC Braga retribua o trabalho que eu estou a fazer, e a persistência com que encaro todos os treinos e provas para representar o clube, e que retribua da mesma forma que eu decidi e escolhi ficar no clube que me sinto bem, não só por isso, mas também porque seria uma vantagem para eles, em ter uma atleta que se formou no SC Braga. Por isso, da mesma forma que escolhi ficar no SC Braga há uns anos atrás, espero que quando receber propostas de outros clubes que sejam «superiores», que eles [SC Braga] se lembrem dessa decisão que tomei, por amor à camisola.

Desde o início da sua carreira que Mariana Machado tem representado o SC Braga
Fonte: SC Braga Atletismo

BnR: Já alguma vez te ocorreu a possibilidade de sair do país, e, posteriormente, representar um clube, no estrangeiro?

Mariana Machado: Já tive muitas propostas para os EUA, e continuam a surgir imensas. É uma possibilidade, acho que é uma experiência que gostava de ter, mas, por outro lado, é algo que penso que não iria lidar muito bem. Tenho um carinho muito especial, quer pela minha família, quer pelo meu grupo de treino, e, se as coisas estão a correr tão bem agora, porquê mudar? Foi uma decisão que ponderei muito, durante muito tempo, mas acabei por rejeitar todas. Penso que, futuramente, seria uma experiência que gostava de ter, mas, para já, não.

– Os desafios e as virtudes de praticar Atletismo em Portugal –

«É preciso apostar nos atletas, e não vale a pena termos grandes competições se não temos grandes atletas».

BnR: Vivemos num país onde o futebol domina sobre todas as modalidades. Neste contexto, achas que o Atletismo, enquanto modalidade, tem visto a sua importância acrescida no nosso país?

Mariana Machado: Eu acho que o Atletismo já teve muita importância no nosso país, principalmente na altura da minha mãe, e das suas colegas de equipa. E acho que, agora, perdemos um pouco, porque há falta de grandes resultados, de grandes atletas. Atualmente, temos uma Patrícia Mamona, um Nélson Évora, uma Dulce [Félix], uma Sara Moreira, mas que já estão em final de carreira. Acho que é preciso revolucionar o Atletismo, apostar em jovens. Ainda agora, no Campeonato de Europa de Corta-Mato, tivemos uma equipa de juniores toda medalhada… Acho que é preciso pegar nestes jovens e apostar mais neles, também para não falar de mim (risos). Apostar em nós [atletas], para mostrar que não é só futebol, também temos resultados noutras modalidades. Claro que é muito difícil, de um momento para o outro, mudar a mentalidade dos portugueses, e trazê-los para este estádio [Estádio 1.º de maio] assistir a provas de Atletismo enquanto não temos um nível que cative para vir cá, porque, como não temos atletas muito bons, os portugueses perdem o interesse. Fui à Suécia competir, e o estádio estava completamente cheio. É mesmo triste ver que aqui, em Portugal, a nossa modalidade não é valorizada o suficiente, e acaba por ser ingrato.

BnR: O facto de Portugal estar, cada vez mais, a organizar eventos nacionais e europeus de elevado calibre, no Atletismo, faz-nos pensar que tem crescido a valorização da modalidade no Desporto Nacional e também nos nossos atletas. Concordas com esta afirmação?

Mariana Machado: Acho que, organizar campeonatos é uma questão de Portugal querer organizar e ter dinheiro para tal. Agora, ter atletas portugueses de grande nível para estar nesses campeonatos, já é preciso um trabalho diferente. É preciso apostar nos atletas, e não vale a pena termos grandes competições se não temos grandes atletas. Agora, tivemos o Campeonato da Europa, acho que houve uma boa aposta no Atletismo. Mas eu preferia que eles apostassem mais nos atletas do que nos eventos, apesar de que têm apostado em alguns eventos, é sempre bom promover a modalidade, mas, mais do que isso, é promover os atletas e investir neles.

Mariana Machado participou no Campeonato Europeu de Cross-Country, que viu a passada edição ser realizada em Portugal
Fonte: Federação Portuguesa de Atletismo

BnR: Tal como outros atletas no nosso país, fazes parte do programa “Lidl Stars”, que ajuda no desempenho das promessas do Desporto Nacional. Para ti, qual é a importância destes programas para reconhecer o crescimento dos atletas nas modalidades em Portugal?

Mariana Machado: É muito importante termos o apoio, não só de empresas como o Lidl, ou da Adidas, porque, para além de nos motivar, dão-nos condições de trabalho – quer equipamentos, apostar na nossa alimentação – e, muito mais importante do que fazer grandes treinos, é importante os cuidados que nós temos. Adquirimos produtos de qualidade, e outras condições, não só a nível alimentar, mas caso precisemos de ir a um estágio, uma prova internacional, estas [condições] que nos ajudam a ser atletas ainda melhores, tal como a Adidas nos ajuda com material desportivo. E ambas as partes ficam a ganhar: nós fazemos publicidade, e eles proporcionam-nos os serviços.

BnR: Para ti, quais são as principais dificuldades que um atleta se vê obrigado a ultrapassar?

Mariana Machado: Acho que o pior, pelo menos falo por mim, é o facto de termos de abdicar muito dos momentos que estamos com a família, com os amigos, todas as viagens… Por exemplo, no ano em que fui quarto no Mundial, abdiquei da minha viagem de finalistas. Mas depois, fui quarto no Campeonato do Mundo, e valeu mesmo a pena. Acho que, estas decisões que temos que passar na nossa vida são o que tornam o desporto algo mesmo difícil de lidar. Uma pessoa vai treinar, comer, dormir, estudar… E não faz muito mais do que isto, porque não há mais tempo do que isso. É muita coisa que gira à volta do Desporto, que nos tira tempo, e saber que não tenho esse tempo para retribuir à minha família e aos meus amigos, deixa-me triste. Há momentos que estamos mais em baixo que começamos a pensar «será que vale a pena abdicar de tanta coisa na minha vida, se nem sequer sou valorizada no meu país?». Ficamos numa maré de indecisões, que, por fim, acabam por valer a pena quando alcançamos um recorde nacional, ou uma medalha.

BnR: Com ainda 19 anos, e certamente com um futuro brilhante pela frente enquanto atleta, qual é o conselho que dás às futuras gerações do Atletismo em Portugal?

Mariana Machado: Eu gosto imenso de falar com adolescentes e com crianças. Sou convidada para ir a escolas e falar sobre a minha história, porque sempre quis, um dia, inspirar as crianças e os adolescentes, como eu me sentia inspirada ao ver reportagens de atletas, de pessoas que conseguiam mudar o mundo. E sempre tive esse «bichinho» de tornar o mundo melhor. E, hoje em dia, gosto muito de partilhar a minha experiência. Nós sonhamos, e tudo é possível. É uma questão de nos esforçarmos, trabalharmos. Nas provas do Desporto Escolar, acabo por falar com as crianças e perguntar-lhes há quanto tempo estão na modalidade, se correu bem… Porque, muitas vezes, elas [crianças] estão em baixo, e eu digo-lhes «vocês ainda são tão novos, apenas divirtam-se». Porque, nos primeiros Campeonatos, é mesmo para isso, para divertirmo-nos e desfrutar do momento. Quando crescemos, começamos a ser cada vez mais ambiciosos, e a querer resultados cada vez melhores. Temos que os motivar a não desistir, apoiar na prática do exercício físico, que acho que é o mais importante. Depois, ao crescer, eles vão ver se é o Atletismo que eles querem mesmo praticar, ou se é outra modalidade, porque nem todos somos feitos para praticar Atletismo, e acho que o importante é experimentarmos um pouco de tudo, e vermos no que realmente somos bons.

Foto de Capa: Angelina Barreiro/Bola na Rede

Artigo revisto por Joana Mendes

Angelina Barreiro

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