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Há algo que o rapaz não faça?

Pedro Pires · 6 min

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Num fim-de-semana em que muitos olhares estavam focados em outras jovens promessas do desporto, foi, mais uma vez, Grant Holloway que voltou a surpreender o mundo com performances de elite. Consideramos, assim, que essa é uma boa razão para procurarmos dar a conhecer um pouco mais de um dos nomes mais excitantes do futuro do nosso desporto.

Já sabemos que dos EUA e, especialmente vindo do desporto universitário nacional, todos os anos saem dezenas de estrelas que serão o futuro do Atletismo do país e por adjacência do desporto a nível mundial, uma vez que o país norte-americano tem sido sucessivamente a nação mais medalhada em grandes eventos globais. Mas Holoway tem uma particularidade: ele faz tudo. E é bom em tudo o que faz! Para já, o jovem é o líder mundial na distância de 60 metros com e sem barreiras. Mas não é apenas na velocidade mais curta que tem mostrado as suas credenciais.

O miúdo das decisões difíceis

Apesar de ser um dos atletas em destaque neste início de 2019, não se pense que o nome de Holloway só começou a ser falado recentemente. Desde cedo elogiado pela sua versatilidade e pela qualidade que apresenta em várias disciplinas do Atletismo, Grant foi muito falado quando, em 2015, fez uma escolha muito pouco usual no desporto norte-americano.

Quando ingressou nos Gators, Grant Holloway podia ter optado por um diferente desporto
Fonte: Florida Gators

Tendo a possibilidade de ingressar na equipa de futebol americano dos Florida Gators em 2015, Holloway decidiu assinar pela equipa de Atletismo, preferindo um desporto que, como todos sabemos, permite maiores dividendos financeiros. A decisão deixou em estado de choque várias personalidades ligadas ao futebol americano universitário, que pretendiam ver o jovem optar por essa via, devido às suas condições físicas fora do comum. Na altura – quando acabara de completar os 18 anos –, Holloway optou por seguir o seu coração e perseguir aquilo que realmente sempre sonhou ser: campeão olímpico pelo seu país no Atletismo. Nos Gators, Holloway teria à sua espera como treinador o seu primo – Mike Holloway – numa relação que se tem revelado incrivelmente proveitosa para ambas as partes (o pai de Grant também é treinador de Atletismo no desporto escolar – High School – norte-americano).

Depois de uma época avassaladora no desporto universitário em 2018, Grant voltaria a ter uma importante escolha pela frente. Sendo cobiçado pelas principais marcas desportivas, mas com a opção de ainda fazer mais um ano no desporto universitário, o jovem anunciou a 21 de Junho que, contra todas as expetativas, iria voltar aos Gators e fazer mais uma temporada no desporto universitário. Numa carta publicada no site da equipa universitária, Grant afirmava que ainda não se sentia preparado para fazer do desporto uma profissão e para deixar os seus amigos e colegas de equipa. Ao mesmo tempo, não deixava de mostrar a sua ambição ao afirmar que também não se queria despedir do desporto universitário, tendo alguém à sua frente em alguns rankings nacionais.

A versatilidade

Por vezes ouvimos falar de atletas capazes de fazer com qualidade várias disciplinas, mas raramente associamos isso a marcas do topo da elite em todas as disciplinas em que competem. Tal parece mudar com o jovem norte-americano que, para todo o lado onde vai, carrega e mostra as suas raízes de South Chesapeake com orgulho. Nos últimos dois anos, sagrou-se campeão universitário na distância dos 110 metros com barreiras, naquela que pode ser apontada como a sua maior especialidade e onde espera seguir as pisadas de outros grandes talentos norte-americanos que fizeram história na disciplina, como é o caso do atual recordista mundial, Aries Merritt. Nessa disciplina e, quando ainda tinha apenas 20 anos, Grant correu no ano passado em 13.15 (+0.9), marca que o colocou como o norte-americano mais rápido em 2018 nessa distância e o 4º em todo o mundo, tornando-se também no segundo mais rápido de sempre do desporto universitário.

Também na distância mais curta com barreiras indoor (os 60 metros) correu em impressionantes 7.42 segundos (recorde universitário), marca que foi a mais rápida de todo o ano de 2018 – Holloway viria a não participar nos Mundiais de Pista Coberta devido aos compromissos universitários.

Este ano, Holloway já mostrou mais da sua qualidade e da sua velocidade sem barreiras. Começou o ano a correr os 200 metros em pista coberta em 20.69 (um novo recorde pessoal) – não há registos da distância no perfil da IAAF desde 2014 – e ainda mais impressionantes foram os 6.51 nos 60 metros neste último sábado em Fayeteville, a marca mais rápida na velocidade curta neste início de temporada em todo o mundo. Também nas distâncias mais longas, Grant já mostrou o seu valor, fazendo parte da estafeta 4×400 que venceu os Universitários em 2017, ao correr o percurso final em 43.89!

E agora perguntam-se “será que ele também salta”? Oh se salta! No ano passado, um dia antes do enorme recorde pessoal nos 110 metros com barreiras, em Knoxville, o jovem-prodígio saltou 8.17 metros (+0.6) legais no Salto em Comprimento e 8.32 com vento favorável (+2.9), o que demonstra que também no Comprimento já atinge níveis de elite (em pista coberta, tem um melhor pessoal de 8.13, também do ano passado). Nesse fim-de-semana, o jovem alcançou mesmo o que nunca alguém tinha alcançado, ao tornar-se no primeiro atleta da história a baixar dos 13.20 nos 110 barreiras e a saltar mais do que 8.10 metros no Comprimento – feito semelhante ao que já tinha alcançado uns meses antes em pista coberta, ao tornar-se no primeiro da história a baixar dos 7.50 nos 60 metros com barreiras e a saltar mais do que 8 metros no Comprimento.

No que concerne ao Salto em Altura, Grant não o faz desde 2015, mas os 2.15 metros que saltou em 2014, quando ainda tinha 16 anos, demonstram que o seu potencial é quase inesgotável! Falta saber o que vale nos lançamentos, mas será que queremos mesmo apostar contra ele?

O futuro e as semelhanças com uma certa lenda

Será difícil ver-se muito de Grant Holloway nos tempos próximos, a não ser que sigamos os vários meetings do desporto universitário norte-americano. Ainda que a época universitária acabe relativamente cedo – as finais dos NCAA realizam-se entre 5 e 8 de Junho – não se sabe se fará parte dos objetivos do atleta uma presença nos Mundiais de Doha, ainda com 21 anos. Não é de descartar, uma vez que os Trials norte-americanos realizam-se mais de um mês e meio depois (de 25 a 28 de Julho), o que pode permitir ao atleta um curto período de descanso e preparar-se, ainda, para atacar essa fase da temporada. No entanto, Holloway não será, com certeza, crucificado caso decida terminar a sua época a seguir aos Campeonatos Universitários e tirar umas longas férias antes de se preparar para um 2020 de Jogos Olímpicos em Julho/Agosto (e possíveis Mundiais Indoor em Março).

Tendo em conta o seu passado recente, parece-nos pouco provável que o atleta esqueça a sua aposta nas barreiras curtas, prova onde ainda parece mais forte. E, olhando para a sua competitividade, também parece improvável que não queira participar em mais do que uma disciplina em grandes eventos, fazendo lembrar grandes atletas de outrora. É uma prática que já foi muito mais comum do que o é hoje, mas a aposta no Comprimento, aliando a velocidade aos saltos, parece ser algo que se adequará na perfeição ao jovem norte-americano. À cabeça, claro que nos vem Carl Lewis, a famosa lenda norte-americana que um dia dominou, em simultâneo, os 100 metros, os 200 metros e o Salto em Comprimento – foi, por exemplo, medalhado de Ouro das 3 disciplinas nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984. Lewis venceu um total de 10 medalhas olímpicas em que 9 foram de Ouro e em Mundiais também conquistou 10 medalhas, em que 8 foram de Ouro. E, observando o estilo de corrida de Grant Holloway e a sua passada larga, quem consegue negar as parecenças entre ambos? Por curiosidade, em 2028 os Jogos regressão a Los Angeles.

https://www.youtube.com/watch?v=7fg-fz8ugF4

Por enquanto, o jovem, que já provou que é capaz de tomar e assumir decisões difíceis, não parece preocupado com as escolhas que um dia terá que tomar. Seja a correr e/ou a saltar, parece bem encaminhado para um dia, mais cedo do que tarde, alcançar aquilo que mais deseja: tornar-se campeão olímpico pelo seu país.

O futuro sorri a Holloway
Fonte: Florida Gators

Foto de Capa: Florida Gators

Artigo revisto por: Rita Asseiceiro

Pedro Pires

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